floquinhos

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Ah!... Você se lembra, amor?...


A noite estava tão fria! Envolta numa manta, na poltrona ao lado da lareira, terminei o livro que estava lendo e continuei ali, enrodilhada, sem coragem de ir para a cama porque a sabia gelada demais...
E fiquei pensando em outras noites geladas, quando brincava com você, pedindo-lhe que se deitasse primeiro e que fosse aquecendo meu lugar... lembra? E você, sempre carinhoso, ia mesmo... E ao me deitar, meus pés como duas pedras de gelo, acolhiam-se entre seus pés já quentinhos. Então eu me aconchegava e ficávamos ali conversando durante muito tempo, lembrando momentos, comentando fatos, tínhamos sempre tanto assunto para conversas... Lembra?

E mais de uma vez, ao me abraçar a você, buscando aconchego e um calorzinho bom que vinha de seu corpo, eu dizia entre risos que nessas noites de inverno eu sentia muita pena das viúvas. Na primeira vez que disso isso você me olhou intrigado e perguntou: Porque? E divertiu-se muito quando respondi que era porque as pobres não tinham dois pés quentinhos para aquecer os delas que chegavam gelados... Lembra?
E você me dizia que não tivesse medo, que você jamais me deixaria viúva... Meu grande mentiroso!... Você faltou com sua promessa e aqui estou eu, só, triste, enfrentando as geladas noites de inverso sem você para me envolver num abraço, para recolher meus pés gelados entre os seus, para longas conversas que se estenderiam pelas madrugadas... Aqui estou eu, só saudades...

Dulce Costa
Em mais uma madrugada fria do inverno do ano de dois mil e nove.

15 comentários:

Maria Emília disse...

Olá Dulce,
Que maneira tão bonita e ternurente esta que encontrou para falar de aquecer a cama e os pés gelados. Percebi que comigo sempre foi assim e ainda é. O meu marido aquece a cama para mim. E então lembrei-me que nunca tinha agradecido, não ao meu marido mas ao universo o facto de ter alguém para me aquecer a cama e os pés.
Obrigada por ter despertado em mim mais uma dádiva para agradecer.
Um beijinho,
Maria Emília

Dulce disse...

Maria Emilia

São esses momentos, esses pequenos gestos que fazem tanta diferença no bem viver, no bem querer... São momentos especiais que sempre serão lembrados com saudades...
beijinhos

Ana Martins disse...

Minha querida amiga,
o seu maridinho onde quer que esteja adorou ler esta cartinha, dirigida a ele com o mesmo amor de outrora, trazendo a mais apenas as saudades que você não consegue esconder.

Um beijinho grande,
Ana Martins

Isa disse...

Quanta ternura!Quanto Amor!
Tão marcante mesmo!
Li e uma lágrima queria chegar...quase,quase!
Então pensei "Que Deus abençoe aqueles que guardam recordações tão
lindas!"
Beijo.
isa.

Dulce disse...

Ana,

Obrigada, minha amiga.
As saudades vivem comigo, um dia mais serenas, outro dia mais doìdas, mas assim é vida e temos que continuar...

beijos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Fiquei comovido, sabe? O seu marido, esteja onde estiver, já a leu e gostou, tenha certeza:

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Fiquei comovido, sabe? O seu marido, esteja onde estiver, já a leu e gostou, tenha certeza:

Dulce disse...

Isa, minha amiga,

Obrigada, muito obrigada, mesmo...
Há dias em que precisamos por para fora o que nos vai n'alma...
Hoje foi um deles... Acho que é este frio, sei lá...
beijos.

Dulce disse...

Obrigada, Carlos,

espero que sim, mas ele sempre soube que seria assim, que sem ele a vida seria partida... Mas cumprindo até um desejo dele, levo a vida com alegria, apesar da saudade.
Obrigada, meu amigo.

Pitanga Doce disse...

Dulce, o dia "gris", aquele que parece que nunca acaba, que está ali só para nos fazer lembrar o que já não é, foi feito para isso mesmo. Para pormos cá fora o que vamos tentando esconder e fazer de conta que já não dói tanto.
É como um desamor mal curado que fingimos que nem faz tanta falta assim, mas sabemos o quanto faz.
Não sei a quanto tempo estás sozinha mas imagino que não faça muito tempo porque as lembranças estão vivas que até parecem real, não é?
Então quando quiseres escrever tão lindo assim, estaremos aqui só para ler-te.

beijos de boa noite e fica bem

Dulce disse...

Obrigada Pitanga.

Lindas palavras as suas, minha amiga, obrigada.
Faz seis anos e meio que ele se foi. Há momentos em que serenamente sigo meu caminho, mas, de vez em quando, acontecem as lembranças e as saudade mais fortes, então converso com ele através de carta ou apenas converso diante de seu retrato, e meu coração se acalma, e a vida retoma seu rumo... Mas procuro manter a alegria de viver que ele tanto amava em mim...
beijos e obrigada.

Daniel Costa disse...

Dulce

Texto muito interessante, comovente até, para almas sensíveis. A de quem escreveu, pelo menos fez o texto ser atraente, já não direi belo, porque aqui é cultivada a beleza textual.
Daniel

Dulce disse...

Daniel,

Obrigada.
Foi escrito num momento de muita saudade, num desses momentos em que alma fala por nós.
É a vida...

Lourdes disse...

Olá Dulce,
Fiquei sem palavras.
Tudo o que descreveu com tanta melancolia, passa-se comigo durante as noites frias de Inverno.
Hoje vou agradecer a Deus o facto de que ainda ter o meu marido comigo.
Beijinhos

Dulce disse...

Lourdes

São essas pequenas coisas do dia a dia, tão corriqueiras, que nos fazem tanta falta depois...
beijos