floquinhos

sábado, 31 de janeiro de 2009

Minha vã filosofia...


O dia está amanhecendo, a casa está em silêncio, um silêncio bem usual nestes últimos tempos, um silêncio que convida ao recolhimento, ao mergulho dentro de nós mesmos em busca de sonhos perdidos, de planos esquecidos, em busca de motivações para continuar uma luta que nos é imposta pela vida. E ao mergulharmos na profundidade de nosso eu, tanta coisa que ficou escondida nas prateleiras de nosso inconsciente vai aflorando. Coisas até que gostaríamos que ficassem trancadas num cofre, a sete chaves, surgem como fantasmas obrigando-nos a examiná-las, destrinchá-las para, finalmente, pô-las para fora, libertando-nos de pesos que nos arcavam. Mas afloram também lembranças boas, doces saudades, presenças amigas... Temos todo um universo, passado e presente, dentro de nós. Somos, na verdade, e cada um de nós, nosso próprio universo. Cada um de nós é um microcosmo, com suas histórias, seus sonhos, suas esperanças, suas aspirações e inspirações, até e, ou, principalmente, com suas frustrações, medos e temores. Coisas e sentimentos negativos e positivos constituem nossas bases, nossa forma de ser e de viver.
Assim acordei hoje!... Introspectiva, cheia de vã filosofia, mais atenta ao passar do tempo, sentindo que esse caminhar pela vida, década após década, conseguiu fazer de mim uma pessoa mais voltada para as coisas da alma, menos centrada no próprio "umbigo", passando assim a valorizar pequenas coisas, vivendo pequenos momentos com mais intensidade, percebendo que os sentimentos tem uma outra dimensão, vivendo cada dia de modo especial, valorizando cada instante porque o sentimos único... E imagino tudo isso como possível única vantagem que o envelhecer nos traz... Pode não compensar mas sempre será um conforto... Será?...

Dulce Costa
No último dia de janeiro de 2009

DIVAGACOES


Parecia que a cidade se afogaria em tanta chuva. O dia fora agitado, passei a maior parte dele diante do computador reorganizando meu site, trocando o e-mail para contato, pagina por pagina, já que o yahoo trocou o plano e disponibilizou um outro endereço, mais pessoal, isso já faz uns meses, mas fora do Brasil longe do meu PC não pude faze-lo: meu laptop não é compatível com os programas feitos para o Windows, uma amolação. E depois de resolver isso, ainda havia ajustes a fazer, páginas que queria remover, outras que queria modificar, outras ainda queria por no ar, e não deu tempo de fazer nem a metade do que havia planejado. No final do dia estava cansada, precisando de um banho e de uma caminha. E foi o que fiz. Deitar e dormir foi coisa de minutos, mas ainda não eram nove da noite... Lá pelas dez acordo com o telefone tocando, é uma amiga muito querida que queria ver se no sábado poderíamos sair para almoçar. Ah, não vai dar, que pena, porque neste sábado vamos fazer um almoço para meu filho que aniversariou ontem. Então ficou para o próximo final de semana. Assunto resolvido, vou voltar a dormir...
Ah, a cama já não parece tão aconchegante, viro de um lado para o outro sem conseguir me acomodar, minha cabeça está a mil e eu não quero pensar... não quero! Acendo o quebra-luz, tento ler, mas não consigo. O relógio marca onze e meia! Saio da cama, vou para a sala, mas antes passo pela cozinha para preparar um chá, volto para a sala e fico um tempo em pé, diante da janela, olhando a rua, os carros, as luzes, as janelas dos prédios vizinhos, iluminadas, fico tentando inventar histórias para os moradores de cada janela... não quero pensar... Aperto um botão do CDplayer e a musica vai aos poucos me envolvendo, preenchendo cada pedacinho de minha alma angustiada, tão triste nesta noite... Caminho pela sala tentando me acalmar, mas não consigo. Acabo enrodilhada no sofá, olhos fechados a mente em turbilhão... E, vencida pelo momento, pela musica, minha alma vai se acalmando.
Como não sei se vou conseguir ler, o jeito foi abrir o laptop e escrever... Isso sempre me acalma... Acho que agora já posso dormir. Mas antes vou sentar-me um pouco no terraço e ver a noite. Imaginar as estrelas escondidas pelas nuvens e conversar com elas assim mesmo, contar para elas o que não conto aqui, colocar minhas dúvidas que vão continuar sendo dúvidas para sempre, enfim, confidenciar-lhes meus segredos desta noite...
Preciso muito recuperar a serenidade perdida num trecho do caminho que acabou sendo meio pedregoso. Sei que vou conseguir. É só uma questão de tempo... de tempo e de manter os pés no chão e os olhos voltados para o caminho que vem a frente. E isso, prometo a mim mesma, vou fazer, custe o que custar...

Meia-noite e quarenta do sábado, dia 31 de janeiro de 2009
Dulce Costa

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

CAFE NO TERRACO AO AMANHECER



Ha sempre um escrito ou outro que se torna mais significativo ao longo de nossas vidas de escrivinhadores, não é mesmo? Pois há uma pequena crônica que postei em meu site, faz anos, nem sei se pode ser chamada de crônica, são poucas linhas, que sempre foi bem acolhida, sempre me trouxe bons retornos e chegou mesmo a trazer um certo e doce encantamento a minha vida, num determinado momento. No entanto, penso em retira-lo do site, por motivos pessoais. Mas como é um escrito afetivo, resolvi posta-lo aqui, hoje, numa forma de despedida, de partir amarras, de adeus a um sonho. Espero que gostem.
Café no Terraço

Vamos tomar um cafezinho? Sente-se aqui, pegue sua xícara com cuidado porque o café está pelando... e sirva-se deste bolo de chocolate que está ótimo. Se preferir, aí estão os pãezinhos de queijo ou as torradinhas com mel ou geléia. E admire comigo a beleza deste amanhecer de outono, este céu límpido, este ar mais puro, depois das fortes chuvas desta noite... Ouça o canto dos bem-te-vis que voam livres e o dos canários que vivem presos na gaiola dependurada no terraço do apartamento do vizinho, ao lado. O bem-te-vi tem um modo singelo de cantar, singelo mas alegre, um som de liberdade. Já o canário tem um cantar mavioso, lindo, mas um tanto triste, um som de aprisionamento, de ânsia de liberdade... E aí está o casal de beija-flores, como em todas as manhãs... E o tuinzinho que se empoleira na rede de proteção do terraço; depois de vários malabarismos, dá uma voltinha pelo lado de dentro, empoleira-se de novo e então ganha os ares novamente... É ainda pequeno, parece ser filhote, mas já sabe o quanto é maravilhoso poder abrir as asas para o mundo e voar livremente, sem coleiras, sem gaiolas...
Que bom poder tê-lo aqui comigo, amigo, em mais este amanhecer! Dividir com você tanta beleza, beleza essa que a maioria das pessoas nem enxerga, cegas que estão, mergulhadas dentro de si mesmas, envolvidas com seus problemas e com tantas ocupações, tantos compromissos, que por vezes as aprisionam, como a gaiola o faz com o lindo canarinho.... Mas nós ainda conseguimos enxergar a beleza de um amanhecer, a poesia que existe em um pôr-de-sol, ainda nos emocionamos com o canto de um pássaro, ainda sentimos prazer ao roçar do suave vento de um começo de outono (ou de primavera) em nossas faces... E isso tudo torna a vida mágica, encantada!

