floquinhos

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Fernando Pessoa: sobre aproveitar o tempo...


APOSTILA

(Alvaro de Campos)

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto?

Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,

E estremece, no mesmo movimento que o da terra,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino

10 comentários:

Pitanga Doce disse...

Pois eu já ando numa de aproveitar o tempo mas sem muitas espectativas. Só aceitando as coisas como elas vêm. Planos para muito longe? Nem pensar. Ando fazendo primeiro o que me agrada e deixando as chatices pra depois. Isso quando só depende de mim, é claro.

Sabe Dulce, tô ficando cheia de apagar incêndios. Quero Sol e mar. Se houver chances de uma lareira no decorrer do caminho, por que não?

Dulce disse...

Pitanga

Então somos duas, minha amiga... Neste momento de minha vida as coisas vão acontecendo ou não, ao sabor das marés...

Também um gostaria de um pouco mmenos de preocupações, mas o ritmo da vida moderna, o jeito de viver das gerações mais novas implica em envolver pais e mães em seus problemas com a maior naturalidade.
Haja folego, Mila... e força...
Beijos

Agulheta disse...

Dulce. De volta aos espaço de amigos,realmente agora com mais maturidade,deviamos de ter outras preocupações,mas sempre há algo para fazer e eu gosto de ajudar,dentro das minhas potencialidades,preciso saúde.
Beijinhos

Dulce disse...

Agulheta

Bem vinda, Lisa. Que bom que está de volta.
Pessoas devotadas e que vivem para ajudar os menos afortunados precisam mesmo de uma carga extra de força, saude, paciência, serenidade... Assim, de tempos em tempos, precisam "recarregar as baterias"...
Linda essa sua forma de encarar e levar sua vida, minha amiga.
beijos

Daniel Costa disse...

Dulce

Lendo Fernando Pessoa, neste poema do heterónimo Álvaro de Campos devíamos questionar-mo-nos, como Está implicito, como empregamos o tempo. A maior parte mal e há tantas maneiras de o arrumar nas nossas vidas, tornando-o proveitoso!
Daniel

Dulce disse...

Daniel

Fernando Pessoa tem o dom de sempre deixar questionamentos para nossas almas... Ao le-lo, sempre temos que pensar mais profundamente sobre este ou aquele assunto.
O aproveitamento do tempo, realmente, é questionável, porque o que pode ser desperdício para uns pode ser de muito bom proveito para outros... Cada qual tem seu modo.

Sandra disse...

Dulce!
Fernando Pessoa, escreve com a alma.
Dar um tempo.
Como é bom dar um tempo, para nós mesmos. As vezes a correria da Vida, nos deixa um pouco pertubados, pela agitação.
Pois precisamos muito desse momento.
Com muito carinho
amiga.Fique em Paz.
Sandra

Pitanga Doce disse...

Dulce, o ritmo das novas gerações implica em que nos evolvamos sem querer, nem perguntarem se nós queremos. Mas lembras como foi contigo? Porque eu, pelo menos, fui criada na base do "quem pariu Mateus que o embale". Se tinha problemas ou não, era o casal quem resolvia. Fui mãe aos dezenove anos e nunca a minha mãe ficou com meu filho pra que eu fosse à praia ou cinema ou teatro. Nada! Foi por isso que decidi que só teria um filho e aí o rapaz veio quando o outro tinha DOZE anos. Ó céus!

E aí a gente tem todo o direito, amiga Dulce, de sair do sério de vez enquando e até dizer NÃO! E voar, Dulce! Voar!

Dulce disse...

Sandra

Dar um tempo para esfriar a cabeça quando se está tenso, nervoso, é um ato de prudência.
Dar um tempo para que o esqucimento nos traga paz, é um ato de bom senso.
E por ai vai...
Já, aproveitar o tempo, como já disse, é muito relativo, concorda comigo? Fulano diz que aproveita o tempo estudando, lendo, armazenando conhecimento e cultura; Beltrano acha que o aproveita numa viagem, num passeio, numa festa... Ciclana aproveita para limpar a casa... Tão relativo...
Beijo e boa tarde.

Dulce disse...

Pitanga,

Comigo foi exatamente como com você. Até para ir a um médico ou dentista, eu tinha que levar as crianças comigo.
E nossos problemas, financeiros ou de relacionamento, eram nossos e nossos pais, na maioria das vezes, nem ficavam sabendo de nada.
Concordo com você, sim. Temos todo o direito de sair do sério e, principalmente de dizer não...
beijos