floquinhos

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A Poesia de Fernando Pessoa

(Álvaro de Campos)

Começa a Haver

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...

Vai tudo dormir...

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —
Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...

Vai tudo dormir...

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa.

6 comentários:

Maria Emília disse...

Fernando Pessoa era assim. Um génio, e como tal um insatisfeito sempre à escuta, sempre esperando.
Deixou uma obra riquissima e belissima só reconhecida depois da sua morte. Quando leio Fernando Pessoa, e faço-o muitas vezes, fica sempre dentro de mim uma interrogação sobre esta incessante procura do ser.
Um grande beijinho,
Maria Emília

Dulce disse...

Maria Emilia,

Fernando Pessoa nos leva ao mais profundo de nós mesmos, abre nossas almas para o que guardamos em nós e, por medo ou por descaso nem nos atrevemos a antever.

Beijinhos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Quantas vezes me revejo nete poema, minha amiga...

Dulce disse...

Eu também, Carlos... Eu também...

Lourdes disse...

Olá Dulce,
também Pessoa é um dos meus poetas preferidos. Por acaso meu filho nasceu também no dia 13 de Junho, o que me faz gostar ainda mais dele. É só uma curiosidade.
Beijinhos

Dulce disse...

Lourdes,

Mas é bom demais aniversariar no mesmo dia que Fernando Pessoa.

Bjs.