Dulce Costa
Março/2001

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Cecília Meireles


CANCAO

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
Bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.

Levou somente a palavra
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor fizesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos também...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

BERENICE - Simplesmente Berê...

Lembro-me nitidamente da primeira vez que a vi. Estávamos em nossa primeira aula de francês, na Aliança Francesa de São Paulo, lá na General Jardim. Fazíamos, meu marido e eu, um curso básico, intensivo e nosso professor, Alain Garcia já entrara na sala quando a porta se abriu e uma senhora entrou se desculpando pelo atraso. Era uma dessas figuras que quando chegam galvanizam as atenções pelo porte, pelo modo de andar, cabeça erguida, corpo reto, uma lady. Olhei para meu marido e sussurrei “Que bonita”! ele acenou com a cabeça e nossa atenção voltou-se para o professor que se apresentava, dando inicio a aula. No intervalo da aula ela se aproximou de nós sorrindo, nos apresentamos e começou ai uma amizade de mais de trinta anos.
Berenice (Berê) era encantadora, jovial, elegantérrima, de uma atividade invejável para seus sessenta anos. Mãe de cinco filhos, todos homens, casada com um médico conceituado, aposentara-se do serviço público e queria aproveitar o tempo para estudar francês e viajar pelo mundo. E todo ano lá ia ela, com um grupo, excursionar pelos cantos e recantos da Europa, Oriente Médio...
Discreta no vestir, não dispensava os saltos altos, as bijuterias finas, o perfume e a maquiagem. E eu que, aos trinta anos já me achava velha, fui aprendendo com ela que a vida é algo tão especial que deve ser vivida em cada segundo, que a idade cronológica nem sempre é a que temos, que podemos e devemos conservar a juventude em nossos gestos, nossas atitudes, mas uma juventude interior, não essa ridícula e falsa juventude a que algumas pessoas se apegam com medo de envelhecer, porque ela nunca teve medo da passagem do tempo, que sempre aceitou com tranqüilidade.
E a imagem dessa amiga tão querida vai passando pela minha mente como num filme, quadro a quadro... E tenho algumas historinhas incríveis da Berê para contar...
Uma delas, bem singular, aconteceu já num outro estágio, com um outro professor, Ethienne, um belga, uma figura. Ele dava sua aula, a porta estava aberta e uma barata ia passando calmamente pelo corredor. Berê arregalou o olhos num espanto incontido; como podia ser isso, uma barata passeando pelos corredores da Aliança Francesa? Então apontando para o inseto e, do alto de sua pose de lady que não acreditava no que estava vendo, soltou um sonoro - C’est un cafard?!?!?!?! (É uma Barata?!). O professor, bom demais, espirituoso, não perdeu a deixa e a chance de sedimentar um ensinamento e, correndo para a porta, pisou na barata, voltou para a sala e num gesto teatral complementou: - C’etait un cafard (ERA uma barata) Berê, em sua calma, sorriu, olhou para nós como quem diz “esse menino não bate bem”, e, voltando os olhos de novo para o professor que continuou dando sua aula como se nada de diferente tivesse acontecido , apenas murmurou um incrédulo “Ora!!!”. A classe toda caiu na risada, mas ninguém daquela turma nunca mais esqueceu como se diz “barata” em francês...
Hoje soube pela Clara, uma amiga em comum, que também fazia parte do grupo de amigos que formamos durante os quatro anos que estudamos lá – pois soube por ela que, durante o tempo em que estive fora do Brasil, Berenice, nossa querida amiga, se fora... Meu coração cobriu-se de tristeza... Meu mundo perdeu um pouco mais do seu brilho, de sua luminosidade... Apagou-se mais uma estrelinha do meu céu interior, e essa era, sem dúvida, uma estrela de primeira grandeza... Berenice Soares Gaspar. A nossa Lady Berenice! Um exemplo de mulher, uma história de vida...
Que Deus a tenha em Suas mãos, querida amiga...

Dulce Costa
São Paulo, 29 de janeiro de 2009

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

NO AZUL DE UM DIA CINZENTO


E o dia amanhece em paz...
Não descerrei ainda as cortinas de meu quarto, mas imagino que o dia esteja azul, de um céu sem nuvens, de um sol começando a rasgar a noite, infiltrando seus raios pelos cantos os mais obscuros da cidade, suponho flores de um jardim se abrindo ao som de uma musica doce que se espalhe pelo ar, Há um bem-te-vi alardeando sua presença no beiral de minha janela...
Encolho-me entre os lençóis, ainda de olhos fechados, sentindo cada centímetro de meu corpo agradecendo esse momento de aconchego e, automaticamente estendo meu braço que desliza sobre a cama e só encontra o vazio... e a realidade cai sobre mim. Recolho meu braço lentamente e me encolho ainda mais diante dessa ausência já tão longa e ainda tão sentida.
E a saudade que me chega é doce. Vem em forma de um olhar profundo, sereno, de uma voz forte, que se modulava acariciante quando o amor preenchia cada milímetro de nossos corpos, de braços que envolviam com ternura, de ombros aonde eu repousava confiantemente minha cabeça nos momentos mais difíceis, numa longa, longa caminhada pela vida.
Mas ele se foi. A vida o levou quando, filhos já criados, o tempo poderia ser então só nosso... Tínhamos ainda planos, tantos... Havia tanto ainda a fazer, tantos lugares do mundo a espera de um par de corações prontos para se deslumbrarem diante de cada momento, havia nosso canto aonde finalmente podíamos viver um para o outro, um pelo outro... Mas ele se foi...
E faz anos que estou aqui, tentando enganar a mim mesma, dizendo que tudo está bem, que houve uma superação, que estou feliz. Feliz? Afinal, o que é, como é, realmente estar feliz? Se estar feliz é estar-se em paz consigo mesma e com a vida, estou feliz. Se estar feliz é ter motivos para agradecer a Deus pelos filhos, netos, nora, amigos, sim, estou feliz, muito feliz... Se estar feliz é ter-se um cantinho aconchegante aonde se possa ainda sonhar, Ah, claro que estou feliz... Mas se para se estar feliz for preciso um outro braço que nos abrace, uma presença que nos acolha com carinho, um ser que nos envolva com amor, uma doce mão que segure a nossa num caminhar, sereno, a outra metade de nós, ah.. ai estou feliz pela metade, porque se tenho tudo isso em minhas lembranças, formou-se um vazio em minha realidade, em meu coração...
E pensando nisso tudo, pesando cada ponto, minha conclusão acalma minha alma porque apesar da ausência, minha vida tem todos os motivos do mundo para seguir em paz... E afinal, ninguém pode ser feliz o tempo todo. Estar-se feliz é questão do momento. E, neste momento, confesso que estou sim, feliz...
Aberta a janela de meu quarto, o dia é cinza, enfarruscado, meio triste... e daí? Busco meu solzinho interior e vou para mais um dia desta minha caminhada, num dia que se inicia azul dentro de mim...

