floquinhos

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Na minha galeria de tipos inesquecíveis...

Lavadeiras - Cândido Portinari (1937)

Dona Isabel


Na minha postagem de ontem, comentei sobre uma seção que sempre lia na "Seleções" - Meu tipo inesquecível. Uma galeria infindável de "tipos" desfilando ao longo dos anos através das páginas da revista, pessoas anônimas que haviam marcado a vida de outras pessoas com suas presenças, com seus atos, com seu modo de viver. E quem é que não tem seu tipo inesquecível? Eu tenho vários, mas entre eles uma mulher negra de sorriso lindo, doçura no olhar e na voz quando me dizia 'Dona Dulce, minha filha..." Ah que saudades de Dona Isabel, pedaço de ternura que Deus botou na terra para sofrer e que nunca perdeu o amor que trazia dentro de si.
Meu marido era funcionário do Banco do Brasil e em função disso moramos por ano e meio no nordeste e quando voltamos para São Paulo e ele passou a trabalhar no BB da Penha, fomos morar numa vilazinha de uma rua chamada Padre João, coladinha a um colégio, o Ateneu Rui Barbosa. As janelas dos quartos abriam-se praticamente para o pátio desse colégio. Um dia, ao abrir a janela da sala, dei com uma mulher alta, forte, vestida com uma roupa estampada, lenço amarrado na cabeça, sandálias havaianas nos pés, que vinha caminhando em direção ao final da vila, trazendo um garotinho pela mão. Olhou para mim, abriu o mais lindo sorriso para dizer bom dia. No dia seguinte, ia saindo com meu marido quando cruzamos de novo com ela que desta vez parou para nos cumprimentar e logo se apresentou dizendo que era lavadeira e que se eu precisasse, ela estava as ordens. Na hora meu marido disse que eu precisava sim e que ela estava contratada. Foi o começo de uma convivência que se estendeu por muitos anos, até a morte de minha mais querida auxiliar.
Cedo, muito cedo começara o sofrimento daquela doce mulher, Perdera a mãe ainda criança e o pai se casara de novo, levando para casa uma mulher que fez dela uma empregada e, pior do que isso, a medida que foi se tornando mocinha, o pai começou a infernizar-lhe ainda mais a vida, querendo-a como mulher. Não suportando mais a situação e para não ter que se submeter as investidas daquele monstro, ela fugiu de casa e foi trabalhar em casas de família, para ganhar seu sustento.
Um dia conheceu um homem, achou que havia encontrado sua paz, mas ao invés disso ele a conduziu ao inferno. Foram quatro filhos para criar em companhia de um homem bêbado, sem caráter, que chegou a colocar os dedos numa serra, para poder ganhar uma indenização, que gastou com bebidas e mulheres. E essa mulher foi levando essa vida entre lágrimas, sempre distribuindo ternura aos que com ela conviviam. Sem recursos para a criação de mais filhos, recorreu por mais de uma vez ao aborto, o que lhe minou completamente a saúde, já abalada por tantas amarguras e por tanto sofrimento.
Durante dez anos Dona Isabel foi uma espécie de anjo da guarda lá de casa. De lavadeira, depois que compramos nossa primeira lavadora, passou a faxineira, babá, quando comecei a fazer uma série infindável de cursos e ela vinha para ficar com as crianças, passadeira, enfim, no que precisássemos ela lá estava. E a medida que sua saúde foi piorando, ela foi deixando de trabalhar, mas nunca de passar lá por casa para um dedinho de prosa, para saber como estavam “suas crianças”.
Quando nos mudamos da Penha para a Mooca, as visitas foram rareando, era longe, ela estava desgastada demais para seus quarenta e poucos anos. Época sem telefones, sem computadores, o contato pessoal difícil, um dia Dona Isabel sumiu. Meses depois seu filho Zaqueu, o mesmo garotinho que ela trazia pela mão quando a vi por primeira vez, veio nos visitar e trazer a triste notícia da morte daquela bondosa mulher que nos abrigara em seu doce coração com tanto carinho.
Já faz tanto tempo... mas a presença dela em nossas vidas permanece. Ainda vejo tristeza nos olhos de meus filhos quando falamos sobre ela. Nós a tivemos como auxiliar, como amiga, como anjo da guarda e aprendemos a amar aquela mulher pelas sua atitudes, pelo seu desvelo, pelo seu amor ao próximo.
Dona Isabel da Silva, por tudo isso, tem seu lugar na minha "galeria de tipos inesquecíveis".

Dulce Costa

No dia dezenove de junho do ano de dois mil e nove

16 comentários:

Isa disse...

