floquinhos

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Folhas farfalhando ao vento, o feitiço da lua...

Lá fora a escuridão começava a se dissipar e a noite que estivera envolta em silêncio trazia agora o barulho do vento nas ramas da palmeira que crescia junto ao muro dos fundos da casa., um barulho suave, de folhas se entrelaçando. De olhos fechados, a alma sentindo-se livre embrenhou-se pelo tempo, levada pelo próprio vento...
Décadas atrás, Interior de Sergipe! Sim, o lugar era esse e fora por força do trabalho de seu marido, que tivera que se mudar para lá. A cidadezinha acanhada era, naqueles dias, o lar que abrigava a ela e a sua família ainda em formação. A casa em que moravam, era tão acanhada quanto a própria cidade, pelo menos para ela, nascida e crescida numa cidade grande, acostumada aos confortos de São Paulo. Ainda tão jovem, tão inexperiente e de repente (parecia mesmo ter sido de repente, não mais que repente...) via-se responsável pelos cuidados de uma família, dois filhos pequeninos ainda, longe de tudo que entendia como sendo seu chão...
Sentia-se acuada, amedrontada e, naquele momento, tomada por uma angústia, parecia sufocar na escuridão do quarto. O silêncio que só era entrecortado pelo ressonar do marido, que dormia a sono solto, foi quebrado pelo doce farfalhar do vento nas folhas dos coqueiros do quintal da casa vizinha, que chegava como um apelo. Sem se lembrar do que a fizera sair da cama, viu-se abrindo as largas folhas de madeira da janela para mergulhar no encantamento da noite... Um luar imenso esparramava-se por sobre a cidade que dormia sob um céu todinho estrelado. As folhagens dos coqueiros vergadas pelo vento produziam o som da paz. Paz que a foi envolvendo, pouco a pouco, aturdida que estava diante de tanta beleza. Não se lembrava de ter visto um cenário como aquele, e mesmo muitas décadas depois ainda não conseguiria lembrar-se de outro momento tão encantado em sua relação de deslumbramento diante da natureza.
Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto num choro manso, Talvez o primeiro dos muitos outros que viriam lavar sua alma tantas vezes, ao longo de sua vida. E por um tempo que lhe pareceu imenso, ficou ali, entre o céu de Sergipe e a terra dos seus temores, da sua insegurança. E assim foi-se deixando ficar até que a alma se sentisse lavada, em paz, serena como nunca estivera antes.
Sô décadas mais tarde entenderia que aquele momento fora como um rito de passagem quando, deixando para trás os sonhos desfeitos de uma quase menina de vinte anos começou a assumir os novos sonhos de uma jovem mulher que parecia finalmente situar-se num novo contexto de vida.

Dulce Costa

8 comentários:

Lourdes disse...

Olá Dulce.
Fiquei emocionada com o seu texto de hoje, não só pela forma como o escreveu como também por me fazer lembrar algumas "meninas" que também conheci.
Beijinhos

Dulce disse...

Lourdes

Com o passar do tempo, na medida em que vamos amadurecendo, entendemos que na vida as histórias se repetem.
Tolamente achamos que só acontece conosco, mas não...
E digo-lhe, minha amiga, que aquele começo de vida, os primeiros anos de uma nova familia foram muito, mas muito difíceis, até mesmo pela minha falta de experiência - aliás, experiência só adquirimos com o tempo, com a vida = mas foram também uma fantástica escola porque desde então a vida passou a ser encarada por mim com muito mais serenidade e força. Enfrentar momentos difíceis ensinou-se a valorizar mais as pequenas coisas, a encontrar a felicidade em cada instante, em cada pequena esquina da vida.
beijinhos

cristal disse...

Olá Dulce,
Retribuindo a visita e dizendo que esteja à vontade para publicar o texto sobre o "nosso" sistema educativo. Gostei do seu blogue e voltarei quando estiver menos ocupada para ler mais

tinta permanente disse...

As memórias é assim uma espécie de Terra Prometida da qual, sabemos, que nunca seremos repelidos... não é?


abraços!
www.tintapermanente.com

Dulce disse...

Cristal

Obrigada pela atenção e pela visita.
É um prazer recebe-la. Volte sempre.
Obrigada.

Dulce disse...

Tinta Permanente

Tem razão.
E só não sei se elas fazem parte de nós ou se somos nós que fazemos parte delas...

Um abraço

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Mais um texto maravilhoso, prenhe da sensibilidade a que nos habituou.

Dulce disse...

Carlos,

Obrigada. Como sempre, voê muito gentil.