floquinhos

domingo, 29 de novembro de 2009

Paixão no outono da vida...


Hoje presto uma pequena homenagem a uma querida amiga que, mal começando a transitar pelo outono da vida, sentindo seu coração explodir de paixão, feliz, escandalosamente feliz (graças a Deus, ainda se consegue ser feliz neste mundo maluco), confidenciou-me seu estado d'alma e seus receios. Tenho esta crônica escrita faz bem uns pares de anos e gostaria que ela lesse e assim soubesse que a coisa melhor que pode acontecer na vida de uma mulher é uma paixão tardia. E que soubesse também que vai provocar muita inveja nas pessoas mal resolvidas na vida, mal amadas, mas esse será um problema só delas...
E que o final da crônica não lhe pertence... Só vale aqui o estado d'alma que um dia aconteceu...
Pois minha amiga, viva seu momento. Seja muito feliz, pois você merece. Hoje o Em Prosa e Verso é todo seu.
______________________________________________

Paixão no outono da vida

Paixão é sentimento arrebatador, que chega rompendo barreiras, pondo fogo no corpo e na alma, não pede licença nem conhece medidas, não tem idade nem preconceitos, não mede distâncias nem tempo. E quando resolve se instalar num pobre coração que transita pelo outono da vida, pode fazer estragos irreparáveis, pois tira do sério esse coração e faz dele um brinquedo, um boneco de pano que ao fim acaba jogado, desbotado, sem encantos, para o resto de seus dias...
E quem, em sã consciência, pode supor que depois dos sessenta ainda se tenha tanta ânsia, tanto desejo dentro de um corpo já desgastado pelos desencantos da vida? Esse pobre ser passa então a esconder seus anseios e seus sonhos mais profundos, mais lindos, sonhos que encantariam qualquer adolescente, porque teme ser ridicularizado pela sociedade que nega aos mais velhos todo e qualquer direito de amar, de ser amado, de viver plenamente e de ser feliz. Essa sociedade cruel que trata seus velhos como objetos descartáveis, como algo que devesse ser escondido no armário, pelo simples fato de já não terem mais o viço e a beleza tão passageiros da juventude.
E no entanto, ao transitarmos pelo outono da vida, a paixão acontece em toda a sua plenitude! Como entre os mais jovens, ela chega e toma conta de tudo. Os dias parecem novamente cheios de cores, de luzes, de musicalidade. O olhar volta a ser brilhante e o sorriso paira nos lábios. Tudo fica mais bonito, mais alegre... Vive-se então um período pleno, muito mais intenso, porque traz o gosto desesperado do último sonho, da última esperança, porque na maturidade tudo tem um outro sentido, um outro sabor, uma vez que nessa fase da vida nós nos agarramos com unhas e dentes àquilo que nos faz viver. E existe algo que desperte mais o sentimento de vida que a paixão?
Mas se a um homem maduro esse sentimento ainda é permitido, ou melhor, tolerado, o mesmo não ocorre quando se trata de nós, mulheres! Nós não temos reconhecido esse direito! Não nos podemos atrever a viver essa doce loucura chamada Paixão... Se inadvertidamente formos atingidas por ela, passamos a ser encaradas como ridículas criaturas, como velhinhas safadas e sem vergonha, como possíveis esclerosadas. Negam-nos o direito à vida, negando-nos o direito ao amor... Mas que sabem eles, os pobres jovens, da vida e do amor, da paixão e da dor que ela pode nos causar? Pensam que sabem... Apenas pensam, como nós já pensamos um dia...
Acontece, porém, que a alma amadurece sem envelhecer e o coração, quando inquieto, não percebendo a passagem do tempo, continua ansiando por incontidas emoções que o elevem num doce sonhar, às alturas de um amor sem fim, que o faça perceber luz entre as trevas, sol em meio à chuva, luar por sobre as águas em noite de tempestade, sons de anjos cantando em meio ao burburinho de uma multidão, paz incontida de uma ternura tão grande que possa transformar este mundo insano e cruel em um delicado jardim florido onde possam ser depositados todos os seus anseios.
Paixão que explode no outono de uma existência é fase ímpar na vida de quem, já longe do "glamour" da juventude, sequer suspeitaria poder ainda se sentir tão viva, tão plena, tão mulher. Passada essa fase de paixão, restam as doces lembranças do que poderia ainda ter sido... Lembranças, que acalentam o coração, apesar de tudo... Acalentam o coração, mas não diminuem o vazio que se instala então... Um vazio que dilacera, que permanece para sempre...