Dulce Costa
SP / 28 de janeiro de 2009

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

UM ICONE DA MPB - Caetano Veloso


Caetano e Roberto cantam Tom Jobim (Clique no link abaixo para ver o vídeo)

http://br.youtube.com/watch?v=W1Yq3OFW7Jo

Ao chegar de viagem ganhei de meu filho um DVD.
Como ele sabe que gosto muito do Jobim, gosto de Caetano e ouço Roberto Carlos, e como, em razão de estar fora do Brasil na ocasião, não tive como assistir o programa, quando este foi levado ao ar, ganhei nada mais, nada menos que “Roberto Carlos e Caetano Veloso e a música de Tom Jobim”. E ontem à noite, a casa em silêncio, acomodei-me no sofazinho de meu quarto e, claro, preparei-me para me comover, mas tal não aconteceu.
Caetano, como sempre meio alternativo, escolheu algumas músicas menos conhecidas, ou menos populares, e outras bem marcantes Já Roberto, cantou só músicas de mais sucesso. E juntos fizeram, ao início e ao final, um bom dueto, com boas músicas. O filho de Tom, Daniel Jobim, quase tão desafinado quanto seu genial pai, deu seu recado em “Águas de março”. Na verdade, um excelente trabalho, muito bem cuidado, mas eu tenho essa mania de esperar demais das coisas e fico sempre um bocadinho (como dizem os mineiros de boa cepa, um cadinho de nada) aquém do esperado.
Mas valeu e recomendo para quem ainda não teve oportunidade de ver. São dois dos mais brilhantes astros da música brasileira (ainda que pesem afirmações em contrário) que dão seu recado com competência.

E olhando Caetano ali na tela, cabelos brancos, bem posto, sério, todo elegante em seu terno bem cortado, fui recordando o Caetano quase menino, naquele festival da Record, cabelos encaracolados, uma camisa de gola rolê branca sob um terno, se não me engano, xadrez em cinza e preto (a TV ainda era em branco e preto), os olhos brilhando, o rosto iluminado pela alegria de conseguir chegar aquele final tão concorrido, “sem lenço e sem documento, nada no bolso ou na mão”... Aquilo sim, emocionante...
E vieram os anos de chumbo, a tropicália, ai Caê, todo alternativo, cabelos longos, batas coloridas, escandalizando a nação “bem comportada” ao lado do Gil, da Bethânia e da Gal. O refúgio em Londres para escapar das inclementes forças da ditadura militar da época, o regresso ao Brasil, as mudanças passo a passo em sua vida, em sua carreira, e ei-lo ali, um senhor muito charmoso, tão comportado quanto o menino que nos anos 60 encantou o Brasil com sua “Alegria, alegria”...
Caetano tem por onde ser um ícone da MPB. Ele soube galgar seu lugar, soube trilhar seus caminhos entre controvérsias, vencendo a crítica a principio muito dura e intransigente, ganhando um a um seus admiradores que, depois de cativos, nunca mais o abandonaram.


Dulce Costa
São Paulo, 27 de janeiro de 2009

ALEGRIA, ALEGRIA... Caetano Veloso


Caetano no festival de MPB da TV Record - São Paulo (1967)
Clique no link abaixo para ver o vídeo


Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou
O sol se reparte em crimes,
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigite Bardot
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não
Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço, sem documento, eu vou
Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome sem telefone
No coração do Brasil
Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu sou sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou
Por que não, por que não
Por que não, por que não
Por que não, por que não

domingo, 25 de janeiro de 2009

ACONCHEGO PARA UMA NOITE DE CHUVA


Chove... A noite cai sobre a cidade.
Tento ler, mas não consigo concentrar-me na leitura, meu pensamento está longe, uma certa inquietude envolve minha alma. Fecho meus olhos, recosto a cabeça e deixo–me ficar ali, sem nada pensar, tentando um reencontro comigo mesma. Uma ansiedade doída faz-me sentir como se borboletas dançassem dentro de meu peito... Há uma inútil e indefinida espera que em mim tem feito morada. Mas o que espero, afinal? Ah, se eu soubesse, se eu pudesse definir esta sensação que me oprime...
É como quando desesperadamente aguardamos a chegada de alguém que, já por antecipação imaginamos que não venha; como quando esperamos por alguém que tarde demais, tanto que ao chegar talvez nem encontre mais espaço para sua presença, espaço por tanto tempo vazio que tenha acabado por transformar-se num imenso e profundo poço no qual tenham despencado todos os sonhos, todos os anseios, todas as esperanças de uma alma solitária...
Um relâmpago rasga o céu, iluminando a noite, o estrondo do trovão me traz de volta a realidade. Ergo-me lentamente, vou até a janela onde fico a admirar a beleza da chuva que cai... Sempre gostei de chuva. Sempre senti a cidade muito bonita em noites de chuva, com a luz dos faróis dos carros refletindo-se no asfalto molhado, com o barulhinho dos pingos jogados pelo vento contra a vidraça... Noite de chuva é noite que pede aconchego, é noite que exige paz...

Já foi noite de se estar junto, mão na mão, cabeça apoiada docemente no ombro forte, cabelos afagados com carinho, ternura a envolver o coração, palavras doces ditas em quase sussurro... Mas, como diria o Chico, “eis que chega a Roda Viva e carrega a alegria pra lá...” A presença virou eterna saudade, a alma passou a viver em compasso de espera, inútil, triste, angustiante espera, pois já não há o que esperar...

