floquinhos

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

BERENICE - Simplesmente Berê...

Lembro-me nitidamente da primeira vez que a vi. Estávamos em nossa primeira aula de francês, na Aliança Francesa de São Paulo, lá na General Jardim. Fazíamos, meu marido e eu, um curso básico, intensivo e nosso professor, Alain Garcia já entrara na sala quando a porta se abriu e uma senhora entrou se desculpando pelo atraso. Era uma dessas figuras que quando chegam galvanizam as atenções pelo porte, pelo modo de andar, cabeça erguida, corpo reto, uma lady. Olhei para meu marido e sussurrei “Que bonita”! ele acenou com a cabeça e nossa atenção voltou-se para o professor que se apresentava, dando inicio a aula. No intervalo da aula ela se aproximou de nós sorrindo, nos apresentamos e começou ai uma amizade de mais de trinta anos.
Berenice (Berê) era encantadora, jovial, elegantérrima, de uma atividade invejável para seus sessenta anos. Mãe de cinco filhos, todos homens, casada com um médico conceituado, aposentara-se do serviço público e queria aproveitar o tempo para estudar francês e viajar pelo mundo. E todo ano lá ia ela, com um grupo, excursionar pelos cantos e recantos da Europa, Oriente Médio...
Discreta no vestir, não dispensava os saltos altos, as bijuterias finas, o perfume e a maquiagem. E eu que, aos trinta anos já me achava velha, fui aprendendo com ela que a vida é algo tão especial que deve ser vivida em cada segundo, que a idade cronológica nem sempre é a que temos, que podemos e devemos conservar a juventude em nossos gestos, nossas atitudes, mas uma juventude interior, não essa ridícula e falsa juventude a que algumas pessoas se apegam com medo de envelhecer, porque ela nunca teve medo da passagem do tempo, que sempre aceitou com tranqüilidade.
E a imagem dessa amiga tão querida vai passando pela minha mente como num filme, quadro a quadro... E tenho algumas historinhas incríveis da Berê para contar...
Uma delas, bem singular, aconteceu já num outro estágio, com um outro professor, Ethienne, um belga, uma figura. Ele dava sua aula, a porta estava aberta e uma barata ia passando calmamente pelo corredor. Berê arregalou o olhos num espanto incontido; como podia ser isso, uma barata passeando pelos corredores da Aliança Francesa? Então apontando para o inseto e, do alto de sua pose de lady que não acreditava no que estava vendo, soltou um sonoro - C’est un cafard?!?!?!?! (É uma Barata?!). O professor, bom demais, espirituoso, não perdeu a deixa e a chance de sedimentar um ensinamento e, correndo para a porta, pisou na barata, voltou para a sala e num gesto teatral complementou: - C’etait un cafard (ERA uma barata) Berê, em sua calma, sorriu, olhou para nós como quem diz “esse menino não bate bem”, e, voltando os olhos de novo para o professor que continuou dando sua aula como se nada de diferente tivesse acontecido , apenas murmurou um incrédulo “Ora!!!”. A classe toda caiu na risada, mas ninguém daquela turma nunca mais esqueceu como se diz “barata” em francês...
Hoje soube pela Clara, uma amiga em comum, que também fazia parte do grupo de amigos que formamos durante os quatro anos que estudamos lá – pois soube por ela que, durante o tempo em que estive fora do Brasil, Berenice, nossa querida amiga, se fora... Meu coração cobriu-se de tristeza... Meu mundo perdeu um pouco mais do seu brilho, de sua luminosidade... Apagou-se mais uma estrelinha do meu céu interior, e essa era, sem dúvida, uma estrela de primeira grandeza... Berenice Soares Gaspar. A nossa Lady Berenice! Um exemplo de mulher, uma história de vida...
Que Deus a tenha em Suas mãos, querida amiga...

Dulce Costa
São Paulo, 29 de janeiro de 2009

Um comentário:

Natália Mormile Gaspar Camargo disse...

Querida Dulce, hoje encontrei sua postagem e me fez chorar. Sou neta da Berê. Estava conversando com um colega sobre meu avô e achei na internet algumas referências dele e fiquei pensando na minha avó e o quanto ela foi especial. Uma mulher guerreira e muito a frente do seu tempo. Imaginei que não encontraria nada sobre ela no mundo virtual, mas me surpreendi ao encontrar seu blog e mais ainda ao ler suas palavras. Obrigada por me conectar um pouquinho com minha avó tantos anos depois de sua partida.