Dulce Costa
Numa madrugada gelada, num dia qualquer do ano de dois mil e quatro, sob os efeitos de um luar imenso que se esparrama por sobre a cidade e invade minha alma.

24 comentários:

Isa disse...

Fiquei feliz pela sua Amiga.
Que Deus abençoe esse Amor.
Beijo.
isa.

Dulce disse...

Isa bom dia

Amem, minha amiga. Amores assim devem mesmo ser abençoados.
Obrigada, em nome dela
beijos

Si disse...

É uma tolice pegada, essa da idade em que as pessoas podem ou não sentir determinadas coisas.
Desde quando se pode explicar o porquê de determinada pessoa querer dizer mais ou menos a alguém, ou se atribui prazo de validade a estados de alma?
Rótulos, Dulce, são rótulos que os outros se apressam em colocar, quantas vezes para se sentirem melhor com a sua própria incapacidade de ser felizes.

Dulce disse...

Si,

concordo plenamente com você, mas o mundo é implacável, principalmente porque nele vivem pessoas que nunca conseguiram ser felizes e que se sentem destruídas pela felicidade alheia...
beijos

Pitanga Doce disse...

Dulce, nunca li um texto tão exato em definir o que acontece com mulheres que se atrevam a amar "fora da hora". Ao mesmo tempo que é delicioso sentirem-se felizes, têm o fardo da crueldade de quem não teve a sorte de se sentir assim.
Se por vergonha ou fragilidade essas radiantes mulheres não correrem atrás desse momento único e talvez derradeiro, não terão o afeto das pessoas que hoje a apontam, na hora em que o terrível vazio chegar.

Espero que a sua amiga e outras mais de nós, mulheres de coração aberto e alma liberta, leiam o seu texto e deixem a vida fluir e a felicidade chegar, porque nunca é tarde.

beijos e bom dia Dulce!

Beta disse...

Este é o tempero da vida!
Parabéns!!
Bj
Beta

Carlos Albuquerque disse...

Dulce
Bom Domingo, minha amiga!
A liberdade de pegarmos o fogo da paixão à nossa alma, não morre nunca, por muito que o Outono se chegue!
Só tem essa chama quem vê com o coração. Os olhares turvos da mesquinhez não conseguem enxergar.
Beijinhos

Graça disse...

Dulce,
bom dia amiga!!!
Também estou aqui 'boquiaberta' com suas palavras...
E refleti junto com você o seguinte: se a humanidade parasse, desse um stop mesmo, nessas ideias retrógradas e preconceituosas de que não se pode amar nem se apaixonar após os sessenta, tenho certeza, Dulce: AS PESSOAS ESTANDO LIVRES PARA AMAR, ESSA 'TERNURA contagiante TRANSFORMARIA O MUNDO', como vc afirmou!!!
Imagine quantas pessoas existem neste planeta vivenciando essa situação de 'prisão'!!!
Quanta ternura desperdiçada por conta desses pensamentos mesquinhos que insultam e impedem de fazer fluir naturalmente o amor entre as pessoas, só porque estão chegadas já no 'outono'... (???)
Ah não...
Não mesmo.
Taí uma bandeira a ser levantada!
E eu me habilito a ser a primeira.
Parabéns, bela mulher, é isso mesmo que deve ficar para sempre registrado para as futuras gerações, se tiverem mais 'abertura', mais amor em seus ♥, poderem ver e sentir a vergonha que vivemos até hoje, em plena entrada de século XXI............
Um grande abraço e diga à sua amiga que conte com a gente.

Dulce disse...

Pitanga

Tenho certeza que minha amiga vai viver plenamente seu momento, porque é mulher corajosa e sabe bem que a vida ofereceu-lhe um raro presente.
Ela vai ler os comentários e saber que todos estamos torcendo por ela.
Beijos e obrigada

Dulce disse...

Beta

E um tempero bem temperadinho... rs...
Beijos e obrigada.

Dulce disse...

Carlos

Se viver é amar, de todas as maneira, como condenar alguém que ama, seja lá em que fase for, não é mesmo?
E o amor de outono é unico.
beijos e obrigada.
Lindo domingo para você, meu amigo.

Silvana Nunes .'. disse...

