floquinhos

terça-feira, 23 de junho de 2009

Uma madrugada para se restaurar almas feridas...


Há um silêncio próprio das noites frias nesta cidade que não dorme. Um ou outro ronco dos motores dos carros que cortam a rua e nada mais a quebrar a tranqüilidade do momento.

Tenho uma pilhazinha razoável de livros a minha espera para serem lidos e imaginei que esta fosse a noite perfeita para começar meu tempo de companhia com pelo menos um deles, e até cheguei a escolher qual seria, mas não consegui me concentrar na leitura. Não encontrei entre meus DVDs nenhum que quisesse rever, meus Cds continuam quietinhos lá na prateleira,. E afinal, o que é que eu quero? Porque esta insatisfação toda, este “não acho graça em nada hoje’, esse “está faltando alguma coisa para aquietar minha alma”?
Há dias, ou melhor, noites em que me sinto assim desgarrada, como se minha alma tivesse se partido em mil cacos, igualzinho ao poema do Pessoa... [Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.] e então eu passo o resto da noite tentando junta-los, recompondo pouco a pouco a alma ferida, procurando cola-los com muita cautela de modo a que não fiquem cicatrizes, com a perícia de um restaurador.
Uso para tanto as melhores lembranças, os momentos doces armazenados carinhosamente no meu baú de recordações, os gestos de carinho e afeto empilhados na prateleira das lembranças e, principalmente o amor que guardo dentro de mim... Depois de restaurada, minha pobre alma, lavo-a com as lágrimas do desencanto que guardara em meu coração e uso a brisa da esperança para secar suavemente suas dobrinhas.... Você não sabia que havia dobras na alma? Pois agora já sabe que as há.
Alma recomposta, é então chegada a hora da poesia, da musica, da paz da madrugada. Enrosco-me gostosamente no sofá do quarto, protejo-me do frio com uma manta, deixo o som de uma musica muito suave como pano de fundo e abro um livro de um de meus Poetas do Coração... Qual? Ah, isso depende muito de quanto foi preciso para restaurar os cacos... Hoje é madrugada de Vinícius de Moraes, porque o coração acabou ficando doce, cheio de ternura, procurando acalanto para poder sossegar...
A madrugada está fria, a alma, ainda que saudosa está em paz, o silêncio é acolhedor e a companhia do Poetinha preenche o vazio que parecia pronto para se instalar em mim...

Dulce Costa
Numa madrugada fria de junho do ano de dois mil e nove.


9 comentários:

elvira carvalho disse...

Se cada vez que eu tivesse insónias, escrevesse textos tão bonitos, era afortunada.
Gostei demais.
Um abraço

Dulce disse...

bom dia, Elvira

Ah, mas sempre hão de servir para alguma coisa essas madrugadas insones, não? rs...
Obrigada.
Um abraço

Isa disse...

Curiosamente estou a passar por algo semelhante.
E eu sei, +/-, a razão...Dulce,penso
q. me vai conhecendo.
Aliás eu sei:sou alegre,Amiga dos seus Amigos.
Enquanto ñ sou mal interpretada junto
de Amigos Brasileiros e alguns portugueses, outros há que me acham
meiga de mais,sentimental em demasia. Isso dói.
Beijo.
isa.

Dulce disse...

Isa
Não perce nunca esse seu jeito doce de ser, minha amiga... Só pensa mal quem tem maldade dentro de si.
Sei que dói, também já passei por isso, mas sou como sou e quem me conhece sabe e não julga absolutamente mal
Estou de saida, vou às compras, preciso começar a providenciar as coisas para minha viagem, mas a tarde vou estar de volta.
beijos

Dulce disse...

Isa

PS - Adorei a foto. Docura estampada no sorriso e no olhar...

Pitanga Doce disse...

Chamo a estas madrugadas, noites brancas, quase inexistentes, porque na verdade nem estamos ali. Nos perdemos em pensamentos e vamos nem sei para onde.

Ah, Dulce hoje foi um dia só de recordações e por isso nem vim aqui à tarde. Entenderás no post de logo mais.

boa noite e fica bem

Dulce disse...

Pitanga

Sim, são as famosas "Nuits Blanches".
Eu digo que dias (ou madrugadas) de recordações são um tempo para exorcizarmos nossos fantasmas. O importante é que saiamos deles com a alma em paz. Espero que hája paz em seu coração hoje.
Boa noite. Bjs.

Pitanga Doce disse...

Dulce não sei se estou com o coração totalmente em paz mas sei que preciso sair para trabalhar que o trabalho não espera o conserto da alma. O tempo está mudando e isso é bom. O vento sempre foi bom conselheiro para mim. Costumo chamá-lo o vento das mudanças. Espero que algo mude ainda hoje.

bom dia e fica bem

Dulce disse...

Pitanga

Então que o vento lhe traga mudanças boas e leve para longe o que anda afligindo sua alma.
Bons ventos a acompanhem, amiga.
Beijos e boa tarde.