floquinhos

sexta-feira, 13 de março de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (2)


(José Antonio Castillo, um grande amigo de Guadalaja, Me, presenteou-me com esta linda aquarela, especialmente feita para a capa do meu livro. Ao fundo, o casarão aonde nasci e em primeiro plano lá estou eu, aos dez anos
)

Encontro com a menina que eu fui...

Passando, por acaso, pela Av. Rangel Pestana, num dia desses, não pude deixar de me entristecer com o abandono e o ar de decadência em que a mergulharam. Outrora avenida principal do bairro, centro comercial e de referência, não é nem sombra do que foi. No entanto, ali estavam, imutáveis, dois marcos de minha vida: o antigo “Grupo Escolar Romão Puiggari” e a Igreja Matriz do Braz, frente a frente, desafiando o tempo e os homens...
Da escola onde aprendi as primeiras letras, as lembranças de uma menininha tímida e desajeitada que aos poucos foi despertando para o saber, da garotinha que ficou tão encantada com a primeira professora, D. Adelaide - uma senhorinha de cabelos grisalhos, óculos de aros redondos e dourados a emoldurarem expressivos olhos, voz doce mas muito firme, a impor respeito - mas tão encantada, a ponto de sonhar ser um dia professorinha também, sonho que a vida se encarregou de apagar, que o tempo transmutou em outros sonhos, nem todos realizáveis.
Revejo a menininha vestida num avental branco, de mangas longas, amarrado às costas por um largo laço, cabelos trançados e presos por laçarotes brancos de organdi, meias brancas e sapatos pretos, carregando numa das mãos a pequena mala escolar onde levava seus primeiros tesouros, seus cadernos, seus lápis e sua cartilha, e na outra mão uma pequena lancheira onde, embrulhado em alvo guardanapo, carregava um simples pedaço de pão com manteiga, já que os tempos eram difíceis. Subo com ela as escadas, atravesso pequenos corredores, chego ao pátio onde as crianças se perfilam, duas a duas, mãozinhas dadas e, à ordem da professora, seguem para suas classes. Deixo-as entregues aos seus aprendizados e saio em busca de novas lembranças.
Atravesso a avenida e vejo-me defronte à Matriz do Brás, igreja onde exerci minha fé, fui crismada, fiz minha primeira comunhão, onde me casei... E ali está a menininha de novo! Desta vez sobe as escadas em grupo com outras crianças, em busca dos preparatórios para a primeira comunhão. Cumpre o aprendizado da evangelização. Avanço uns dias no tempo e vejo-a já, em seu quarto de dormir, pronta para aquela que seria a primeira das muitas alegrias de sua vida. Está vestida de branco, longo vestido de seda, carinhosamente feito por sua tia Alice, que mais tarde faria também seu sonhado vestido de noiva, um longo véu em tule branco, preso a uma delicada guirlanda de flores que lhe cinge a testa, nas mãos um pequeno missário e um terço branco a entrelaçar-lhe os dedos. Tão orgulhosa quanto ela, seguimos em companhia de seus pais até a igreja e vejo seus olhinhos brilharem quando, caminhando pela Rua Piratininga, cruza com alguma pessoa que ao passar faz um comentário sobre a beleza da roupa: “parece uma noivinha”!... Renovo a emoção dos cânticos, dos rituais, da comunhão... Acompanho-a até o modesto estúdio de um fotógrafo do bairro, poso ao lado dela para uma foto...
Deixo que se vá para o almoço em família, permaneço na porta da igreja, para ver entrar, alguns anos depois, uma linda noiva, em seu vestido de cetim rebordado em seda, justo, emoldurando seu corpo esbelto, carregando nas mãos um buquê formado por lindos botões de rosa, um pequeno casquetinho a enfeitar-lhe os negros cabelos, ocultos, em parte, por um véu muito branco... Entra na nave da igreja pelo braço de seu padrinho de casamento, olhos úmidos, cheios de sonho e de esperança, colocados sobre a figura alta e morena do homem que a espera ao altar. Caminho a seu lado, passo a passo, sinto o estremecimento ao toque da mão dele ao amparar a dela, o som da Marcha Nupcial ecoando pela nave, toda a emoção de um momento que define o início de uma nova fase de sua vida, a formação de uma família linda, a vinda de filhos maravilhosos e de netos muito amados...
Quarenta anos depois, a mesma sensação preenchia meus sentidos, transbordava de emoção meu coração, renovava o sentido que dera à minha vida... Encaminhei-me ao altar principal e de joelhos, entre lágrimas, agradeci a Deus por toda uma vida de bons e maus momentos, de alegrias e tristezas, de risos e lágrimas, de erros e acertos, de sonhos e desesperanças, porque assim é formada e assim deve ser vivida uma vida.
Foi esse encontro com a menininha que eu fui que fez nascer em mim o desejo de mostrar aos que não tiveram o privilégio de viver aquela época, alguns fragmentos de uma vida despreocupada e feliz, num velho casarão, no Brás... Juntos poderemos palmilhar os doces caminhos de minha infância e de minha adolescência e, através do tempo e do espaço, redescobrir emoções, reviver momentos...

(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")

8 comentários:

heli disse...

Que lindo Dulce!
Você consegue passar uma energia muito grande através das palavras.
Ao contrário de você, meu sonho não era ser professora e acabei sendo e amo muito a minha profissão.
Dias atrás meu médico disse que é muito rica a experiência de voltar a casa "antiga" pois contei-lhe que estava a sonhar com a casa onde nasci.Infelizmente a casa onde passei meus primeiros anos de vida não existe mais, mas cheguei as lágrimas aqui em frente ao computador ao ler seu post.
Obrigada por estar partilhando conosco de experiências tão ricas e tão bonitas!

Dulce disse...

Heli, obrigada por suas palavras. Fiquei comovida com seu comentário. Obrigada, mesmo.
beijos

Ana Martins disse...

Querida amiga Dulce,
uma infãncia linda, uma Mulher bem formada, uma noiva feliz, uma Mãe carinhosa e uma avó babada... Foi tudo o que vi numa tão bonita e sensivel crónica!

Parabéns!!!

Beijinhos,
Ana Martins

Dulce disse...

Ana,
Em poucas palavras, é exatamente isso... rs...

Obrigada.

Beijinhos

Lourdes disse...

Adorei conhecer esta menina que a Dulce foi.
São muito bons estes momentos de nostalgia quando o passado foi tão bonito.
Espero pelo próximo post.
Beijos

Dulce disse...

Lourdes,
são doces lembranças, sim. Obrigada.
Fico feliz com a acolhida dessas pequenas crônicas e isso me incentiva sim a continuar trazendo outras.
Beijos

ney disse...

Tem razão a Heli, são histórias bonitas que nos sensibilizam e nos fazem lembrar de muitos bons momentos. Uma infância cercada de muito de amor. Já tive a oportunidade de ler o livro da Dulce, e ele é todo muito lindo e cheio de vida. ney//

Dulce disse...

Obrigada, Ney
Fico feliz em poder transmitir alguma coisa boa a quem lê as crônicas de minha infância, e amigos como o Ney sempre incentivam, sempre tem uma palavra gentil. Obrigada.
Beijos