A noite envolvendo a cidade, a chuva caindo sobre ela, lágrimas molhando meu rosto, minha alma...
Saudade... Ai... tanta... tanta...


Dulce Costa

SP/25 de janeiro de 2009

DEPOIS DE SEIS MESES, UM SABADO EM SAO PAULO


Meu primeiro sábado em São Paulo, apos seis meses de ausência e já estava achando que ficaria placidamente em casa, entre meus livros, meus CDs e DVDs, diante de minha pequena janela para o mundo, a telinha de meu computador, pois não quisera marcar nada com minhas amigas para o final de semana, só para me deliciar com o simples fato de estar em meu canto, vagar por minha casa, aconchegar-me no meu sofá, enfim, ficar em casa do jeitinho que eu gosto.
E a manhã corria tranqüila, eu colocando coisas em ordem, quando meu filho chegou e me convidou para almoçarmos fora. Claro que aceitei, nunca recuso a doce companhia de qualquer dos meus filhos, e resolvemos que iríamos a um dos restaurantes do Shopping Villa Lobos, que fica bem perto de casa. Juntando a palavra a ação, lá fomos nós e escolhemos um restaurante italiano. E não é que minha alma portuguesa foi logo escolhendo um “pene ao bacalhau desfiado”? risos... Ah, não tinha erro, porque bacalhau torna qualquer prato super gostoso. Na verdade, se era para ser bacalhau, a escolha deveria ter recaído sobre qualquer um dos maravilhosos restaurantes portugueses que temos na cidade... mas estava bom, o almoço foi ótimo e saindo de lá meu filho quis passar numa loja de vinhos, no pavimento inferior e... Ah, maravilha olhar todas aquelas garrafas, vindas de tantas partes do mundo, contando tantas histórias ocorridas desde a escolha da terra, da casta da uva, dos métodos de fabricação, tantos caminhos até chegar ali, nas prateleiras daquela elegante loja de vinhos...
E enquanto meu filho escolhia os vinhos que queria levar para casa eu fui passeando pelo mundo através daqueles rótulos. Consagrados e caríssimos uns, respeitados e um pouco mais acessíveis outros, desconhecidos vários... E fui caminhando pelas Américas entre os vinhos da Califórnia, da Argentina, os apreciados chilenos, os nossos, que andam ganhando seu espaço... Ora, veja, estou na África do Sul, agora, e logo passo pela Austrália, também... Hummm... os italianos, encorpados chiantis, os espumantes... Agora estou em Portugal e meus dedos deslizam sobre o Dão, e vão tocando cada região vinícola da terra de meus antepassados. Vejo-me na Alemanha, mas derreto-me diante dos franceses... E numa hora assim eu lamento não ser um conaisseur de vinhos...Minha viagem seria muito mais interessante, adivinhando o sabor apenas pelas descrições contidas nos rótulos...
Meu filho terminou sua escolha e saímos da loja, deixando a compra para ser retirada depois porque queríamos ir a Livraria Cultura. Outro passeio pelo mundo, desta vez um pouco mais conhecido para mim, e logo na entrada o livro do Saramago que estava procurando e que logo coloquei na minha cesta e fui em busca de um novo exemplar de um dos meus livros de cabeceira que, emprestado, nunca mais foi devolvido (porque é que algumas pessoas acham que livros não são para serem devolvidos? Se elas soubessem o valor que lhes damos, devolveriam rapidinho, ou nem pediriam emprestados... Comprariam uns para si...). Ah, lá estava ele – “Cem anos de solidão”... Finalmente minha noite iria ter momentos lindos em companhia de Garcia Marques!...
Ainda rodamos um pouco mais pela loja, depois tomamos um café e deixamos o shopping. No caminho ainda visitamos uma loja de cozinha, só para conhecer e fomos para casa. Assim passei meu primeiro sábado do ano em Sampa, fazendo o que mais o paulistano gosta de fazer, almoçando num bom restaurante, depois visitando lojas e livrarias... rs... Claro que faltou um cineminha, um bom espetáculo de teatro, mas fica para um outro sábado... Por hoje foi suficiente e agora, depois de conversar um pouco com vocês, pacientes leitores do meu blog, na maioria das vezes esporádicos, vou me enrodilhar no sofá lá da sala para reler, pela não sei qual vez, Garcia Marques... Ou começo a noite por Saramago? Oh! Dúvida cruel!... risos... Não, na verdade não estou em dúvida. Hoje a noite é colombiana...

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo...”

sábado, 24 de janeiro de 2009

SOBRE A PASSAGEM DO TEMPO


Em visita ao blog "Cronicas do Rochedo" de Carlos Barbosa de Oliveira, da cidade de Lisboa, PT, deparei-me com um texto que narra uma história que lhe era contada por seu avô, quando o autor era ainda um menino, a respeito da passagem do tempo, história que nos traz um ensinamento, história que é sabedoria pura, dessas que só a experiência dos anos bem vividos podem nos trazer. História que, com a expressa autorização do autor, coloco aqui para vocês.

Que tempo tem?

(Carlos Barbosa de Oliveira)

Andamos todos obcecados com a falta de tempo. Ninguém tem tempo para nada. Deixámo-nos enredar numa teia de rotinas e vemos o tempo passar por nós sem nos apercebermos. O trabalho ocupa de tal maneira o nosso tempo, que perdemos a possibilidade de fruir as coisas boas da vida. Deixamos que a vida passe por nós sem lhe darmos o devido valor.

Em miúdo, quando manifestava o desejo de atingir rapidamente os 18 anos, o meu avô costumava contar-me a história de um menino que um dia encontrou uma Fada que lhe deu a oportunidade de pedir 3 desejos.
O menino começou por pedir para se ver aos 18 anos, com uma namorada muito bonita ao seu lado . A Fada satisfez-lhe o desejo.
O menino fez então segundo pedido. Queria ser adulto, estar casado, ter filhos, um bom emprego, uma boa casa e muitos carros na garagem.
A Fada satisfez-lhe o pedido... mas na altura o menino já tinha chegado quase aos 50 anos, em escassos segundos.
Foi então que pediu o terceiro desejo:
“Fada, quero voltar a ser criança!”
A Fada olhou-o com ar compungido e respondeu:
“Esse desejo não te posso satisfazer. Tenho todos os poderes, menos um… o de fazer recuar o tempo”.
O menino olhou-a com ar triste e perguntou:
"E agora quanto tempo tenho para viver?"
“Aquele que souberes aproveitar. Não sejas ansioso com o dia de amanhã e vive cada dia na sua plenitude”.

