floquinhos

terça-feira, 30 de junho de 2009

Dois selinhos, dois mimos...


O "Em Prosa e Verso, com bastante razão, está se sentindo todo prosa porque a gentil amiga Waleria, do ótimo blog Wallarte acaba de oferecer dois lindos selinhos que, a partir de agora ficam guardadinhos no "O Livro dos Meus Selos", que nada mais é do que uma pequena galeria especialmente criada para abrigar esses mimos que lhe são atribuidos.

Muito Obrigada, Waléria.

Um abraço que envolve a alma...


Para mim, nada pode ser melhor do que um abraço...
Qualquer que seja o abraço, dado no momento certo, ou em qualquer momento, é sempre uma demonstração de carinho, de afeto, de amizade. Ser estreitado num abraço recompõe a nossa alma, aquece nosso coração, anima nosso espírito, minora nossa dor e, na forma como se á abraçado, sabemos o quanto esse abraço significou para quem nos abraça. Um abraço ligeiro, meio distante, pode significar timidez, ou indiferença, dado como que por obrigação. Um abraço mais rígido pode ser dado por uma pessoa mais endurecida pela vida, menos carinhosa ou que não se sinta a vontade para exprimir seus proprios sentimentos. Um abraço amigo, ah, que delícia, apertado, gostoso, uma união de quem se quer bem.
Mas o melhor de todos, o abraço carinhoso que abrange corpo e alma, que envolve, que acolhe, que faz o mundo girar mais rápido, que nos faz esquecer que há outras vidas em torno de nós... ah... esse abraço... É quase uma comunhão de almas...

Pessoas há que esperam esse abraço por toda uma vida e levam, ao partir, a frustração de nunca o terem sentido. Porque há pessoas que se amam, se abraçam, mas não se doam. Como há pessoas que acham que o amor só é demonstrado através do beijo, quando na verdade, o beijo complementa o abraço, já que raramente acontece o beijo sem o abraço... Mas o abraço pode acontecer sem o beijo e ser maravilhoso.
Passei toda a minha adolescência sonhando com um abraço. Nem queria mais... só que ele me desse "o abraço", aquele vindo da alma, dado com o coração, aconchegante, terno, doce, acima de qualquer desejo, apenas um abraço... Ficou o sonho irrealizado, como tantos que minh'alma abrigou ao longo de minha vida. E a vida ficou me devendo esse abraço...
Tive amores, tive amigos, tive tantos abraços, mas continuava a pensar em como teria sido bom "aquele" abraço que não tivera nos meus verdes anos. e acho que a vida, cansada de tanto me ver lembrar desse inexistente abraço, teceu seus pauzinhos e me colocou, mais de cinquenta anos depois, frente a frente com minha primeira paixão.
Numa reunião de amigos, lá estava ele, envelhecido, como eu, mas com o mesmo brilho no olhar. Muitas conversas, risos, casos contados, momentos de descontração, de alegria e ao final, na despedida... o abraço! E aí a vida pagou sua dívida! Em não mais que segundos, o mundo girou mais rápido, as pessoas em volta já não existiam, Tudo era só ternura, carinho, afeto. Pareceu que nossas almas se abraçavam após séculos de ausência... Um abraço e mais nada... Um abraço que foi tudo... Um abraço... O meu tão sonhado abraço...
Vocês já tiveram o seu? Gostariam de me contar como foi? Eu amaria saber...

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Uma delicada orquídea com um nome curioso...


Estou, desde sábado, em visita a meu filho na linda cidade de Campinas, distante cem kilômetros de São Paulo, aonde moro e, passando pela casa de Dona Conceição, a mãe de minha nora, não pude deixar de fotografar as orquídeas que ela cultiva e que são um de seus orgulhos. Entre elas, todas lindas, esta da foto que tem o curioso nome (popular) de "Sapatinho de Nossa Senhora". É uma flor pequena e de aparência muito delicada, mas que se mantém linda por semanas.
E, já que falamos de Dona Conceição, preciso deixar aqui minha admiração por essa mulher lutadora e forte que tem vencido adversidades com muita garra e sempre com um sorriso doce estampado no rosto e uma palavra amiga para todos que dela se acercam.
Doceira exímia, complementava o orçamento doméstico fazendo bolos e doces para festas e até hoje, aos oitenta e três anos mantém sua casa funcionando perfeitamente organizada, arrumada e prontinha para receber os amigos que toda tarde passam para um cafezinho (com bolo, claro) e dois dedinhos de prosa que ela e o marido, o Sr. Alcides, também ele uma fortaleza aos noventa anos, não dispensam. E além das tarefas da casa ela ainda participa ativamente das atividades da sua igreja e não dispensa sua horinha de hidroginástica três vezes por semana.
E todos os domingos meu filho vai buscá-los para que passem o dia com eles e lá vem a incansável Dona Conceição sobraçando uma vasilha com um doce feito por ela para a sobremesa, ou um bolo para o café da tarde, uma torta diferente para o almoço, enfim, nunca chega de mãos vazias porque, segundo ela, seu maior prazer é ver filhos, netos, amigos, felizes ao saborear sua culinária... Uma doce pessoa que trata meu filho como se filho dela fosse (e acho que na verdade o é, pelo carinho e amor que os une) e, como dizia minha santa avoizinha, "quem meus filhos beija, minha boca adoça", ganha assim minha admiração, meu respeito e meu carinho.
E, como tenho certeza de que ela ficaria imensamente feliz se pudesse oferecer a cada um vocês, meus amigos e leitores deste blog, uma de suas orquideas deixo aqui essa delicada flor para quem a quiser levar para enfeitar seu dia.