Minha querida,acabei de chegar do médico e ele disse q.realmente eu estou com um resfriado.Já bem melhor do q.ontem.
Fiquei bem contente.Disse deverei
refrear,um pouco,toda esta energia.
Descansar o fim de semana.
E se Deus quiser assim farei.
Que bom ter trazido até nós essa senhora tão querida.D.Isabel.
A Dulce já me dissera que há,na sua vida "uma D.Júlia"...com outro nome.
Pessoas q.nos marcam mesmo.
Beijo.
isa.

Dulce disse...

Isa

Bom que já esteja melhor e que o médico a tenha tranquilizado. Agora é repousar para logo, logo, estar curada.
Assim é, minha amiga... Sâo Júlia ou Isabel, ou Maria, não importa o nome que carreguem, são doces criaturas colocadas em nossos caminhos para nos ajudarem a trilha-los com com mais doçura.

beijos

Pitanga Doce disse...

Elas têm vários nomes e um só coração. Podíamos entregar a casa e a familia a elas. Principalmente os filhos pequenos, para irmos trabalhar. Os meus jogavam bola com os dela. Mas elas se foram, por uma razão ou outra, e não se encontram mais Isabel ou Julia por aí.

bom dia Dulce e fica bem

Dulce disse...

Pitanga,

E que privilégio podermos contar com elas, não pelo trabalho (excelente) que fazem, mas pelo que aprendemos com cada uma delas, pelo carinho que dedicam (ou dedicaram) aos nossos filhos...

Obrigada, fique bem você também.
bjs.

Agulheta disse...

Querida amiga! O nome fica na lembrança de alguém,que fez parte da nossa vida e que gostamos,é o mais importante,são deste pequenos gestos que o ser humano pode ser grande,já peguei no prémio!obrigada pelo carinho.
Beijinho bfs

Maria Valadas disse...

Muito doce e carinhosa essa narrativa acerca desse Anjo que lhe apareceu em seu caminho!!

Uma bonita hoemagem lhe fez... e ela, onde estiver sorrirá como uma estrela replecta de luz.

Peço desculpa minha querida Dulce de não ter feito as minhas visitas... mas é que tenho estado com refriado e dor de garganta... o
que me leva a estar a maior parte do tempo deitada. Venho ums minutos ao blog.... e volto para a a cama.

Um bom fim de semana.

Beijinhos com carinho da

Maria

Dulce disse...

Lisa,

é isso mesmo, os gestos, pequenos e cheios de carinho, dão mais sentido às nossas vidas.

Nada a agradecer, minha amiga, o selinho vai para o lugar certinho...

beijos

Dulce disse...

Maria,

Espero que aquele anjo que ilumnou nossas vidas, minha, de meu marido e de meus filhos, tenha encontrado a paz que tanto buscou.

Espero que sare logo,que logo possa estar bem. Cuide-se bem, fique bem.

beijos

elvira carvalho disse...

Que bonita história amiga. e com que carinho fala de D. Isabel. Fiquei emocionada.
Um abraço e bom fim de semana

Dulce disse...

Obrigada, Elvira.

Bom final de semana para você, também.
Um abraço.

aninejf disse...

Ok desafio aceito... Muito obrigada por estar sempre por perto... Beijos te adoro.. Anine

Dulce disse...

Obrigada, Anine
coisa boa de se ouvir...

Beijo e uma boa noite para você.

Diario da Fafi disse...

Ah Dulce, não faz isso comigo não.
Chorei muito.
Porque me lembrei que infelizmente ainda hoje, a vida tem tantas Isabéis. Tantas mulheres que como ela, sofrem tanto,são vítimas cruéis de pais e maridos agressivos,e mesmo tendo o desespero como fonte de vida, incansáveis, elas vivem.
Elas trabalham. Criam seus filhos. Criam os filhos das outras.

Ainda bem que a sua Isabel te achou.
Eu também tenho a minha aqui em casa.
Chama-se Simone.Meu anjo da guarda, e dos meus filhos. Minhas duas mãos.
Um beijo.

Dulce disse...

Fafi

Lamentavelmente, a "evolução do mundo" não trouxe mudanças para grande parte das mulheres que agora, sobrecarregadas com a dupla jornada de trabalho (fora e dentro de casa) continuam submetidas a humilhações e sofrimentos infindos. A mulher de hoje ainda tem muito a caminhar...
Mas estamos chegando lá...
Dê um beijo em sua Simone, por mim...

Bom final de semana
beijos

Lourdes disse...

Olá amiga.
Hoje emocionei-me com a história da sua Júlia.
Há pessoas que, desde que nascem, parecem estar condenadas ao sofrimento. O pior é que, apesar de todas as alterações que vêm a acontecer na vida das mulheres, ainda há muitas Júlias por esse mundo fora.
Um beijinho de boa noite

Dulce disse...

Lourdes

Acho que ainda deve levar muiiiito tempo até que essas mulheres possam encontrar uma vida melhor... Apesar de tudo o que tem mudado, ainda são precisos muito ajustes... Infelizmente...
Boa noite
beijos