Quando o meu avô me contava esta história, não achava muita piada, mas à medida que fui crescendo, comecei a compreendê-la melhor. Quando fui viver para Macau, trabalhei e convivi muito com chineses. Com eles adquiri uma nova noção de tempo e estabeleci nova escala de prioridades na minha vida. Tornei-me mais calmo e aprendi a saborear o tempo.
Nas últimas semanas, comecei a notar que me escasseava o tempo. Ainda não fui ao cinema este ano, apenas li um livro e até deixei de ter tempo para responder aos vossos comentários com a assiduidade habitual. Pus o trabalho como prioridade, mas não quero que volte a ser esse o lema da minha vida. A calma voltará dentro de momentos.

http://cronicasdorochedo.blogspot.com/

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Carlos Drummond de Andrade


AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação, universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz á praia,
o que ele sepulta, e o que na brisa marinha
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante.
E amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor,
um chão vazio, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este no nosso destino, amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa alma mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

PRÊMIO BEAUTIFUL BLOGGER AWARD



Em prosa e verso recebe com carinho o prêmio Beatifull Blogger Award, concedido pela Professora Aline C. Costa

http://poesiaexpressaodaalmavidaeobra.blogspot.com/

Fico muito feliz e honrada com a escolha, que considero enorme insentivo para a continuação de meus escritos. Muitíssimo obrigada.

E quero indicar este prêmio para os seguintes blogs que acompanho:

http://neyniteroi.blogspot.com/

http://oacor.blogspot.com/

SENSIBILIDADE AO SOM DE ELVIS PRESLEY


Ah, que bem me faz ouvir a voz do Elvis entoando lindas baladas... Uma voz doce, forte, quente, que me envolve, que faz com que me volte para mim mesma, para um mergulho interior, que me predispõe a longas conversas com minha alma inquieta, atrevida, sonhadora, romântica, alma rebelde que nem sempre me permite serenidade, que por vezes faz-me esquecer de quantas décadas é feita esta minha caminhada, colocando em mim anseios e sonhos de quase menina...
Num dia desses, num e-mail, um amigo me disse que sabia quando eu estava mais sensível, porque nessas ocasiões eu sempre colocava músicas do Elvis em minhas páginas. Eu nem me dera conta disso, a escolha me parecia natural... Mas é pessoa atenta, conhece-me bem, tão bem a ponto de pelo simples fundo musical de meus trabalhos saber como anda minha alma...
E eu que imaginava que a voz do Elvis causasse em mim essas sensações acabei entendendo que é bem ao contrário, que quando me sinto mais fragilizada tendo a buscar um som que me chegue ao coração, que me dê certo aconchego, que acalme minha alma... E esse som é Elvis Presley.
Esta é uma das noites de Elvis... E sem dúvida alguma será uma madrugada de mergulhos dentro de mim mesma, de longas conversas com minha alma que neste momento está em total desassossego... Ainda bem que estou em casa, posso me refugiar na minha poltrona favorita, me enrodilhar no sofá, chegar ao terraço para olhar a noite, vagar pela casa se estiver insone, viver meu momento que, apesar de tudo, é doce, é um acalanto para meu coração...

Dulce Costa
São Psulo, 23 de janeiro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇÂO - Mario Quintana


Se eu fosse um padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

QUE BOM ESTAR EM CASA...


Acordo com o cantar arreliento do bem-te-vi e me deixo ficar ali, quietinha, sem me mover, sem nem abrir os olhos, sentindo cada movimento da cidade, o ronco dos carros passando na rua, os aviões cruzando os céus, o barulho do motor de uma moto, a janela do vizinho sendo aberta, cachorros latindo na vizinhança – e na minha casa? Sim, claro! O Bill, o novo morador da casa, late na área de serviço... Até o barulhinho do elevador me encanta!? Tanto barulho no meu despertar, tão diferente do acordar em Winchester, aonde durante seis meses e, principalmente nos meses de inverno, o acordar era tão silencioso... Mas me lembro que estou de volta ao ninho, que estou de novo no meu canto e isso me dá uma serenidade incrível.... Como pode essa barulheira toda soar como musica para meus ouvidos? Tenho certeza que amanhã já vou estar reclamando, mas por hoje,.. Ah, está bom demais!
Se ontem o dia foi de desarrumar malas, atender telefonemas, ler (e responder) e-mails dos amores e dos amigos me dando as boas vindas, hoje o dia deverá ser de organizar contas, compras, casa, tarefas tão prosaicas para quem chega com vontade de apenas curtir seu espaço... Mas se estou tão feliz por estar de volta ao meu aconchego, já tenho o coração cheio de saudade de minha filha e de meus netinhos que deixei por lá... Ah, coração dividido... quem dera poder te-los todos “ao pé de mim” ... Mas a vida os colocou em hemisférios diferentes e o jeito é a mãe andar de deslocando, não é?
Então vamos lá, começar o dia em Sampa, num ritmo completamente diferente do que vinha levando nos últimos seis meses, atenta as coisas daqui da terra para poder comentar, dividir cada momento com vocês que pacientemente vem visitar este blog.
Começo com meu cafezinho tomado no terraço, a espera do beija-flor que costumava me visitar todas as manhãs, mas isso é assunto para uma outra postagem...

Dulce
São Paulo, 22 de janeiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - João Moutinho

AGORA

Agora... eternamente só
Escovando os anos de pó...
Saboreando tristes desenganos...
Vou enganando a vida
Nos poemas...

Pinto como quero
O que desejo...
Projecto a cor perfeita
A dor profecta...
Diluindo os dilemas
Na ponta da caneta!

Agora... eternamente só
Completamente Deus...
Contemplo-te ainda
No desfiar do tempo
Entre a ponte do passado
E o ponto presente...

E pronto!

Visto-me de mim...
Peço emprestado
O que me falta de corpo...
Até que venha o fim
E assim...
Semi vivo... semi morto...
Entre sóbrio e ébrio...
Entre são e louco
Vou-me esfarrapando
A pouco e pouco
Em versos que escrevo
Tantas vezes por escrever...
Quantas vezes sem saber
O que me espera...

De certo a morte,
Quem dera a sorte
De ser apenas!
Primavera!

Agora,
Eternamente só...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

ESTOU VOLTANDO PRO MEU ACONGHEGO...