domingo, 28 de junho de 2009

Um momento com Thiago de Mello

(Esta linda orquídea também foi cultivada por Dona Conceição - veja postagem acima)

Ninguém me habita


Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.

Rosas que simbolizam amizade


A querida amiga Isa, do lindo Momentos Meus, sempre tem uma palavra amiga, um gesto de carinho para nos encantar. Hoje está nos alegrando com este lindo bouquet de rosas que aceito com o mesmo carinho que tenho recebido dela todos os dias.
Obrigada Isa!...


(Este lindo selinho ficará guardado no "Meu livro de selos)


Meus Poetas do coração - FERNANDO PESSOA

Apostila

(Alvaro de Campos)

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto?

Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,

E estremece, no mesmo movimento que o da terra,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

sábado, 27 de junho de 2009

Um lindo amanhecer

"Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direcção."
(Antoine de Saint Exupery)

Que haja sempre um lindo amanhecer no horizonte de cada um de vocês que, ao passarem por aqui, fazem com sua presença meu dia muito melhor.
Bom final de semana para todos.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Um blog com Coração de Ouro


O "Em Prosa e Verso", feliz da vida, acaba de receber mais este selinho lindo e significativo da querida amiga ISA, do lindo blog Momentos Meus, pelo qual agradeço, de coração.
Muitíssimo obrigada Isa.

- O que se impõe ao recebe-lo é apenas expo-lo em seu blog ou no seu cantinho de mimos
- Passá-lo (ou não) para outros dez blogs.

Então vou colocá-lo no "Livro dos Meus Selos", um cantinho criado especialmente para abrigar as gentilezas e as demonstrações de carinho e amizade que nos são enviados em forma de Selos.
E mais uma vez, muito obrigada, Isa!

Ah, as coisas que meus ouvidinhos tem que escutar...


Ai, que os meus ouvidinhos estão tão doloridos!... rs...

Hoje tirei a manhã para cuidar de mim, então marquei hora no cabeleireiro e lá fui eu enfrentando o friozinho e o cinzento do dia, tudo pelo amor aos meus cabelinhos que estavam já precisados de um corte e de um retoquezinho na tintura. Acomodei-me na cadeira e entreguei minhas melenas as mãos habilidosas da funcionária do salão, tentando enganar o tédio que sinto em lugares assim com a leitura (de bordo) especializada em banalidades e fofocas, sempre presentes por lá... mas os assuntos eram de tão pouco interesse que fechei a revista e os olhos e abri meus ouvidos para o que se passava em torno de mim... Ah, que coisa de louco!... As conversas eram tão fúteis quanto as revistas. Discutiam acaloradamente quem deveria ou não sair de uma “fazenda” e aquilo parecia a coisa mais importante de mundo, até que se lembraram do pobre do Michael Jackson e de sua morte prematura e inesperada (segundo elas mesmas). E depois de discutirem a fortuna do astro, cogitarem sobre a possibilidade dele ter morrido pobre (eu, heim?) esforçaram-se por tentar descobrir lá entre elas se ele tivera ou não um filho com a filha do Elvis, e o porque dele ter “querido jogar” um dos filhos pela sacada (imagem exibida fartamente ontem pelos canais de TV), se a casa dele era alugada ou própria - e ai alguém lembrou de uma dívida de milhões de dólares que a tal casa cobriria, enfim, destrincharam o Michael por todos os lados, tadinho, como se já não bastasse a morte ter-lhe chegado numa tarde de verão... E, quando o assunto começou a cansar, e como parecia que o assunto predileto delas era mesmo a desgraça alheia, a dona do salão resolveu lembrar–se “das três jovens muito lindas que haviam morrido numa tentativa de se fazerem mais belas ainda, e o dialogo entre elas transcorreu mais ou menos assim:
- E aquelas três mocinhas que morreram de “limpo”, vocês viram?
Uma das senhoras, espantada, perguntou”
- De que?
E a outra insistiu:
- De limpo.
E como a senhora continuasse sem entender, a auxiliar da proprietária completou:
- Inspiração... Elas morreram de “limpo inspiração”. Já eram tão bonitas. Porque precisavam de uma limpo inspiração?...
Ai meus ouvidinhos se recusaram a ouvir o resto da conversa. Fecharam-se para o mundo e tive que fazer uma força do tamanho do oceano para não explodir numa sonora gargalhada...
Da próxima vez que for ao salão vou levar meu IPod e deixa-lo num volume mais alto que o normal, porque senão meus ouvidinhos vão ficar de mal comigo...

