floquinhos

quarta-feira, 8 de abril de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (26)


DIA DOS NAMORADOS


Atualmente, e por fortes razões comerciais, comemora-se tudo: Dias das Mães, dos Pais, da Avó, dos Namorados, enfim, tudo é motivo para aumentar as vendas e movimentar o comércio. É uma prática que veio crescendo através das últimas décadas e está hoje tão arraigada que, por mais indiferente que seja, qualquer mãe, avó ou namorada, fica completamente frustrada se não for homenageada em seu dia.
Minha primeira lembrança do Dia das Mães está lá longe mas ligo-a ao meu primeiro trabalho de artesanato. Na escola, sob orientação da professora, pintamos sobre um azulejo um pequeno coração, umas flores e os dizeres “para minha mãezinha”, azulejo que minha mãe nem conservou – suponho que tenha ficado horrível mas eu o achei lindo demais, um primor!... Era assim que as homenageávamos: com trabalhinhos e cartões feitos com muito amor e entregues com alegria e deslumbramento. Nem se cogitava em presentes.
Já o Dia dos Pais veio bem depois e confesso que não me lembro qual foi o primeiro presente que ofertei a meu pai nesse dia mesmo porque, naquela época, os pais eram tão machões que não nos atreveríamos a ofertar-lhes um azulejo ou uma flor feita de papel, mas certamente acompanhava-o um cartão feito pelas mãozinhas inexperientes e sem nenhum talento para o desenho de uma filha que o amava muito.
Mas, o primeiro Dia dos Namorados de que me lembro, surge em minha memória com a doce lembrança de minha querida amiga Neyde. Estávamos na adolescência e éramos inseparáveis. Lembro-me de seus comentários sobre a proximidade da data e de como ela gostaria de ter um namoradinho, qualquer um, só para receber flores. Mas éramos duas pirralhas e, embora ela fosse dois anos mais velha que eu, ainda era jovem demais para os padrões da época.
Na noite de 12 de junho, estávamos na porta de casa conversando e olhando sonhadoras para os casais de namorados que passavam, mãos entrelaçadas, brilho no olhar, num ir e vir prazeroso – naquele tempo namoro era isso: passear de mãos dadas, parando em algum lugarzinho mais discreto, como a sombra de uma árvore ou o vão de uma parede, para uma troca de beijos, para logo em seguida continuar nesse ir e vir que hoje pode parecer tolo mas que para aquelas duas meninas sonhadoras parecia a oitava maravilha do mundo de então... mas estávamos conversando sobre isso quando uma jovem se aproximou e perguntou se poderia ficar conosco até a chegada de seu namorado, porque dali poderia divisar a esquina da Rua Piratininga, que era onde tinham marcado para se encontrar – outro costume da época, marcar encontros na esquina próxima à casa da moça.
Abro aqui um parêntese para comentar um pouco mais os costumes de uma época romântica que já se foi, o doce ritual do namoro: O rapaz chegava e ficava esperando. A moça via-o chegar e saia então de casa para ir ao encontro dele, passeavam por cerca de meia hora e a moça retornava para casa. Ah, e tinha também dia certo para esses encontros, ou melhor, dias, já que as terças, quintas, sábados e domingos eram dias de namorar. E as coisas aconteciam muito devagar. Primeiro havia o flerte, o “tirar linha”, como se dizia então, período que poderia variar de dias a meses, dependendo do “atrevimento” do rapaz. Depois ele chegava e pedia a garota em namoro, namoro esse que era também um longo período todo dividido em etapas: nos primeiros dias não era permitido ao rapaz nem segurar na mão da namorada. Lá pela segunda ou terceira semana, e muito ao poucos, ele ia segurando a mão dela e passavam então a andar de mãos dadas. Um mês depois ele começava a ensaiar o roubo de um beijo, que às vezes ainda levava uns dias para acontecer... À medida que o tempo fosse passando e o namoro fosse “ficando firme”, passavam a andar de braços dados e então, quando percebessem que se gostavam e que não poderiam mesmo ficar um sem o outro, passavam a namorar em casa, sob as vistas e o consentimento dos pais e isso significava que estavam noivos. Quando marcassem a data do casamento, e essa data poderia ser breve ou distante, não importava, passava a ser “noivado oficial” e usariam já as alianças na mão direita, as mesmas que iriam para a mão esquerda com o casamento. Tudo isso poderia levar de um a três anos, dependendo das posses do rapaz que, para casar precisava ter um emprego e condições para montar a casa onde morariam. Essa história de os pais montarem a casa, os padrinhos e convidados do casamento arcarem com os eletrodomésticos e afins não existia. Havia um ditado muito popular, à época: “Quem casa, quer casa” e ao noivo cabia a tarefa de mobília-la, enquanto que era da competência da noiva toda a roupa de cama, mesa e banho, necessária ao casal.
Mas, voltando àquela noite, a moça ficou conosco mais alguns momentos e, ao divisar a figura do rapaz na esquina, desculpou-se e foi ao encontro dele. Ficamos conversando por mais uma meia hora quando a vimos voltar, toda feliz, trazendo nas mãos um pequeno pacote que nos mostrou orgulhosa dizendo que fora o presente do Dia dos Namorados. Era um frasco de perfume. Despediu-se, agradeceu a companhia e foi embora, em direção à Rua Caetano Pinto, deixando minha amiga boquiaberta com o presente e dizendo que agora, quando tivesse um namorado não ia mais querer flores, que murchavam logo no dia seguinte. Ia querer um perfume, um maravilhoso perfume que usaria por muito tempo, não para se lembrar do rapaz, mas para se sentir querida, porque, na opinião dela, era preciso gostar muito da moça para gastar tanto dinheiro com um frasco de perfume... Ah, doce ingenuidade!... Aquele era um simples e muito barato vidro de “Violino Cigano”...

(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")

2 comentários:

Osvaldo disse...

Oi, Dulce;

Como sempre, crónicas lindíssimas e que até posso testemunhar como verdadeiras (esta), porque sou dessa época e era bem assim que tudo se passava... para desespero do rapaz.rsrsrsrsrs.

Áh,... o meu primeiro presente para a primeira namorada, hoje minha esposa, foi um lindissimo cartão dedicado a esse dia e que eu, como não tinha muito jeito para essas coisas, mandei e esqueci de tirar o preço...
Ainda hoje, quando compro algo para oferecer, a Ana me pergunta se tirei o preço, antes de o oferecer-mos!!!!!

bjs, Dulce
Osvaldo

Dulce disse...

Osvaldo
São doces lembranças essas que trazemos ao longo da caminhada. Esquecer de retirar o preço de um presente rendeu a vocês tantos outros momentos de descontração e alegria... E assim vai se formando a história de vida de um casal... Lindo demais isso.
Beijos