(São Paulo - Av. Paulista)

Quando cheguei em Winchester, no Estado americano de Massachusetts, há seis meses, vinha para uma nova temporada junto de minha filha e meus netos que não deveria ter sido tão longa. Cheguei em pleno verão, que foi passando em meio a um calor sufocante, difícil de agüentar sem o auxilio de ventiladores ou ar condicionado, então o outono chegou com suas paisagens maravilhosas, com suas cores, seus tons e temperaturas já bem baixas para quem vem de um pais tropical, e foi passando e dando lugar a um inverno rigoroso, todo branco, gelado, mas de lindas e inesquecíveis paisagens. Vivenciei o Halloween e o Thanksgiven, tive meu White Christmas, tudo no melhor estilo americano. Enfrentei, na semana passada, temperaturas baixíssimas, 23 graus Celsius negativos... Em matéria de clima, foi uma temporada “pra ninguém botar defeito”... Foram experiências incríveis... E, desde que comecei a escrever neste blog, venho passando tudo isso para quem tem a paciência de ler meus escritos.

Agora chegou a hora da volta ao ninho. Volto hoje para o Brasil, para meu canto, para meus amores de lá, de quem morro de saudades, para o convívio de meus amigos tão queridos, mas dividida que sou, já parto com o coração doendo de saudades antecipadas de minha filha e de meus netos que vivem aqui. Enfim, c’est la vie... c’est ma vie...
Assim, pelas asas da United Airlines, devo chegar a Guarulhos amanhã cedo e depois de devidamente instalada, volto para retomar nossos bate-papos, para contar-lhes minhas histórias, falar-lhes sobre casos e coisas, enfim, volto aos meus escritos “em prosa e verso” - prosa minha e versos dos poetas de meu coração...
Até lá, pessoal e, como dizem as gentes lá de Portugal, “Fiquem Bem!”

Dulce Costa
Winchester, 20 de janeiro de 2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Vinicius de Moraes


AUSENCIA

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada.
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

domingo, 18 de janeiro de 2009

É NOITE... FAZ TANTO FRIO!...


Noite muito fria de sábado, cidade silenciosa, escura, ainda coberta de neve, nem uma alma passando em suas ruas... Aliás, raramente alguém passa a noite por estas ruas, pelo menos caminhando. Todos usam seus carros para tudo. No verão, durante o dia ainda se podem ver ruas movimentadas, todo mundo em busca de sol, da alegria da estação, mas agora é tempo de se estar recolhido, faz frio demais lá fora.
Diante da janela meus olhos acabam por perderem-se na semi-obscuridade dos gramados brancos pela neve e minha alma rebelde aproveita para mergulhar na noite, atravessando o tempo e o espaço, em busca de um sonho que já nem existe mais dentro de mim... Mas se o sonho inexiste, porque a teimosia da alma em busca-lo? Ah, deve ser pela força do hábito, penso... Travessa, ela adivinha meus pensamentos, conhece-me bem, e num meio sorriso insinua que sou uma tola, que não sei nem o que se passa dentro de mim... E tenta escapar novamente...
Recolho-a sob protesto, ela insiste em partir, eu a retenho, quero-a hoje em seu devido lugar, sem desassossegos, sem ânsias, sem rebeldias. Tento um dialogo sobre minha necessidade de me sentir serena, nesta noite em que uma certa tristeza anda rondando meu coração, vazio, solitário, inquieto... Zangada ela se encolhe no fundo de mim e se fecha para qualquer ponderação. Ela se sente carente, eu me sinto temerosa. Ela busca um sonho que foi lindo. Eu respeito o tempo que levou esse sonho.
Fecho as cortinas, apago a luz, enrodilho-me na poltrona, fecho meus olhos ao sentir lágrimas deslizando lentamente sobre meu rosto...
Faz muito frio lá fora... Há um frio cortante aqui dentro...


Dulce Costa
Winchester, 17 de janeiro de 2009

sábado, 17 de janeiro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Helder Macedo

ENTRE ESPELHOS

Porque nasci entre espelhos
existo para além da minha imagem
que será minha
quando me encerrar
no espelho final da minha vida.

Porque nasci entre espelhos
meu amor
ao amor que tu me deres
não posso devolver
nada mais que a minha vida passageira
meu espelho paralelo
meu amor
que só sem mim me podes conhecer.

Porque nasci entre espelhos
tenho pressa
de encontrar-me face a face

e a minha imagem mudou
quando te amei
porque nasci
e fui nascendo sempre
por amar-te
até ficar sozinho

sem mim
no espanto encruzilhado de o saber
cresci sozinho para além de mim
perdi a própria sombra
e vivo onde não sei quem estou a ser.

Quando a morte chegar
quando eu chegar à morte
quando
eu
morrer
e de mim não sobrar nem a memória
que me foi alma durante a minha vida,
entre espelhos lentamente revelado
os olhos cerrarei.
E porque ausente
terei sido
inteiro.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

OS TECIDOS QUE ME ENVOLVERAM


Ontem, numa interessante troca de e-mails com um amigo, falávamos sobre tecidos, em especial os de algodão. Na verdade o assunto começou com uma lembrança dele dos vestidinhos de chita que as jovenzinhas de antigamente costumavam usar. Vestidinhos de ar romântico, estampadinhos com pequeninas e coloridas flores, saia rodada, manguinhas bufantes, babadinhos. E ele lembrava que a chita era fina, tinha maciez, diferente das que surgiram depois, chitas mais encorpadas, com florais maiores em suas estampas, usadas para lençóis. Lembrava com saudades da namoradinha usando vestidinhos assim nas tardes de verão lá da sua Niterói, a namorada que se tornou o grande amor de sua vida, mãe de seus filhos, companheira de sua jornada, numa linda história de amor que perdura até hoje...
Também tive meus vestidinhos de chita, quando menina, mas na minha adolescência fui tomando consciência das diferenças entre os tecidos e acho que começou ai minha paixão por eles. Tive a sorte de ter minha tia Alice, irmã de minha mãe, uma costureira de mão cheia, como se dizia na época, “uma modista”, sempre por perto, Fez meu lindo vestido da primeira comunhão, em seda branca, a frente da blusa toda trabalhada em casinha-de-abelhas, o vestido usado para receber meu primeiro diploma, também em seda branca, o meu vestido de noiva,, enfim, os vestidos que emolduraram os momentos mais marcantes de minha vida de jovem sonhadora e romântica. E com ela aprendi as diferenças entre os tecidos.
Mas Lembro-me que minha mãe sempre escolhia uma tricoline bem fina para fazer as camisas de meu pai, e para nossas blusas escolares ela comprava fustão, que havia mais fino e mais encorpado, como o piquê. E um outro tecido que se usou muito, um algodão leve, todo enrugadinho, a anarruga, parece que voltou a cena. São muitos os tecidos feitos de algodão e todos eles muito gostosos. Ah, mas bonito mesmo é o linho! chic demais... Gostava de vestidos de linho no verão, e blusas e saias, até calças compridas. Mas exigia um bom corte, um bom caimento, mãos hábeis a coze-lo - isso minha tia Alice tinha mesmo... E perdia-me de amores pela seda, seda pura, suave ao toque, leve, diáfana, dançando aos menores movimentos de nossos corpos... E a maciez do veludo, seu brilho? E as rendas? Ah, as rendas!... Lindas, preciosas... Tive vestidos memoráveis, lindos, daqueles que quando saem de moda, ou quando perdem a beleza do novo, ficam ainda um tempão no guarda-roupas (nome antigo do armário), com uma pena enorme de nos desfazermos deles... rs...
Depois vieram os tecidos sintéticos, mais práticos e mais de acordo com a vida moderna, que não nos dá muito tempo para os cuidados que alguns tecidos exigem, então buscamos a praticidade desses novos tecidos e vamo-nos esquecendo um pouco da delicia que é ter sobre o corpo, numa tarde de verão, uma camisa de linho, um vestidinho solto de cambraia, uma blusinha leve de seda... As camisetas vieram para ficar. As bermudas substituem as saias leves, rodadas ou justas. Mas vejo com uma certa alegria a volta dos vestidos nas vitrines dos shoppings e espero que eles tenham voltado para ficar, que não seja só uma tendência da moda que passe assim que passar a estação.

