floquinhos

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Dos desencontros da vida...


Ainda em meu posto de observação, naquela noite, via na mesa ao lado, numa situação meio constrangedora, um homen e uma mulher sentados lado a lado, parecendo tão pouco a vontade, expressando em sua linguagem corporal a certeza de que se se aproximassem mais soltariam faiscas. Pouco se falavam e nunca se sorriam. Só estavam juntos naquele momento por amor ao filho que se formava e queria os pais presentes naquele dia tão importante para ele.. E fiquei pensando que um dia houvera amor entre eles, um amor tão forte que os levara a constituirem uma familia, a partilharem uma vida. Mas se houve tanto amor, como puderam permitir que a vida os encaminhasse para tanto desamor? No caso deles, por exemplo, o que houve foi que, quando a fase do tédio e da rotina que num certo momento envolve todo e qualquer casamento foi se instalando, aconteceu uma nova princesa a encantar o sapo que já não era principe e... Um fato tão comum hoje (e sempre), grilhões partidos, nem os filhos conseguiram faze-lo voltar atrás, ficar com a familia. e a mágoa que ficou no lugar dele, ocupando sua cadeira a mesa, seu lado na cama do casal foi tão intensa que só a proximidade um do outro já gerava mal estar, mesmo tantos anos depois...
Olhando para eles fiquei relembrando meu proprio casamento, uma união de mais de quarenta anos, com tantos altos e baixos, com todas as suas fases boas ou más cumpridas. Um casamento igual a tantos outros, na minha geração, onde o lindo principe que havia virado sapo e a bela Julieta que se transformara em matrona conseguiram o amadurecimento necessário para permitir que o amor voltasse a pairar entre eles, permitindo assim transformações que poderiam parecer impossiveis, quando o sapo que fora principe, na medida em que seus cabelos foram caindo, sua barba embranquecendo, foi pouco a pouco dando lugar a um homem mais maduro e o lugar que fora ocupado por uma matrona, que um dia fora linda Julieta, foi sendo ocupado por uma simples e corajosa mulher. Já não eram principe e princesa, nem sapo e matrona... Eram apenas e simplesmente um homem e uma mulher que ainda se amavam e que resolveram permitir que esse amor vencesse diferenças, mágoas, desencanto, mas também retomasse alegrias, carinho, cumplicidade e, ao se permitirem perceber essas mudanças, deram-se novamente as mãos, voltaram novamente seus olhares para a mesma direção, viveram um novo tempo. Sem grandes paixões, serenamente...
E quando esse tempo era sereno e bom, quando esse tempo era de esperança, a vida cobrou seu preço e ele se foi... E ela ficou, vazia, sozinha ainda que cercada de gente, mas cumprindo o resto de sua jornada com a mesma serenidade... Um casamento que fora meu e que passou como um filme em minha mente naquela noite agitada, ao ver um casal que não conseguira aceitar ou entender as transformações impostas por uma nem sempre fácil vida a dois.
E não sei aonde cabe, nesta crônica, o dito popular que apregoa que "amor eterno é o que não se realiza". Penso que seja porque só nessas circunstâncias o principe será sempre lindo, a Julieta sera sempre bela, Imagens guardadas para sempre, perfeitos os dois pelos sonhos a fora...

18 comentários:

Isa disse...

Bem escrito como sempre!
O tema,infelizmente,sempre doloroso e
habitual.
Beijo.
isa.

Dulce disse...

Isa

Infelizmente, sim... e cada vez mais frequente.
Beijos

LOURO disse...

Olá amiga Dulce!

Belo texto!!! E muito real infelizmente,para os tempos presentes...Parabéns!!!

Beijinhos de carinho,
Lourenço

Dulce disse...

Lourenço

Pois é, meu amigo, novos tempos, novos costumes, nem sempre fáceis de de viver...
Beijos

FOTOS-SUSY disse...

OLA DULCE, BELISSIMO TEXTO...INFELIZMENTE MUITO REAL...VOTOS DE UMA EXCELENTE SEMANA, COM MUITO AMOR E PAZ AMIGA!!!
BEIJOS COM CARINHO,


SUSY

Dulce disse...

