floquinhos

terça-feira, 28 de abril de 2009

Palavras guardadas pelo mar...


O amanhecer encontrou-a caminhando sobre a areia molhada daquela praia distante, vazia aquela hora da manhã. Seus pensamentos rodavam desordenados em sua cabeça... Como se portar diante da enorme incerteza que lhe preenchia a alma? A água gelada, vinda em pequenas ondas banhava seus pés descalços e a barra de seu vestido, trazendo uma sensação de frio ao seu corpo cansado pela noite insone... Tantos projetos inacabados, levados pelo vento e agora que ela finalmente sentia-se em paz, conformada em viver um momento sem sobressaltos, numa rotina que lhe parecia benfazeja, aquela presença retornava a sua vida, assim, como se tivesse saído do nada, ou de um passado que ficara retido em suas lembranças, pedindo continuidade, exigindo um espaço que já não lhe cabia.

Porque ele resolvera voltar agora, exatamente agora, quando tudo parecia estar em seus devidos lugares, quando a paz parecia finalmente reinar em seu pequeno mundo? Um mundo sem emoções, era verdade, onde sua alma inquieta e inconformada reclamava da solidão em que fora lançada... Percebia assustada que não o esquecera, que talvez não o esquecesse nunca.
As flores vieram com um pedido de perdão, os telefonemas diziam de seu arrependimento, os e-mails contavam de seu amor, amor pelo qual ela tanto lutara e que acabara por leve-la quase ao desespero quando ele se foi seduzido pela juventude que ela já não poderia ostentar, O encanto passara tão depressa quanto tinha vindo, e ele tentava, agora, retornar ao aconchego do amor antigo,
Não!... Não cederia aos apelos de sua tresloucada alma, não queria voltar aquele mundo de incertezas em que vivera por tantos anos. Quebrada a confiança, nada, jamais, seria como antes. Haveria sempre a magoa escondida num cantinho de seu ser, Haveria sempre o medo de um novo encanto dele pela juventude, mais um desencanto para seu coração...
Decidida, já ia retornando a casa quando sentiu, vinda lá do fundo da alma uma pergunta que a fez estremecer... sentou-se na areia molhada, lágrimas escorrendo pelo rosto, braços cruzados sobre o peito que parecia doer e entre soluços sufocados, sussurrou: “E este amor? Este imenso amor que tenho ainda dentro de mim? Que faço com ele?...”
O vento batendo em seu rosto levou suas palavras para o fundo do mar e ela se deixou ficar ali, sozinha, mais só do que nunca, sem coragem para recomeçar...

Dulce Costa
Na manhã do dia vinte e oito de abril do ano de dois mil e nove.

4 comentários:

heli disse...

Adorei seu texto Dulce!!!
Melancólico!!??
Me vi sentada na areia, revivendo sonhos...
Bjs

Dulce disse...

Heli,

Obrigada.
Sim, melancólico, como todo amor que não é tratado com carinho, mas...

Reviver sonhos sempre é bom.
bjs

Maria Emília disse...

Dulce, não acho que o texto seja melancólico. É uma história bem escrita de um caso que se repete e repete. Não entendo a falta de coragem para recomeçar. Dar mais uma oportunidade a si própria e ao outro. Se não a der, se não conseguir perdoar, nunca vai saber
se fez bem ou não. A dúvida é pior do que a dor.

Um grande abraço,
Maria Emília

Dulce disse...

Maria Emilia

Pois é, mas nem todos tem a capacidade de perdoar, a coragem de recomeçar... O medo de novas decepções, de novos sofrimentos, as vezes fala mais alto...
Mas gostei muito do seu comentário. Obrigada.

Grande abraço.