floquinhos

sexta-feira, 27 de março de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (15)


O CARIOCA


Algumas pessoas tornam-se inesquecíveis, às vezes, por um gesto, uma atitude ou simplesmente por algumas palavras colocadas num momento preciso. Pessoas que por vezes eram olhadas com desprezo ou mesmo indiferença passam a serem vistas, então, por um outro prisma.
Tenho, no baú das minhas memórias, personagens as mais variadas, indo do triste ao histriônico, aí incluídos os briguentos e os conciliadores, os honestos e os pilantras, os amigos e os falsos amigos, enfim, toda uma galeria de tipos os mais variados. Afinal, são tantos anos de janela... Tantos ficaram esquecidos, mas o Carioca sempre volta à minha lembrança.
Nunca cheguei a saber seu nome. Nem saberia de onde veio, não fosse o apelido que o acompanhou para sempre: Carioca. E sua figura ressurge por entre a névoa formada pelo tempo como um homem de estatura mediana, pele morena, cabelos crespos, grisalhos, fino bigode bem ao gosto dos anos 50, voz rouca e sorriso fácil. Trabalhava nas feiras como empregado de uma barraca de frutas e vivia pelos arredores, em um pequeno quarto alugado, num dos muitos cortiços que havia no Brás de antigamente.
Quando sóbrio, era uma pessoa tímida, mas era tão difícil vê-lo sóbrio!... Quando voltava da feira já parava no bar da esquina e “abastecia” sua personalidade com a extroversão conseguida em cada copo de cachaça. E, lá pelas 4 da tarde já estava um outro homem, falante, alegre, chegando às raias da inconveniência. E ele que tinha o maior respeito pelas jovens do bairro, transformava-se então num galanteador atrevido, porém nunca desrespeitoso. As moças, por aquela época, tinham por hábito sentarem- se à soleira das portas das casas para, entre amigas, trocarem confidências e quando percebiam a presença do Carioca, já se preparavam para as declarações de amor que certamente viriam e, mal ele começava a desfiar seu rosário de paixões, levava um solene “ô Carioca, você não se enxerga, não? Vai amolar o outro!...” ao que ele respondia sempre com um “Tu despedaças meu coração, brotinho... faz isso não!...” e lá se ia em busca de novo objeto de paixão... Lembro-me dele também, tentando nadar nas poças d’água formadas pelas chuvas de verão, e era tão prazeroso seu gesto que tínhamos a impressão de que, para ele, estava naquele momento dando largas braçadas no mar de sua Copacabana...
Uma de minhas melhores amigas era também minha vizinha. A mãe dela fora acometida por um derrame cerebral e acabou falecendo. Os velórios de então aconteciam nas próprias casas. A sala principal era preparada para que o corpo fosse velado. As janelas eram recobertas com panos negros, as cadeiras colocadas junto às paredes e o caixão colocado sobre a mesa, no centro, com as velas acesas, o crucifixo, formando um ambiente realmente muito deprimente, enquanto na cozinha rolava o cafezinho e a cachaça para esquentar a noite. E, naquele clima de tristeza estávamos todos tentando dar à família um pouco de conforto quando o Carioca entrou na sala. O mal estar foi geral porque se percebia claramente que ele já não estava sóbrio. Chegou-se para perto do caixão, persignou-se, fez uma oração em voz baixa e começou a falar, entre lágrimas, da dor que lhe ia n’alma naquele momento. Chorava a dor dos filhos que, tão cedo haviam ficado sem a mãe tão querida, mas pedia a eles que, em sua dor, entendesse que tiveram um presente lindo de Deus na presença até aquele dia da mãe que então partia. Que imaginassem como teria sido pior se, como ele, crescessem nas ruas, ao Deus dará, se como ele nem mesmo soubessem quem fora sua mãe, se como ele nunca tivessem tido o afago, o beijo de boa noite, o colo aconchegante... E foi por ai afora, com tanto sentimento, com tanta dor no olhar que quando percebemos, estávamos todos chorando, junto com ele. E naquele momento, não pranteávamos nossa vizinha, nem os filhos pranteavam sua mãe. Chorávamos todos por aquele homem que tão pouco conhecíamos, por aquela criatura de Deus que a vida jogara ao léu, que crescera sem eira nem beira e, mesmo assim, nunca deixara de ter dentro de si uma imensidão de amor. E naquele momento o Carioca passou a ser visto com outros olhos. Deixou de ser olhado como o bêbado da rua. Tornou-se um de nós.

Do livro "Encontro com a menina que eu fui"


2 comentários:

Lourdes disse...

Em todos os locais do mundo aparecem "Cariocas". Muitas vezes não parece, mas também têm sentimentos. E, quantos deles procuram no álcool o esquecimento para as suas frustrações.
São momentos como este que nos fazem despertar para a realidade nua e crua que estas pessoas enfrentam e que, muitas vezes, há razões que explicam seus comportamentos.
Beijos

Dulce disse...

É verdade, Lourdes.
E foi exatamente dessa constatação que nasceu essa pequena história, como um tardio reconhecimento à pessoa sensível que se escondia por trás do homem irrevente.
Beijos