Dulce Costa
Na erudita manhã passada no cabeleireiro do dia vinte e seis de junho do ano de dois mil e nove.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Lembranças que invadem a noite...

Deixa a xícara de chá repousando sobre a mesinha lateral enquanto folheia o livro que tem entre as mãos. Abre-o aleatoriamente e ao começar a ler um dos poemas, sente apertado o coração lembrando-se de outras vezes em que a leitura desse mesmo poema enchera-lhe a alma de sonhos. Sonhos que se desfizeram como se desfaz a rendilhada espuma das ondas quando o mar avança por sobre a areia... Mas ao contrario do mar que ao recuar remove as marcas da areia, os sonhos, ao se desfazerem deixaram marcas, cicatrizes profundas cravadas dentro de si.
Desses sonhos, nada restara. Nada alem da dolorida constatação de que ela não fora senão um brinquedinho que o ajudara a vencer o tédio, a monotonia de uma solidão que ele não admitia sentir. Um brinquedinho do qual logo se cansara e que, sem o menor constrangimento, deixara de lado para sair em busca de novos objetos de devoção, que seriam igualmente abandonados, algum tempo depois...
Imaturidade? Pura maldade? Descaso pelos sentimentos alheios?. Talvez... Ou, talvez, apenas uma enorme solidão que ele jamais admitiria sentir, um desamor a turvar-lhe a alma e os sentidos, a colocar dentro de si uma sensação de andar meio perdido, sem coragem para enfrentar a passagem irrevogável do tempo, embora jamais admitisse isso. Nem para si mesmo.
E antes que a tristeza volte a envolver-lhe a alma, fecha o livro e dirige-se a biblioteca em busca de uma outra leitura mais apropriada para aquele momento...

Dulce Costa
Na madrugada do dia 25 de junho do ano de dois mil e nove.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Drummond para o seu anoitecer


"Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida e de certos momentos de pessoas que passaram por ela."


(Carlos Drummond de Andrade)

Cecilia Meireles - Versinho


E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará...


Hoje é um daqueles dias em que a alma está leve, o coração tranqüilo e... não há nada para dizer!
Não é incrível que quando estamos bem temos muito menos a contar do que quando a alma está triste? Ah, aí temos a palavra solta, tantos ais a comentar, tantos lamentos querendo saltar do peito, tanta história a contar.
Já por isso o Poetinha dizia em “Eu não existo sem você”, poesia feita para a linda música de Tom Jobim:

... Assim como o poeta / Só é grande se sofrer ...

Não dá para negar que Vinícius sabia muito bem o que dizia...
Tenham todos um ótimo dia!

Se a noite foi de paz, a alma pede Florbela Espanca...


Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Na véspera de São João, Manoel Bandeira...

Profundamente

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

*

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Uma madrugada para se restaurar almas feridas...


Há um silêncio próprio das noites frias nesta cidade que não dorme. Um ou outro ronco dos motores dos carros que cortam a rua e nada mais a quebrar a tranqüilidade do momento.

Tenho uma pilhazinha razoável de livros a minha espera para serem lidos e imaginei que esta fosse a noite perfeita para começar meu tempo de companhia com pelo menos um deles, e até cheguei a escolher qual seria, mas não consegui me concentrar na leitura. Não encontrei entre meus DVDs nenhum que quisesse rever, meus Cds continuam quietinhos lá na prateleira,. E afinal, o que é que eu quero? Porque esta insatisfação toda, este “não acho graça em nada hoje’, esse “está faltando alguma coisa para aquietar minha alma”?
Há dias, ou melhor, noites em que me sinto assim desgarrada, como se minha alma tivesse se partido em mil cacos, igualzinho ao poema do Pessoa... [Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.] e então eu passo o resto da noite tentando junta-los, recompondo pouco a pouco a alma ferida, procurando cola-los com muita cautela de modo a que não fiquem cicatrizes, com a perícia de um restaurador.
Uso para tanto as melhores lembranças, os momentos doces armazenados carinhosamente no meu baú de recordações, os gestos de carinho e afeto empilhados na prateleira das lembranças e, principalmente o amor que guardo dentro de mim... Depois de restaurada, minha pobre alma, lavo-a com as lágrimas do desencanto que guardara em meu coração e uso a brisa da esperança para secar suavemente suas dobrinhas.... Você não sabia que havia dobras na alma? Pois agora já sabe que as há.
Alma recomposta, é então chegada a hora da poesia, da musica, da paz da madrugada. Enrosco-me gostosamente no sofá do quarto, protejo-me do frio com uma manta, deixo o som de uma musica muito suave como pano de fundo e abro um livro de um de meus Poetas do Coração... Qual? Ah, isso depende muito de quanto foi preciso para restaurar os cacos... Hoje é madrugada de Vinícius de Moraes, porque o coração acabou ficando doce, cheio de ternura, procurando acalanto para poder sossegar...
A madrugada está fria, a alma, ainda que saudosa está em paz, o silêncio é acolhedor e a companhia do Poetinha preenche o vazio que parecia pronto para se instalar em mim...