BOM TARDE, amiga.
Antes de mais nada estou aqui para agradecer a visita e seu comentário tão significativo para mim. Eu ando um pouco ausente, minha conexão anda péssima, lentíssima. Como já havia dito, eu moro dentro de um pedacinho da mata Atlãntica e o sinal aqui é muito dificultoso. Além do mais, com toda essa chuva que tem caído tenho mantido o meu computador desligado por conta dos raios, já queimei uma televisão por causa disso, aqui não tem pára-raios ( agora vê, acostumada com cidade grande, achei que no mato poderia existir um pára-raio - só eu mesma). Espero que compreenda as diversas limitações de quem escolheu viver no mato.
Hoje eu trago uma história bem legal, por um acaso sabe onde fica a tal casa-da-mãe-joana? Então vá até lá conferir.
A medida do possível vou colocando as histórias, com a lentidão de sempre.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... agradece mais uma vez a sua visita esperando que volte sempre.
BOM DOMINGO.
Saudações Florestais !
http://www.silnunesprof.blogspot.com

Dulce disse...

Graça

Obrigada, minha amiga... também empunho essa bandeira. E não falamos desse namoricos inconsequentes e passageiros que andam por ai. Falamos de sentimentos que envolvem a alma, a vida.Falamos de um amor que dá sentido à vida, que faz da maturidade um momento impar.
E vou pedir à minha amiga que leia os comentários aqui contidos, para que ela sinta a importância do momento.
Obrigada, mesmo.
Beijos e boa tarde

FOTOS-SUSY disse...

OLA DULCE, MARAVILHOSO TEXTO...TUDO DO MELHOR PARA A TUA AMIGA...VOTOS DE UMA BOA TARDE DE DOMINGO QUERIDA AMIGA!!!
BEIJOS COM CARINHO,


SUSY

Dulce disse...

Silvana

Obrigada pelo convite. Vou sempre ver suas histórias, que gosto muito.
beijos

Dulce disse...

Ola, Susy

Muito obrigada, amiga.
beijos e otimo final de domingo.

Dora Regina disse...

Querida amiga, para amar e aprender, nuca é tarde...Amei o texto...
Um grande abraço e uma ótima semana!!!

Dulce disse...

Dora Regina

Eu tambem acho... rs...
Obrigada.
Beijos

Sonhadora disse...

Dulce
História de vida...maravilhoso.
eu não tenho ainda sessenta, estou quase lá, mas por ter esta idade, tenho desejos...tenho ansia de amor, como qualquer jovem.
Acho muito bem que em qualquer altura da vida que se encontre o amor se pegue com unhas e dentes, como se costuma dizer.
felicidades para a sua amigaUm beijinho grande
Sonhadora

Dulce disse...

Sonhadora

São momentos lindos que devem ser vividos com magia. Quando dizem que o coração não envelhece, é justamente isso que querem dizer.

Beijos e obrigada

elvira carvalho disse...

Amiga, quem diz ao coração que já não tem idade para apaixonar-se? Uma coisa são convenções outra são sentimentos. E estes não desaparecem mesmo quando já se chegou ao Inverno, quanto mais no Outono ou no fim de Verão que me parece ser o caso da sua amiga.
Sabe o que me assusta. Que a sua amiga ponha a mãe à frente da mulher, que é o que todas nós costumamos fazer. Anula-mo-nos em função deles, e depois eles seguem o seu caminho e nós ficamos sozinhas a pensar no que podia ter sido a nossa vida se tivéssemos tido coragem.
Não é o meu caso, mas conheço vários.
Um abraço e uma boa semana

Dulce disse...

Elvira

Eu jamais diria isso, minha amiga. Sei bem o quanto um coração pode ser desvairado, em qualquer idade.
Também não sei se seria o caso de minha amiga colocar a mãe na frente da mulher. Penso mesmo que ela não deveria fazer isso, pois os filhos já trilham seus proprios caminhos, mas... Espero mesmo que não.
Beijos e uma ótima noite para você.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Felizmente, a paixão não escolhe idades. E é bom quando ela aparece sem se fazer anunciar, mesmo no Outono das nossas vidas.

Dulce disse...

Carlos

Mas ela nunca se faz anunciar. Explode, domina, acolhe, renova a razão de viver...
E no outono da vida ela chega intensa, sem pedir licença... E pronto... está feito o estrago... rs...