Sust

Obrigada, minha gentil amiga.
Para você também, votos de muita paz e muito amor. Beijos

JCesar disse...

Nota:passe no meu blog. Fiz um presente com carinho para você.
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Olá Dulce. Bonita crônica. Vivi isso, duas vezes, e nos dois papeis.
A 'vida' me fez 'ver' que o amor que eu via, não era amor. Talvez seja melhor que eu fale sobre isso em um post.
Sobre o dito popular, no ginásio/colégio, 'costumávamos' ouvir, quando em uma admiração por uma menina(o) que era um amor 'platônico'. O destaque aqui, é que nessa fase, essa nomeação surge como um deboche. Alguém que ama sem ser amado, como sendo isso, ridículo. Pois bem, segundo de fato Platão, o verdadeiro amor é esse mesmo, o que transcende a matéria. Amar a coisa, pela sua relação, é falho. Amar o espirito atemporal é magnanimo. Para Platão, expresso em "O Banquete", o amor material está em constante busca por sua incompletude, e se alcançada não desejará perdê-la, tomando posse, que em sí torna imperfeito.
Para Platão, amor verdadeiro é uma eterna busca.

JC

Dulce disse...

JCesar

Vou esperar seu post ser escrito. Todos temos tantas histórias a contar...
Tem razão, amor platônico era um amor não correspondido, irrealizavel e os(as) adolescentes sempre amargavam mais de um desses amores... e como sofriam, faziam chorosas poesias, cantavam canções que os fizessem chorar (rs) - isso nos anos dourados. Doces anos da minha juventude...

Beijos

Agulheta disse...

Olá querida Dulce! Texto bem escrito e real nos tempos de hoje,tantos se sentam frente a frente e sem coragem de dar um pouco de si em prol dos filhos? Eles sofrem todos estes desvios das sociedades modernas.
Beijinhos de carinho. Lisa

Dulce disse...

Agulheta

São tantas histórias assim, minha amiga. E algumas bem perto de nós, afetando mesmo nossas vidas.
Beijos

Fernanda disse...

Minha querida Dulce,

Texto fantástico, tão real.
O que nos conta aqui acontece com todos os casais normais. Quando acaba a paixão fica outro sentimento mais sólido, o amor. Para alguns é o fim, não sabem interpretar o que se passou.
Depois um belo príncipe acabará sempre por ficar um charmoso rei, e a sua bela princesa transformar-se-á numa bela rainha, assim ambos o queiram muito.

Beijinhos

Dulce disse...

Na

Você definiu perfeitamente bem, minha amiga. Nós temos nossas experiências, nossa vivência, e assim vamos entendendo o mundo e suas mudanças.
beijos, querida amiga.

Isa disse...

Dulce,tem um selo no meu canto,enviado pelo Farol da Amizade.
Tendo um tempinho e gostando...pode levar.
A Árvore da Amizade.
Beijo.
isa.

Dulce disse...

Isa

muito obrigada, querida amiga, vou la buscar, sim, cm muito prazer e agradecendo sua atenção.
Beijos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Hoje em dia isso é tão vulgar, que já não me interrogo. Pelo contrário,penso é nos meus avós ( os brasileiros) que estiveram casados 75 anos! E a verdade é que aparentavam sempre uma grande felicidade.

Dulce disse...

Carlos

Os nossos antigos, até os casais da minha geração, casavam-se para toda a vida e procuravam cumprir o trato/contrato social/religioso. Hoje eles se casam já dizendo que se não der certo, separa... já começam uma nova vida sem expectativas de um futuro mais longo... Novos tempos, novos costumes, sei lá...

elvira carvalho disse...

Não sou partidária de que as pessoas fiquem juntas só pelos filhos ou por acomodação quando o amor acaba. Mas penso que o amor para florescer e crescer, necessita uma grande dose de paciência, de respeito e compreensão pelo outro que muita gente hoje em dia não tem. Confundem amor com desejo, paixão e quando ela acaba não sobra nada.
Um abraço e mais uma vez gostei muito de a ler.

Dulce disse...

Elvira

E exatamente isso, minha amiga. Paciência, respeito, compreensão, nada disso faz mais parte das intenções dos novos casais...
Obrigada, Elvira. Beijo e boa noite