floquinhos

segunda-feira, 9 de março de 2009

PORQUE E SEGUNDA-FEIRA


Final de madrugada, quase amanhecer. A cidade em silêncio... Nem os bem-te-vis acordaram ainda... Vou até a cozinha preparar um café pensando em subir ao terra;o para ver o nascer do dia, mas percebo que está chovendo, então acomodo-me em minha poltrona favorita, no canto da sala, junto a lareira tão inútil neste nosso clima tropical... Hoje estou me sentindo mais só... Ainda bem que é segunda-feira, logo, logo, a agitação do dia começa, pois assim vou ficar sem tempo para ter peninha de mim. Não gosto desse sentimento, não acho que o mereça, Ter pena de si próprio é quase inconcebível...
Ah, ai está o primeiro canto do bem-te-vi, como se fora um bom dia!... E os primeiros ruídos tão característicos da cidade, o ronco dos motores dos carros que passam lá embaixo, na rua que já foi tranqüila, isso antes de terem mudado mãos e contra-mãos de direção na tentativa de se fazer esta cidade andar. Uma tentativa inútil, aliás.
Saboreando meu primeiro café do dia, a sala pouco a pouco saindo da penumbra do amanhecer para o cinzento desta manhã de chuva, vou percorrendo com os olhos cada um dos objetos que foram chegando a minha vida no decorrer dos anos. Cada um com sua história, cada um carregando uma lembrança. Sobre a mesa de centro, alguns cristais falam da saudade que sinto de meu marido, nesta ausência de mais de seis anos, pois foram presentes dele em momentos nossos. Sobre a lareira, um par de castiçais dados a mim por minha nora, num de nossos maravilhosos almoços de domingo em família. Na parede sobre o piano, uma tela guarda para sempre o sorriso do Ubirajara, aquele mesmo sorriso que me encantou quando por primeira vez nos vimos. E sobre esse piano, porta-retratos mostram netos e filhos em épocas diferentes de suas vidas, alem dos maravilhosos anjos em terracota. Um incrível e famélico Dom Quixote, empunhando sua lança, em cobre, também marca presença, bem como os quebra-luzes sobre as mesinhas que sustentam ainda outras pequenas peças em cristal, cada qual com sua história. Assim são as casas das avós. Cheias de quinquilharias, cheias de histórias, cheias de lembranças que ao longo do tempo vão se acumulando e se tornando preciosas... E assim foi amanhecendo meu dia, entre o canto do bem-te-vi, o ruído da cidade invadindo meu sossego e um passeio pelos caminhos de minhas lembranças através de cada objeto que me rodeia... E, como se costumava dizer lá nos “antigamentes”, já são horas... Vamos, pois, aos primeiros afazeres de um dia que vai ser cheio.
Bom dia, Dia!!!

Dulce Costa
No chuvoso amanhecer do dia nove de março do ano de dois mil e nove.

6 comentários:

tinta permanente disse...

Um bem articulado retrato de um dia que se espreguiça pelos gestos, pelas gentes, pelas coisas, cheiros, cores e luz...

abraços!

Lourdes disse...

Pois é, Dulce, as casas das avós são cheias de objectos que os mais novos não entendem para que servem. Mas,cada peça tem um signficado, representa uma estória que só nós entendemos.
Meus filhos acham que tenho coisas a mais, mas um dia certamente lhes vai acontecer o mesmo. Ainda são novos e ainda têm poucas recordações para coleccionar...
Beijos,

Dulce disse...

Lourdes
É só dar tempo ao tempo e eles vão nos dar razão... risos... Vão entender que cada quinquilharia, cada bibelozinho sabe contar uma história, guarda um pedacinho de nossas vidas.
Beijos

Dulce disse...

Tinta Permanente,

Obrigada! São exatamente assim os nossos dias...
Um abraço

FERNANDA & POEMAS disse...

QUERIDA DULCE MARAVILHOSAS ESTAS CRÓNICAS COMEÇADAS LOGO DE MANHÃ... ADORO LER-TE AMIGA... UM GRANDE ABRAÇO DE CARINHO E TERNURA,
FERNANDINHA

Dulce disse...

Ah, Fernandinha, muito obrigada.
Fico muito feliz em te-la por aqui.
Beijos