terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Florbela Espanca - Meus poetas do coração

O meu impossível

Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!

Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...

Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...

Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Mais um pensamento...

(Noite de Natal - Winchester, MA - 2008)

"E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível."

(Albert Camus)

A casa vestida para o Natal


No hall do elevador, a Sagrada Familia (feita em juta) e a alegria do Papai Noel dão as boas vindas. Até a carranca vinda lá do Rio São Francisco veste-se para o Natal e perde o ar assustador.



A árvore a um canto da sala, junto ao terraço e a lareira toda prontinha para receber Papai Noel



Esta pequena Vila de Natal começou com um presente da Mara, minha queridíssima amiga lá de Michigan e, na verdade, grande parte das casinhas e das figuras foram presentes dela em diferentes Natais. É muito linda.
Está montada na cristaleira, próximo à árvore.


Nas fotos acima, minha decoração para o Natal deste ano, aqui da casa. Como vou receber meus gringuinhos, que faz já sete anos que não visitam o Brasil, e quero que encontrem a casa da vovó bem alegre, andei colorindo cada ambiente da casa com a alegria das festas de Natal. E vou colocar os presentes sob a árvore e pendurar nela figuras do Papai Noel em chocolate, como costumava fazer com meus filhos.
Na verdade, vamos todos passar o Natal em casa de meu filho mais velho, em Campinas, mas quero que ao chegar os meninos se sintam acolhidos. Como todos os outros netos que sabem bem que a casa da avó é lugar de aconchego.
E assim seguem os preparativos para a mágica época de Natal...

(clicar nas imagens para ampliar)

domingo, 29 de novembro de 2009

Meus Poetas do Coração - Fernando Pessoa

SOU EU

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio! ...


Uma reflexão...


"Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia primeiro do mês e de cada novo ano é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça..."

(Mãrio Quintana)



Paixão no outono da vida...


Hoje presto uma pequena homenagem a uma querida amiga que, mal começando a transitar pelo outono da vida, sentindo seu coração explodir de paixão, feliz, escandalosamente feliz (graças a Deus, ainda se consegue ser feliz neste mundo maluco), confidenciou-me seu estado d'alma e seus receios. Tenho esta crônica escrita faz bem uns pares de anos e gostaria que ela lesse e assim soubesse que a coisa melhor que pode acontecer na vida de uma mulher é uma paixão tardia. E que soubesse também que vai provocar muita inveja nas pessoas mal resolvidas na vida, mal amadas, mas esse será um problema só delas...
E que o final da crônica não lhe pertence... Só vale aqui o estado d'alma que um dia aconteceu...
Pois minha amiga, viva seu momento. Seja muito feliz, pois você merece. Hoje o Em Prosa e Verso é todo seu.
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Paixão no outono da vida

Paixão é sentimento arrebatador, que chega rompendo barreiras, pondo fogo no corpo e na alma, não pede licença nem conhece medidas, não tem idade nem preconceitos, não mede distâncias nem tempo. E quando resolve se instalar num pobre coração que transita pelo outono da vida, pode fazer estragos irreparáveis, pois tira do sério esse coração e faz dele um brinquedo, um boneco de pano que ao fim acaba jogado, desbotado, sem encantos, para o resto de seus dias...
E quem, em sã consciência, pode supor que depois dos sessenta ainda se tenha tanta ânsia, tanto desejo dentro de um corpo já desgastado pelos desencantos da vida? Esse pobre ser passa então a esconder seus anseios e seus sonhos mais profundos, mais lindos, sonhos que encantariam qualquer adolescente, porque teme ser ridicularizado pela sociedade que nega aos mais velhos todo e qualquer direito de amar, de ser amado, de viver plenamente e de ser feliz. Essa sociedade cruel que trata seus velhos como objetos descartáveis, como algo que devesse ser escondido no armário, pelo simples fato de já não terem mais o viço e a beleza tão passageiros da juventude.
E no entanto, ao transitarmos pelo outono da vida, a paixão acontece em toda a sua plenitude! Como entre os mais jovens, ela chega e toma conta de tudo. Os dias parecem novamente cheios de cores, de luzes, de musicalidade. O olhar volta a ser brilhante e o sorriso paira nos lábios. Tudo fica mais bonito, mais alegre... Vive-se então um período pleno, muito mais intenso, porque traz o gosto desesperado do último sonho, da última esperança, porque na maturidade tudo tem um outro sentido, um outro sabor, uma vez que nessa fase da vida nós nos agarramos com unhas e dentes àquilo que nos faz viver. E existe algo que desperte mais o sentimento de vida que a paixão?
Mas se a um homem maduro esse sentimento ainda é permitido, ou melhor, tolerado, o mesmo não ocorre quando se trata de nós, mulheres! Nós não temos reconhecido esse direito! Não nos podemos atrever a viver essa doce loucura chamada Paixão... Se inadvertidamente formos atingidas por ela, passamos a ser encaradas como ridículas criaturas, como velhinhas safadas e sem vergonha, como possíveis esclerosadas. Negam-nos o direito à vida, negando-nos o direito ao amor... Mas que sabem eles, os pobres jovens, da vida e do amor, da paixão e da dor que ela pode nos causar? Pensam que sabem... Apenas pensam, como nós já pensamos um dia...
Acontece, porém, que a alma amadurece sem envelhecer e o coração, quando inquieto, não percebendo a passagem do tempo, continua ansiando por incontidas emoções que o elevem num doce sonhar, às alturas de um amor sem fim, que o faça perceber luz entre as trevas, sol em meio à chuva, luar por sobre as águas em noite de tempestade, sons de anjos cantando em meio ao burburinho de uma multidão, paz incontida de uma ternura tão grande que possa transformar este mundo insano e cruel em um delicado jardim florido onde possam ser depositados todos os seus anseios.
Paixão que explode no outono de uma existência é fase ímpar na vida de quem, já longe do "glamour" da juventude, sequer suspeitaria poder ainda se sentir tão viva, tão plena, tão mulher. Passada essa fase de paixão, restam as doces lembranças do que poderia ainda ter sido... Lembranças, que acalentam o coração, apesar de tudo... Acalentam o coração, mas não diminuem o vazio que se instala então... Um vazio que dilacera, que permanece para sempre...

Dulce Costa
Numa madrugada gelada, num dia qualquer do ano de dois mil e quatro, sob os efeitos de um luar imenso que se esparrama por sobre a cidade e invade minha alma.

sábado, 28 de novembro de 2009

Tenho pensamentos...


Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.

(Fernando Pessoa)