Dulce Costa
Numa madrugada fria de junho do ano de dois mil e nove.


segunda-feira, 22 de junho de 2009

Um pensamento na noite...


"Não caminhe detrás de mim, posso não te guiar. Não ande na minha frente, posso não seguir-te. Simplesmente caminhe ao meu lado e seja meu amigo."

(Albert Camus)

Meus Poetas do Coração - Fernando Pessoa


APONTAMENTO


(Alvaro de Campos)

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.

Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

domingo, 21 de junho de 2009

Cecilia Meireles no seu domingo...


Retrato


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Drummond - ele sabia bem o que dizia...


"Entre as diversas formas de mendicância, a mais humilhante é a do amor implorado."

E porque hoje é domingo...

(Uma das fotos com amigas de infância. Essas fotos eram clássicas, tiradas a cada ano, no Grupo Escolar, reunindo todas as alunas de uma classe, eternizando na foto um fugidiu momento da infância... Reparem no tamanho dos laçarotes que as meninas tinham que ostentar!... Vá lá!... podem rir a vontade... Vejam a que nos submetiam os costumes da época... pobezinhas de nós... risos... mas, acreditem, éramos bem felizes... Ah, sim, estou assinalada com o círculo)


Nos domingos de minha infância...

Hoje é domingo / pede cachimbo / cachimbo é de barro / bate no jarro / jarro é de ouro...

Ah doce cantilena da minha infância, deliciosamente vivida num casarão de um bairro que já foi tradição, já foi um doce lugar de se viver...
Domingo das missas pela manhã na Matriz, das brincadeiras de rua com as meninas que, como eu, viviam descuidadas de todo e qualquer perigo entre um pular corda, um jogo de amarelinha, um passa-anel, entre outras. E quando chegasse a hora do almoço corríamos para nossas casas onde nos esperava o almoço em família, cujo cardápio era sempre melhorado. para depois nos juntamos de novo para ir a matinê no velho cinema do bairro, o cine Ideal...
Depois do cinema, na volta para casa, havia sempre um lanche preparado por minha mãe com tanto carinho... arroz-doce (uma receita que ela trouxera lá de Portugal), bolinhos de chuva, bolo com chocolate, bem quentinho, se a tarde fosse fria, enfim, a cada domingo ela se esmerava na cozinha para que as crianças percebessem que domingo era dia de alegria, de família reunida, de bem viver...
Depois do lanhe era hora de ficar em casa, entre livros de história ou, na doce companhia da bonequinha de estimação, ficar ouvindo casos e histórias que meu pai e meus tios adoravam contar sobre suas próprias histórias, passando assim as tradições da família para a nova geração. E, não mais tarde que nove horas da noite, o respeitoso tomar a benção aos pais, dar-lhes boa noite e ir para a cama em busca de uma reparadora noite de sono...

Ah, doce cantilena de minha infância...

... touro é valente / chifra o tenente / tenente é fraco / cai no buraco / buraco é fundo / acabou-se o mundo!...

Dulce Costa
Na manhã do primeiro domingo do inverno do ano de dois mil e nove.

sábado, 20 de junho de 2009

Mario Quintana - Um pensamento



NO PRINCÍPIO...


"No início era a poesia... No cérebro do homem só havia imagens... Depois, vieram os pensamentos... E, por fim a filosofia, que é, em última análise, a triste arte de ficar do lado de fora das coisas."

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Na madrugada, Vinicius sempre é boa companhia...


Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.

Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.

Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.

E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.

Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.

Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

(Vinícius de Moares)

Na minha galeria de tipos inesquecíveis...

Lavadeiras - Cândido Portinari (1937)