Dulce Costa
Winchester, 16 de dezembro de 2009

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Thiago de Mello


FULGOR DO SONHO

De tudo o que já me deu
agradeço à vida o sonho
da rosa que não ganhei.

Minha mão não alcançou
a estrela que desejei.
Seu fulgor o sonho inventa,
invisível no meu peito.

O navio embandeirado
que espero desde criança
está custando a chegar.

Não faz mal, canta o meu sonho,
nas águas que ele navega

Sabem a sal de esperança.
Nada perdi... como posso
perder o que nunca tive?

Vivo a vida do meu sonho,
meu sonho, de sonho vive.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

VOLTANDO AO NINHO...

Voltando ao ninho

Estou em contagem regressiva... Em uma semana devo estar chegando de volta ao Brasil. Parafraseando a musica do coração – “de volta pro meu aconchego / trazendo na mala bastante saudade...”
Saudade dos que lá estão: meus filhos tão amados que quero abraçar muito, beijar, contar tantas coisas, ouvir tantas coisas que eles devem ter para me contar, rever netos e nora muito queridos, minhas amigas, estar de novo em meu cantinho... Minha poltrona favorita aonde me sento para ler ou ouvir musica quando a madrugada é de serenidade, ou meu sofazinho aconchegante, em cuja maciez me encolho, me enrodilho, quando das madrugadas em que a alma resolve se abrir e expor melancolias e ânsias contidas... Meu terraço... ah, meu terraço! Passaporte para o sonho, palco de algumas loucas fantasias aonde é servido, para os amigos mais queridos, café ao amanhecer e chá ao cair da tarde, aonde o beija-flor vem para beber água ou simplesmente me visitar, todas as manhãs, platéia para se namorar a lua mais linda que se esparrame por sobre Sampa, ou para viver a beleza de uma noite de chuva, aonde a luz dos faróis dos carros que passam lá embaixo, na rua, formam desenhos no asfalto... Um perfume de rosas no ar, uma musica do coração, Assim é meu terraço encantado, meu pequeno mundo da lua, aonde minha alma se liberta e de onde parte para viagens por sobre mares e continente, atravessando hemisférios, ao encontro de almas afins, em busca de entendimentos, de carinho, ternura, paz...
Mas se volto feliz para esse meu cantinho tão especial, levo também um aperto no coração e já muitas saudades deste outro canto que também me é especial, porque nele deixo minha filha tão amada, meus netos tão queridos, meus gringuinhos, meus kids... Aqui também tenho um lugar para namorar a lua, ver a chuva cair sobre o gramado, a neve cobrir a cidade num espetáculo inesquecível... Aqui vislumbrei as mais lindas tardes de outono, com suas cores, com seus tapetes de folhas cobrindo o asfalto e os gramados e desfrutei de muita paz em meus passeios pelo bosque, até o lago aonde me sento para, deixando meus olhos descansarem sobre as águas, poder libertar minha alma em caminhadas interiores, momentos de tanta serenidade...
Sou um coração partido ao meio. Sou uma alma com dois portos de abrigo. Sou um espírito em dualidade... Quero estar aqui, quero voltar para lá...
E assim vou vivendo meu outono da vida, entre tristezas de partidas e alegrias de chegadas, entre saudades de uns e de outros, entre paisagens tão diferente e tão igualmente minhas, entre amigos que me reclamam a presença e entre meus amores divididos em dois hemisférios... E meu coração agradece a vida por tudo isso, e minha alma segue feliz ou melancólica pelas madrugadas, ora em Sampa, ora em Winchester, sempre ao sabor dos sonhos...

Dulce Costa
Winchester, 14 de janeiro de 2009

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Fernando Pessoa



CARTAS DE AMOR

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

MINHA ALMA E AS MADRUGADAS

Madrugada! Mais uma madrugada olhando as estrelas, ouvindo musica, deixando sentimentos fluírem, expondo uma alma frágil, carente, sozinha, uma alma que vaga em madrugadas assim a procura de uma razão para tanta ansiedade. O que me leva a acordar assim, no meio da noite, totalmente desperta, absolutamente inquieta,? O que provoca em mim essa nostalgia de momentos não vividos, de lugares nunca vistos, de pessoas nunca encontradas pelos caminhos de minha vida? E porque isso vem se tornando mais e mais freqüente a medida em que vou avançando neste meu caminhar pelo tempo?
Volto meu olhar para um passado já tão distante, quando tudo era esperança, e venho de novo percorrendo cada passo dado em meus caminhos e em nenhum momento percebo minha alma tão inquieta, tão sonhadora e ao mesmo tempo tão desesperançada. Na adolescência havia um mundo a conhecer, havia um mistério no ar, um “como será?”. Na juventude a alma andava em festa, tudo era azul, tudo era amor. E o tempo foi caminhando, as etapas foram sendo cumpridas, o amor em forma de convivência as vezes num lago sereno, as vezes em total turbulência, a vida se povoando com a chegada dos filhos, novos sonhos, novas esperanças, e durante todo esse tempo as madrugadas eram apenas parte das noites. Então quando foi que as madrugadas passaram a ser momentos de reflexão, de sonhos, de mágoas que afloram sem sentido, de contar estrelas, de chorar olhando o luar sobre a cidade, de vagar pela casa na semi-obscuridade, de ficar encolhida no aconchego de um sofá como se fora um colo amoroso, de se sentir tão nostálgica, de explodir em ânsias, em sentimentos, em inquietude? Quando?
Acho que quando este corpo já cansado pelo longo caminhar tentou fazer a alma inquieta e tresloucada perceber que era tempo de paz, de deixar os sonhos se acalmarem, de deixar que o caminhar seguisse sem atropelos, sem mais tumultos, sereno como um lago numa linda noite de luar... Acho que estabeleceu-se ai um conflito entre o real e o imaginário. O real que carrega todos os anos percorridos, todos os momentos vividos, todas as marcas, as cicatrizes de uma caminhada nem sempre serena, nem sempre fácil, O imaginário, que não conhece fronteiras nem limites, que se lança pelo universo das emoções, das paixões, dos sonhos, da fantasia, rebelde, voluntarioso, apaixonado. E lados tão conflitantes de uma mesma alma provocam uma instabilidade emocional, tornando-a mais frágil, mais insegura, mais nostálgica... E uma alma frágil, insegura, nostálgica, fica muito mais sensível a uma madrugada insone, a uma noite de luar absurdamente intenso, a um céu estrelado, a uma musica que lhe chegue de mansinho, a uma saudade, a um sonho impossível...
Então acho que vão continuar assim, minha alma e minhas madrugadas... ambas insones, musicais, nostálgicas, já que a alma se nega a deixar de sonhar e as madrugadas parecem terem sido feitas para o sonho...

