floquinhos

sexta-feira, 3 de abril de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (22)


O JOGO DO BICHO


Vejo, pela TV, imensas filas que se formam nas Casas Lotéricas, ouço o apresentador dizer que o prêmio da Mega Sena está acumulado em sei lá quantos milhões de reais e me dou conta das incongruências de nossas leis. O jogo rola solto através da Sena, da Loto, da Raspadinha e de nem sei mais o que, comandado e controlado pelo próprio governo federal, sem contar os verdadeiros rios de dinheiro que correm pelos Bingos da vida, onde pessoas que até eu conheço bem encontram-se em dificuldades financeiras porque não conseguem ficar afastados desses locais, na esperança de recuperarem o que perderam e até mesmo de chegarem a melhorar seu padrão de vida, esperando a sorte mudar de lado e virem a ser ganhadores. E, num país onde o jogo de apostas tem as benesses do governo, os cassinos são proibidos e o famosíssimo “Jogo do Bicho” vive fora da lei e perseguido, é contravenção, gerando conflitos e levando seus promotores até para a prisão (lá muito de vez em quando, é verdade, mas enfim, oficialmente, é o que deveria ocorrer).
Mas nem sempre foi assim. Quando eu era menina, esse era um jogo perfeitamente aceito e praticado em larga escala, principalmente pelas camadas mais pobres da população que arriscavam uns trocados num palpite, como se dizia então, fazendo sua fezinha nos denominados Chalés, parentes pobres das nossas atuais Casas Lotéricas onde, duas vezes por dia, pela manhã e à tardinha, os resultados eram fornecidos em papeizinhos que até as crianças iam buscar por ordem dos pais, e não sei de nenhum apostador que nunca tivesse defendido alguns “minguados carangolés” ao longo desse tempo. Eram cinco números de, se a memória não me estiver traindo, cinco algarismos cada e as apostas eram feitas de acordo com a fé do jogador que entrava no Chalé dizendo: “hoje tive um sonho meio estranho, acho que vai dar jacaré... bota cinco “merréis” (cruzeiros) no jacaré, do primeiro ao quinto”, isso quando o palpite não era lá muito forte, porque assim, se desse o jacaré, ainda que fosse no último prêmio, ele teria pelo menos a devolução do dinheiro, que certamente usaria para fazer sua fezinha no dia seguinte quando, se o palpite fosse forte faria com que ele entrasse cheio de coragem no mesmo Chalé dizendo: “hoje vai dar a cobra... não pode falhar. Sonhei com a minha sogra... vai dar cobra, na cabeça!... Descarrega tudo no primeiro prêmio, na cobra...” A cada bicho era atribuído um número e jogava-se nos bichos, realmente. Os palpites, quase sempre eram tirados de um sonho ocorrido durante a noite e que precisava ser interpretado. A “ciência” estava em saber interpretar os sonhos... E nisso, meu pai era bom!...
Uma vez, estávamos todos reunidos na sala de jantar lá do casarão, quando meu tio João chegando para o lado de meu pai disse:
- Zé, tava querendo fazer uma fezinha pra defender uns trocados, tive um sonho que pode ser um bom palpite, acho que vou até o Chalé lá da Caetano Pinto... Vou jogar no elefante, do primeiro ao quinto... Quem sabe dá... Sei lá, o sonho foi esquisito...
- Que foi que você sonhou?
- Bom, sonhei que estava andando num parque e que, de repente, vi um elefante trepado numa árvore.
- Ah, então joga no burro! Joga tudo no burro, no primeiro prêmio.
- No burro? Ora essa, e porque? Sonho com o elefante e vou jogar no Burro?
- Claro! Elefante que sobe numa árvore é burro!...
Naquela tarde, quando foram conferir os resultados, meu tio João quase arrancou os cabelos de desespero porque, descrendo da interpretação de meu pai, jogara no elefante e... Deu burro!... Na cabeça!

(Do livro: "Encontro com a menina que eu fui")

2 comentários:

Uwish4 disse...

Como o mundo muda e como é diferente em cada pedacinho de terra deste Planeta. E toda essa diferenca cria sempre multiplas formas de encarar o mundo e os outros. É incrivel a quantidade de vezes que nos esquecemos que somos seres unicos e individuais, que nossas vivencias nos afectam de tal forma que todo o intrincado de pensamentos complexos que nos caracterizam como pessoas, nao poderiam, alguma vezes, ser nem que minimamente iguais a pessoas que vivem ao nosso lado.

Somos seres unicos... com corpos unicos... até a simples imagem visual que os nossos olhos recebem e o nosso cerebro descodifica nunca é igual á mensagem que os olhos da pessoa ao lado interpretaram.

Seriamos, por isso, seres melhores, mais inteligentes e mais felizes (!!) se aprendessemos a conjugar essa diferenca, em vez de nos isolarmos cada vez mais em nosso mundo e nossa razao e nossas teimas (e contra mim falo!)...

Um bem haja por esses textos, aquecem cá dentro, enriquecem meu conhecimento do mundo, minha alma, minha imagem que meus olhos nao viram, mas que tambem foi minha, pois foi partilhada!

Dulce disse...

Uwish4
Muito obrigada por sua visita e pelo seu comentário, lúcido, colocando em palavras o que deveria mesmo ser forma de conduta e de se ver o mundo.
E fico feliz que essa pequena viagem através do tempo que minhas crônicas possam ter-lhe proporcionado tenha sido agradável. Obrigada.
Abraço