Dona Isabel


Na minha postagem de ontem, comentei sobre uma seção que sempre lia na "Seleções" - Meu tipo inesquecível. Uma galeria infindável de "tipos" desfilando ao longo dos anos através das páginas da revista, pessoas anônimas que haviam marcado a vida de outras pessoas com suas presenças, com seus atos, com seu modo de viver. E quem é que não tem seu tipo inesquecível? Eu tenho vários, mas entre eles uma mulher negra de sorriso lindo, doçura no olhar e na voz quando me dizia 'Dona Dulce, minha filha..." Ah que saudades de Dona Isabel, pedaço de ternura que Deus botou na terra para sofrer e que nunca perdeu o amor que trazia dentro de si.
Meu marido era funcionário do Banco do Brasil e em função disso moramos por ano e meio no nordeste e quando voltamos para São Paulo e ele passou a trabalhar no BB da Penha, fomos morar numa vilazinha de uma rua chamada Padre João, coladinha a um colégio, o Ateneu Rui Barbosa. As janelas dos quartos abriam-se praticamente para o pátio desse colégio. Um dia, ao abrir a janela da sala, dei com uma mulher alta, forte, vestida com uma roupa estampada, lenço amarrado na cabeça, sandálias havaianas nos pés, que vinha caminhando em direção ao final da vila, trazendo um garotinho pela mão. Olhou para mim, abriu o mais lindo sorriso para dizer bom dia. No dia seguinte, ia saindo com meu marido quando cruzamos de novo com ela que desta vez parou para nos cumprimentar e logo se apresentou dizendo que era lavadeira e que se eu precisasse, ela estava as ordens. Na hora meu marido disse que eu precisava sim e que ela estava contratada. Foi o começo de uma convivência que se estendeu por muitos anos, até a morte de minha mais querida auxiliar.
Cedo, muito cedo começara o sofrimento daquela doce mulher, Perdera a mãe ainda criança e o pai se casara de novo, levando para casa uma mulher que fez dela uma empregada e, pior do que isso, a medida que foi se tornando mocinha, o pai começou a infernizar-lhe ainda mais a vida, querendo-a como mulher. Não suportando mais a situação e para não ter que se submeter as investidas daquele monstro, ela fugiu de casa e foi trabalhar em casas de família, para ganhar seu sustento.
Um dia conheceu um homem, achou que havia encontrado sua paz, mas ao invés disso ele a conduziu ao inferno. Foram quatro filhos para criar em companhia de um homem bêbado, sem caráter, que chegou a colocar os dedos numa serra, para poder ganhar uma indenização, que gastou com bebidas e mulheres. E essa mulher foi levando essa vida entre lágrimas, sempre distribuindo ternura aos que com ela conviviam. Sem recursos para a criação de mais filhos, recorreu por mais de uma vez ao aborto, o que lhe minou completamente a saúde, já abalada por tantas amarguras e por tanto sofrimento.
Durante dez anos Dona Isabel foi uma espécie de anjo da guarda lá de casa. De lavadeira, depois que compramos nossa primeira lavadora, passou a faxineira, babá, quando comecei a fazer uma série infindável de cursos e ela vinha para ficar com as crianças, passadeira, enfim, no que precisássemos ela lá estava. E a medida que sua saúde foi piorando, ela foi deixando de trabalhar, mas nunca de passar lá por casa para um dedinho de prosa, para saber como estavam “suas crianças”.
Quando nos mudamos da Penha para a Mooca, as visitas foram rareando, era longe, ela estava desgastada demais para seus quarenta e poucos anos. Época sem telefones, sem computadores, o contato pessoal difícil, um dia Dona Isabel sumiu. Meses depois seu filho Zaqueu, o mesmo garotinho que ela trazia pela mão quando a vi por primeira vez, veio nos visitar e trazer a triste notícia da morte daquela bondosa mulher que nos abrigara em seu doce coração com tanto carinho.
Já faz tanto tempo... mas a presença dela em nossas vidas permanece. Ainda vejo tristeza nos olhos de meus filhos quando falamos sobre ela. Nós a tivemos como auxiliar, como amiga, como anjo da guarda e aprendemos a amar aquela mulher pelas sua atitudes, pelo seu desvelo, pelo seu amor ao próximo.
Dona Isabel da Silva, por tudo isso, tem seu lugar na minha "galeria de tipos inesquecíveis".

Dulce Costa

No dia dezenove de junho do ano de dois mil e nove

Um doce e especial selo...


Obrigada, Isa!


A Isa, do lindo blog "Momentos Meus" gentilmente ofereceu ao "Em Prosa e Verso" este lindo e doce selo, o que me deixou, como sempre acontece quando alguém homenageia este blog, toda prosa. Como para merecê-lo será preciso que eu cumpra três regrinha, vamos lá...

1 - citar cinco pessoas muito importantes para mim
2 - formular um desejo
3 - passar o selo para outros dez blogs

1 - Ninguém é mais importante para mim do que meus filhos (3), meus netos (6) e minha nora.
2 - Desejo formulado e guardado no coração (se contar não se realiza)
3 - Os blogs escolhidos: - Um selo com um arzinho assim tão feminino, vai para blogs também femininos.

Julia - O Privilégio dos Caminhos
Maria Emilia - Tal Qual Sou
Ana Martins - Ave Sem Asas
Maria Valadas - Eco das Palavras
Fernandinha - Fernanda & Poemas
Mila - Pitanga Doce
Waleria - Walart
Anine - Poesia Expressão da Alma
Elvira Carvalho - Sexta-Feira
Lisa (Agulheta) - Poesia de Palavras

Cecília Meireles na sua manhã...


MURMÚRIO


Traz-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traz-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.


Traz-me um pouco da tua lembrança,
Aroma perdido, saudade da flor!
- vê que nem te digo esperança!
- vê que nem sequer sonho – amor!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Mais um pensamento...


"O amor está mais perto do ódio do que a gente geralmente supõe . São o verso e o reverso da mesma moeda de paixão. O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença..."

(Érico Veríssimo)

Os tipos inesquecíveis de cada um de nós...