Dulce Costa

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO - Cecília Meireles



RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

domingo, 11 de janeiro de 2009

TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO MUNDO

Ao abrir as cortinas, uma vista da cidade vestida de branco... Foto tirada hoje cedo, da janela de meu quarto.

“Não sou nada
Nunca fui nada.
Não posso querer ser nada.
A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo...”

Assim começa Tabacaria, uma maravilhosa criação de Fernando Pessoa,, numa dessas considerações postas pelo poeta que me caem como uma luva..
Também eu carrego em mim todos os sonhos do mundo, mesmo sabendo que são irrealizáveis, grandes demais para minhas reais possibilidades de vida. Tenho consciência da minha pequenez, vejo-me através do espelho de minha alma, sei o quanto as vezes consigo ser ridícula para comigo mesma, mas ainda assim, sonho. E como sonho...
Com isso vou palmilhando meus caminhos com a esperança que tais sonhos me permitem, e vou vislumbrando o meu inverno com menos medos, com mais serenidade, enfrentando ora turbulências e tempestades, ora dias calmos e ensolarados, ora trechos modorrentos, cheios de tédio, tentando sempre manter essa serenidade que minha alma precisa para não soçobrar.
Confesso que, vez por outra, considero a possibilidade de ser uma mulher totalmente pragmática, pés arraigados no chão da realidade do tempo marcadinho no relógio de minha vida, e digo enfaticamente para mim mesma: – “Não vou mais sonhar... chega! Que absurda perda de tempo! Que criatura ridícula estou me tornando...” E tento mesmo ser assim, mas me pego já na hora seguinte, desprevenida, olhos olhando através da alma, construindo castelos no ar, completamente esquecida de meus propósitos.
Exatamente como nesta manhã de domingo. Desde a madrugada tomara a tal resolução de fincar meus pés na realidade de meus dias, diante da tristeza que envolvia minha alma naquele momento, mas ao clarear do dia, ao chegar a janela e ao me deparar com a cidade completamente vestida de branco, a neve caindo suavemente, silenciosamente, formando delicada cortina diante de meus olhos, minha alma rendida diante da beleza do momento,, completamente esquecida de meus “firmes” propósitos da madrugada, desgarrou-se de mim para enveredar em novos e tresloucados sonhos...
Ah, desisto de tentar... Sou mesmo um caso perdido... vou continuar, mesmo sendo nada, mesmo nunca tendo sido nada, mesmo sem poder querer ter sido nada, ainda assim vou continuar carregando em mim todos os sonhos do mundo...

Dulce
Winchester, 11 de janeiro de 2008

sábado, 10 de janeiro de 2009

MEUS POETAS DO CORAÇAO



Ah , os poetas do meu coração!
Quantas vezes não recorro a eles para expressar o que me vai na alma!... Incontáveis vezes chegam-se a mim para mostrarem-me sentimentos que tento manter escondidos de mim mesma, e, nas minhas madrugadas insones me são companhia amiga, ajudando-me a atravessar as horas vazias e sombrias de longas noites passadas em solidão... São encanto, são ternura, são paixão, muitas vezes são descobertas...
Costumo dizer que quando um poeta nasce, traz consigo a árdua missão de traduzir em palavras os sentimentos e as emoções que afligem o ser humano ao longo de sua caminhada pela vida. E costumo questionar-me sobre como nós, míseros mortais, sem a capacidade ou a sensibilidade dos poetas, como conseguiríamos nós expressar o que nos vai n’alma senão através dos versos, da poesia desses seres iluminados...
A poesia tem sido um alento em minha vida; por meio dela consigo me entender melhor e chego mesmo a utilizá-la, sem a menor cerimônia, para expressar meus próprios sentimentos.
Elegi-os através dos anos, trago-os comigo sempre e vou fazer de cada um deles uma presença, a princípio diária, neste meu espaço virtual, para dividir com os que me lêem a sensibilidade e a beleza de seus versos.
Abro com Florbela Espanca, pura paixão, sentimento, angustia, sonho, mágoa... ou, simplesmente, mulher em toda a sua plenitude que tão bem soube expressar a alma de uma mulher que amava, acima de tudo, AMAR.

Dulce
Wincheser, janeiro de 2009


Amiga


Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.


Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?!
O que quiseres
É sempre um sonho bom!
Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...


Beija-mas bem!...Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,

Os beijos que sonhei pra minha boca!...

(Florbela Espanca)


O VAZIO DOS DIAS...


Há dias em que parece que se instala um vazio em minha alma, como se as coisas todas perdessem um pouco o sentido, como se os sonhos acalentados já não significassem nada, já não tivessem razão de ser... O céu pode estar azul, o sol inundando a cidade, mas em mim tudo em branco e preto, sem cor, sem graça, A música me entristece, quando deveria me emocionar, as flores me cercam de nostalgia, seu perfume toca minha alma que se retrai ainda mais...
Hoje estou assim, querendo colo, aconchego, carinho... e me dou conta de que estou só!... definitivamente , irremediavelmente só!... Mas faz já tanto tempo que carrego comigo esse estar sozinha, porque então, de repente, esse sentimento chega em mim como um balde de água fria inesperadamente despejado em minha cabeça? Em que momento deste meu caminhar perdi meu rumo, enveredei por um pretenso atalho sem saber aonde chegaria, já que acabei chegando a lugar nenhum?

Dulce
09/01/2009