floquinhos

segunda-feira, 6 de abril de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (24)

O REALEJO

“Naquele bairro afastado,
Onde em criança eu vivia,
A remoer melodias
D’uma ternura sem par...
Passava todas as tardes,
Um realejo risonho
Passava como num sonho,
Um realejo a tocar...”

Quem quer que tenha vivido na São Paulo da Garoa, nos dourados anos 50, certamente conhecerá a ambos: à velha canção e ao poético realejo. Era presença de todas as tardes nas ruas do velho Bairro do Brás e as meninas sonhadoras ficavam alvoroçadas, achando que naqueles pequenos papéis coloridos iriam ter as respostas para as ansiedades de seus românticos corações.
O som peculiar preenchia o ar anunciando a presença daquele homenzinho sorridente e gentil que ao girar da manivela ia liberando esta ou aquela música, de acordo com as meninas que estivessem chegando para saber a sorte que viria anunciada pelo bico de um barulhento periquito. Aquele senhor de roupas surradas, chapéu cobrindo os bastos cabelos grisalhos, bigodes amarelados pela nicotina e, claro, um sotaque italiano na voz ainda forte, vinha como um mensageiro de Eros, sempre com mensagens positivas, alegrar as jovens almas com palavras como: “vais ser muito feliz no amor”, ou, “Alguém suspira por ti e aguarda um teu olhar”, ou ainda, “Não te preocupes, teu amor é plenamente correspondido”, entre outras estimulantes frases e sempre terminando com: “vais ganhar na loteria com o número.........” !
E alguém estava lá interessada em ganhar na loteria? Tudo o que elas queriam, no momento, era saber se seu amor era correspondido ou se seu príncipe encantado estava à espreita, aguardando o momento propício para aparecer e transforma-la na mais feliz das mulheres... Ah, se naquele momento elas pudessem adivinhar que o tempo, em sua inclemência, acaba transformando lindos príncipes em enormes sapos!... Mas, como se costuma dizer, o futuro a Deus pertence e naquela hora tudo era sonho, tudo era esperança, só existiam sorrisos naqueles rostinhos adolescentes.
Num dia destes, estava eu num shopping center á procura de um presente para uma amiga quando um som muito familiar ressurge lá do fundo de minha memória e vai tomando conta de mim... Vou seguindo essa voz do passado entre as luzes do presente e me deparo com um lindo realejo! Muito parecido com o de minha adolescência... As mesmas músicas, o periquitinho puxando papeizinhos coloridos de uma caixinha... Linda imagem que o tempo não apagou! Detive-me então na figura do homem. Esse sim o tempo tinha trocado. Baixo, magro, calças jeans, camiseta e, na voz que pedia ao pássaro que bicasse o papel para carimbar, o forte sotaque nordestino, que mostrava claramente a mudança cultural que se opera em Sampa. Além do que, em volta do velho realejo, as sonhadoras mocinhas em busca de seu amor, cederam lugar a um bando de crianças encantadas com a “novidade”. As meninas de hoje buscam seus príncipes na Internet. Um simples periquito não tem a força de um e-mail...

“Ficou a saudade
Comigo a morar...
Tu cantas alegre e o realejo
Parece que chora
Com pena de ti...”

(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")


4 comentários:

heli disse...

Dulce!

Que doces lembranças!

Tem periquitinho na internet também...
Olha que lindinho o que achei no Google:

http://planetadinamica.terra.com.br/produtos2006/realejo/index.htm

Lourdes disse...

Pois é, Dulce, já Camões dizia: " Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades..."
Beijinhos

Dulce disse...

Heli,
Acredita que o periquitinho acertou? risos...
Beijos

Dulce disse...

Lourdes,
assim o é... mesmo...
beijos