Quando jovem, adolescente, gostava de ler uma revista que até hoje continua sendo impressa e encontrada em todas as bancas de jornal daqui do Brasil e dos Estados Unidos, pelo menos. A “Seleções Reader’s Digest” é impressa há mais de meio século e a edição brasileira era uma exata tradução da americana. Como o próprio nome indica, são artigos resumidos, de fácil leitura e assuntos variados. Faz anos que não leio, não sei como está agora, se continua ou não como antes.
Pois bem, havia uma seção pela qual eu sempre começava minha leitura, que era “Meu tipo inesquecível”, aonde pessoas comuns falavam de outras pessoas que haviam marcado suas vidas. Sempre gostei muito de ler biografias e embora não fossem artigos biográficos, seguiam mais ou menos por essa linha. Havia histórias simplesmente incríveis de pessoas que consideraríamos absolutamente comuns e sem história, o que me levou desde cedo a entender que, por mais simples que possa parecer uma pessoa, ela terá sempre uma lição de vida para nos oferecer, basta que saibamos enxergá-la.
Todos nós temos nossa galeria de tipos inesquecíveis, que marcaram ou ainda marcam sua passagem pelas nossas vidas. Algumas positivamente, com ações e atitudes dignas, outras negativamente, por ações menos nobres, por ter um caráter duvidoso, por atos que nos causaram mágoa. Outras ainda porque nos abriram a alma, nos ensinaram a amar, a sorrir, a chorar, a perdoar e, até a odiar... E porque não? Quem de nós já não provou o amargo gosto do ódio, ainda que por minutos?
Lembro-me da história contada por uma dona-de-casa americana (essa espécie em extinção) que mantivera um jardineiro cuidando do seu jardim por longos anos, uma pessoa extremamente simples, com ar até humilde, de uma docilidade a toda prova e que dizia não ter família, morar sozinho. Num determinado dia foram avisá-la de que o homem havia morrido. Ela lamentou muito e, entristecida, resolveu que deveria ir à cerimônia fúnebre de seu jardineiro que, certamente não teria ninguém para velá-lo. Mas qual não foi sua surpresa quando, ao chegar ao local encontrou-o completamente tomado por pessoas que choravam e trocavam histórias de doce convivência com aquele homem que, em sua simplicidade, deixara um exemplo de amor e de bem viver. Lembrava-se de outros funerais a que comparecera, de pessoas até bem colocadas na vida e em nenhum deles percebera uma partida mais sentida.
E a conclusão da história era de que pelo número de pessoas que chora (sinceramente) uma partida, você pode avaliar o que realmente foi uma pessoa, como viveu sua vida, o que de bom deixou em seus caminhos. Note que não se fala de celebridades, gente famosa que a mídia transforma em ícone e tema para matéria de longas e repetidas reportagens. Fala-se de gente simples, comum, mas muito especial... Mas havia toda uma série de tipos inesquecíveis, que me encantavam a cada edição da revista.
Estou aqui pensando que também tenho meus "tipos inesquecêveis" que bem merecem uma postagem no meu bloguezinho... Estou pensando... Vamos ver.


Dulce Costa
Na manhã do dia dezoito de junho do ano de dois mil e nove.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Florbela Espanca para sua noite...

Mistério d’amor

Um mistério que eu trago dentro em mim
Ajuda-me minh’alma a descobrir...
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!

Vivemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!

Mas um dia, uma tarde... houve um fulgor
Um olhar que brilhou... e mansamente...
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:

Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!

(Florbela Espan
ca)

Um pensamento...


"Meu coração se transforma a cada experiência. Mas ainda palpita, sobressalta e se assusta. Ainda é vulnerável como quando eu tinha dez anos."

(Lya Luft)



Um doce momento de paz...

- Oi, pessoal, eu sou o Bill...

O dia está azul, esplendoroso, o sol iluminando a cidade e com isso as pessoas ficam mais leves, sorriem um pouco mais, sentem-se mais vivas.
Dia lindo, mas frio, e eu sentada aqui diante do computador comecei a ficar tentada a subir ao terraço e, simplesmente, “tomar sol”, como se dizia “nos antigamentes”. E Bill, um schinauzer muito abusado foi comigo e, claro, perturbando meu sossego. Tentar fazê-lo entender que não sou sua companheira de brinquedos é tarefa árdua, já que ele adora correr atrás da bola e espera que eu esteja disposta a arremessá-la longe continuamente, e ele não se cansa... Depois de um tempo sem dar-lhe trela ele parece ter entendido e sentou-se ali aos meus pés para uma sonequinha. E na santa paz do momento, entreguei-me ao calorzinho bom do sol de final de outono que, de mansinho, foi aquecendo corpo e alma...
Por vezes eu me esqueço de o quanto é bom ficar “al dolce fare niente” de vez em quando, apenas vendo a vida passar, sentindo o ar entrando de mansinho pelos pulmões, a pele aquecida pelo calor do sol, olhos fechados, ouvindo os barulhos da vida que acontece em torno de mim, o canto de um passarinho, uma criança que ri brincando lá fora, uma mulher que cantarola no apartamento vizinho, a vida, enfim, que segue em toda sua força.
Quanto dura um momento como esse? Não sei bem. Talvez cinco ou dez minutos e logo volto à terra e os pensamentos exigem atenção, as lembranças começam a dançar dentro de mim e o encanto se desfaz, É pouco? Não, acredite, não é pouco, nem muito. É o suficiente para que me sinta feliz, pronta para continuar pelos caminhos que me esperam.

