floquinhos

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Começa-se a semana com a poesia de Fernando Pessoa...


Realidade


(Alvaro de Campos)

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...

Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto —
Nesta localidade da cidade ...

Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...

Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?)...
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos...
Não me lembro, não me posso lembrar.

O outro que aqui passava, então,
Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo
Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais
lembradamente de azul.

Hoje, se calhar, está o quê?
Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado físisca e moralmente: não quero imaginar nada...

Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.

Olhamos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Talvez isso realmente se desse...
Verdadeiramente se desse...
Sim, carnalmente se desse...

Sim, talvez...


12 comentários:

O Profeta disse...

O desejo mora no limite da razão
Há tanto de intemporal em ti
Solta a palavra em lábios inquietos
As cores do teu “eu” penso que não vi

Imaginei-as mil vezes
Ouro de lei, a limpidez dos diamantes
O pensamento é cavalo errante
Feito na viagem de breves instantes


Boa semana


Mágico beijo

Dulce disse...

Profeta

Muito lindo!
Obrigada e boa semana para você também.

Beijo

Fernanda disse...

Lindo poema Dulce!

O passado por mais intenso que tenha sido... é passado, e fica sempre a sensação do talvez.
Talvez desse ou não.Talvez!
Bejinhos mil.

Osvaldo disse...

Oi, Dulce;

E nada melhor que convidar Fernando Pessoa para abrir o baile poético da semana. Porque este poema é como uma Valsa de Joann Strauss.

bjs, Dulce.
Osvaldo

Dulce disse...

Fernanda

Assim é...
E entre um "se" e outro paira a dúvida do que teria sido se... No entanto, se voltassemos no tempo - e não saberiamos o que hoje sabemas - possivelmente repetiriamos cada um de nossos passos...
Beijos e linda tarde para você.

Dulce disse...

Osvaldo

Linda a sua comparação. Nunca me havia ocorrido...

beijos e uma boa tarde

Agulheta disse...

Dulce. Lindo para começar a semana ler Pessoa? ao som desta maravilhosa melodia...lindo o conjunto.
Beijinho

Dulce disse...

Agulheta (Lisa)

Pessoa ilumina começo, meio ou até final de semana... rs... Como Elvis que com suas baladas romanticas derrete meu coração a qualquer hora... rs...

Beijinhos e obrigada

São disse...

Quen bom encontrar aqui o multifacetado Pessoa(s)

Feliz semana.

Dulce disse...

São

Pessoa e presença obrigatória neste blog. Virou e mexeu e ele está por aqui, em todas as suas facetas.
Feliz semana para você também

pico minha ilha disse...

E a ler pessoa deixo um beijinho e uma boa semana para si.Obrigada

Dulce disse...

Pico Minha Ilha

Obrigada, Salomé.
Uma boa semana para você também.

beijinhos