Drummond... sempre


"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 16 de junho de 2009

A poesia de Manoel Bandeira na sua tarde

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento. . . de desencanto. . .
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente. . .
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

– Eu faço versos como quem morre.

Florbela Espanca - Mais uma linda poesia



Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,

Parece-me que foi noutras esferas,

Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida

Que dantes tinha o rir das Primaveras,

Esbate as linhas graves e severas

E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...

Toma a brandura plácida dum lago

O meu rosto de monja de marfim...


E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Sobre escrever...

Lya Luft, essa mulher linda lá dos rincôes gaúchos, escreve com o coração. Escreve as crônicas que eu gostaria de poder escrever... Escreve lindamente. E em seu blog, define o escrever com uma frase que me encantou:

"Escrevo para seduzir leitores que sejam meus cúmplices na inquietação fundamental"

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Ah!... Você se lembra, amor?...


A noite estava tão fria! Envolta numa manta, na poltrona ao lado da lareira, terminei o livro que estava lendo e continuei ali, enrodilhada, sem coragem de ir para a cama porque a sabia gelada demais...
E fiquei pensando em outras noites geladas, quando brincava com você, pedindo-lhe que se deitasse primeiro e que fosse aquecendo meu lugar... lembra? E você, sempre carinhoso, ia mesmo... E ao me deitar, meus pés como duas pedras de gelo, acolhiam-se entre seus pés já quentinhos. Então eu me aconchegava e ficávamos ali conversando durante muito tempo, lembrando momentos, comentando fatos, tínhamos sempre tanto assunto para conversas... Lembra?

E mais de uma vez, ao me abraçar a você, buscando aconchego e um calorzinho bom que vinha de seu corpo, eu dizia entre risos que nessas noites de inverno eu sentia muita pena das viúvas. Na primeira vez que disso isso você me olhou intrigado e perguntou: Porque? E divertiu-se muito quando respondi que era porque as pobres não tinham dois pés quentinhos para aquecer os delas que chegavam gelados... Lembra?
E você me dizia que não tivesse medo, que você jamais me deixaria viúva... Meu grande mentiroso!... Você faltou com sua promessa e aqui estou eu, só, triste, enfrentando as geladas noites de inverso sem você para me envolver num abraço, para recolher meus pés gelados entre os seus, para longas conversas que se estenderiam pelas madrugadas... Aqui estou eu, só saudades...

Dulce Costa
Em mais uma madrugada fria do inverno do ano de dois mil e nove.

Segunds-feira com poesia...


Carlos Drummond de Andrade

Não Passou

Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.

Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?

Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

domingo, 14 de junho de 2009

Uma frase, um pensamento...

(Winchester, MA)

Todas as paixões nos levam a cometer erros, mas o amor faz-nos cometer os mais ridículos.

(Francois de La Rochefoucauld)


Uma fria madrugada para sonhar...


Escrever durante a madrugada é um hábito que muitas pessoas gostam de cultivar. Talvez porque esse seja o momento exato em que os sentidos ficam mais aguçados, e a sensibilidade aflora com mais intensidade... Quando há solidão, esta é aguda, quando há alegria ela é doce, quando bate saudade ela chega a ser sufocante e quando a desesperança aparece é terrivelmente envolvente...

É também o momento em que as ausências são mais doídas e os sonhos são tresloucados. É quando a alma se abre para longas conversas, as lágrimas são puras e podem rolar mais livremente pela face...
É madrugada, faz frio, um frio que parece atravessar a noite e se instalar na alma, tornando o momento propício não só ao ato de escrever, mas ao recolhimento, as conversas consigo mesmo, ao sonho...
O calorzinho gostoso que vem da lareira, o chá quentinho na xícara e o coração cheinho de saudades... Mas hoje não vou escrever. Vou me sentar aqui, neste sofá e deixar minha alma livre para sonhar...

Dulce Costa
Na doce e fria madrugada do dia 14 de junho do ano de dois mil e nove,

sábado, 13 de junho de 2009

Na manhã de um sábado de quase inverno...


Sábado frio de final de outono, o sol tentando rasgar o cinza vem em momentos doces aquecer a cidade e logo se refugia atrás das nuvens.
Caminhando de um lado para o outro no terraço, cuidando dos vasos de temperos que ainda estão viçosos, apesar do frio todo das últimas madrugadas, meu pensamento voa, minha alma sonha, meu coração sente toda a nostalgia de um momento de saudade, de ausência...
O sol chegando suavemente aquece meu corpo, mas quem aquecerá minha alma?...

Drummond definiu escritor como...


... "não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira."

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um mimo para um aniversariante


Hoje o "Pitanga Doce", o lindo e bem cuidado blog de nossa querida amiga Mila, está aniversariando. Então, o "Em Prosa e Verso" juntando-se as comemorações merecidas, vem deixar aqui, para ele, um mimo especialmente feito para esta data, com todo o carinho e a amizade que esse blog e sua criadora merecem.

Parabéns, Mila!... Muito sucesso Pitanga Doce.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

No Dia dos Namorados...


Hoje é dia de namorar, hoje é o Dia dos Namorados...
Ah, a doçura da palavra “namorado”!... Essa linda palavra, para mim, evoca ternura, cariinho, sonho, esperança no futuro.
É bem verdade que ela mudou de conotação, que hoje, namorado é aquele que já divide a vida com você, que a leva a um motel, ou divide sua casa com você, com o beneplácito de seus pais, ou de seus filhos... Coisas da nova forma de se viver, e devemos aceitar, mesmo que lamentando tal mudança.
Mas era doce namorar antigamente... Era esperar, coração aos pulos, que ele surgisse lá na esquina, aonde ia encontrá-lo para umas voltinhas pelo quarteirão, com hora marcada para voltar para casa. Era emoção pura quando, caminhando lado a lado e por primeira vez ele pegasse em sua mão, carinhosamente, como se tivesse medo de uma rejeição. Ai, olhos nos olhos, o enlevo era total, a magia estava no ar e, assim iam caminhando, lado a lado, de mãos dadas e, num ponto mais discreto da rua, um beijo roubado ou consentido, que os levava ao céu, deixando um gostinho de quero mais na boca, um desassossego no coração...
Hoje é dia dos namorados, os tempos são outros, mas os corações estão apaixonados da mesma forma, as almas sentem as mesmas ânsias, os corpos sentem os mesmo desejos, que hoje nem precisam mais ser reprimidos, o amor está no ar...
Então, NAMOREM, namorem muito, encham-se de amor e carinho, vivam cada momento mágico que o dia propicia.
Que haja magia e encanto na noite de cada um(a) de vocês que tem dentro de si um coração enamorado... Tenham lá a idade que tiverem, porque o amor, como o coração, nem conhece o significado da palavra idade ainda porque o amor, na maturidade, é muito mais amor, é muito mais carinho, muito mais ternura...
Feliz Dia dos Namorados!...

Dulce Costa
Neste romântico dia doze de junho do ano de dois mil e nove

Um pensamento...

"O segredo da criatividade está em dormir bem e abrir a mente às possibilidades infinitas.
O que é um homem sem sonhos?"

(Albert Einstein)

No feriado de Corpus Christi...

(Rua decorada para a procissão de Corpus Christi, numa das cidades históricas de Minas Gerais, um dos estados brasileiros aonde a religiosidade do povo ainda se faz sentir de maneira mais forte)

A quinta-feira amanhece fria, chuvosa, toda cinza, frustrando as expectativas de muita gente que, de malas prontas e esquecendo o significado religioso do dia, pensando apenas no feriadão e em todo o lazer que teriam sobre as cálidas areias do litoral, ou sei lá aonde, vai ter que enfrentar um costumeiro congestionamento nas estradas rezando, não para render honras e homenagens ao seu Deus, como o dia pede, mas sim para que Ele entenda que seu povo precisa dos feriados para ficar "al dolce fare niente", num "merecido" descanso, e então, com Seu toque divino, faça parar a chuva e que se abra um sol maravilhoso que lhe venha dourar a pele e aquecer a alma, tão cheia de inocentes pecadinhos...
E a antiga e tradicional religiosidade do povo brasileiro vai ficando embutida entre roupas em desuso, nas gavetas de um armário qualquer, esquecido em sei lá em que sótão da vida. E as idas obrigatórias as igrejas num dia como este, vão sendo paulatinamente substituídas pelos churrasquinhos amigos, voleibol de praia, encontros nos barzinhos da vida, passeios pelos shoppings centers das cidades, etc, etc...
É, como diria minha doce avozinha, "o sinal dos tempos" ou, como diria meu sábio marido, a mudança natural das coisas, a evolução do homem, os novos caminhos da humanidade. Certo ou errado, não sei. Depende do ponto de vista de cada um, já que é uma questão de foro intimo.
O fato é que chove lá fora, está muito aconchegante aqui dentro, e que vou aproveitar a calma do feriado para colocar umas leituras em dia,,, Cada qual tem seu jeito de descansar, não é mesmo?
Bom feriado para todos,

E para quem tiver curiosidade em conhecer a história deste feriado, fica um link para um texto bastante interessante.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um pensamento...


"Nunca se afaste de seus sonhos. Porque se eles se forem, você continuara vivendo, mas terá deixado de existir."

(Mark Twain)

Em "O Profeta", Gibran Khalil Gibran diz...


Sobre os filhos...

“Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da Vida por si mesma.

Vêm através de vós, mas não de vós.

E embora vivam convosco, não vos pertencem.

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos.

Porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas.
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar, nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós.
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria.

Pois assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco que permanece estável.”

(Gibran Khalil Gibran)