floquinhos

quarta-feira, 25 de março de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (12)


NESTA RUA, NESTA RUA, TEM UM BOSQUE...


"Nesta rua, nesta rua tem um bosque,
Que se chama, que se chama Solidão.
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração..."

Cantigas de roda, doces cantigas que fazem parte da infância de todos nós, geração após geração. Cantigas que aprendi com minha mãe, ensinei a meus filhos e ouço-as agora, comovida, nas vozinhas doces de meus netos...Cantigas que abrem meu baú de recordações e que me trazem de volta tantas pequenas amigas que o tempo levou consigo, tantos momentos, tantos risos, tantas lágrimas...
Brincávamos soltas pela calçada de nossa rua, íamos juntas à escola, ao catecismo, às matinês do Cine Ideal. Duas em especial foram quase irmãs. Uma já é saudade, só saudade, partiu num raio de luz, ainda tão cheia de sonhos e de planos, começando apenas a viver a maturidade, essa fase tão bonita da vida de uma mulher... A outra, perdemo-nos nas atribulações da vida, no dia a dia de cada uma, nos caminhos diversos e distantes que trilhamos. Mas tenho-as sempre em minhas lembranças. Das brincadeiras de roda, de pular corda, jogar amarelinha quando crianças, até os doces primeiros anos da nossa juventude, nossas deliciosas tardes de domingo jogando peteca, ouvindo música, trocando as primeiras confidências, estávamos sempre juntas.
Minha mãe nunca foi de bater em filho, mas lembro-me muito bem, e ainda chego a sentir o ardor em minha perna, do dia em que, talvez nervosa por problemas maiores, irritada, ou mesmo apenas e simplesmente cansada das artes das crianças, ela exerceu seu direito de mãe e aplicou-me o que ela considerou ser um corretivo justo, mas eu considerei uma grande injustiça. Era uma tarde ensolarada, estávamos em férias escolares e, como sempre, brincávamos em frente à porta de entrada da casa. Naquele tempo cozinhava-se em fogões a carvão e nós, crianças, costumávamos usar pedaços desse carvão para desenhar ou escrever na calçada, além de marcar o jogo de amarelinha ou o de caracol. Brincáramos de todos eles e estando já um tanto cansadas resolvemos sentar no chão e simplesmente desenhar. Comecei desenhando uma casinha, um sol, e não me dei conta do que minha amiga desenhava quando ela chamou minha atenção para o que fizera. Mesmo através da névoa do tempo, ainda vejo aquele monstrengo desenhado na calçada e ouço a voz dela, em caçoada, dizendo: “é você, é você... olha a cabeça, cheia de piolhos... é você!” Ah, que raiva! O monstrengo, eu até aceitava, mas os piolhos? Os piolhos não! Levantei-me como uma pequena fera e, agarrando-a pelos cabelos, joguei-a ao chão e fugi para casa, subindo as escadas correndo e ouvindo os gritos dela, chamando pela minha mãe e dizendo: ”Dona Inês, eu não fiz nada, nem xinguei nem nada e a Dulce puxou meu cabelo...“ Tomada pelo susto, escondi-me debaixo da mesa, achando que estava protegida lá, só que minha mãe veio em seguida, ergueu a tolha e aplicou-me um solene tapa na perna. As marcas de seus dedos ficaram marcadas em minha coxa. Chorava de raiva e de dor, principalmente porque ouvia os gritos que vinham da rua: “bem feito!... bem feito!... apanhou... quem mandou puxar meu cabelo?...” Depois desse episódio ficamos três ou quatro dias sem nos falarmos, mas nossa amizade era maior que nossa raiva... Logo estávamos de novo brincando juntas nas calçadas de nossa rua. Hoje ela é saudade.
Já de minha outra amiga, a lembrança é de um Carnaval. Éramos todos pertencentes a famílias pobres, que lutavam para viver com dignidade e que tinham prioridades com relação a gastos e as fantasias de Carnaval, certamente, não era uma delas. Mesmo porque nunca íamos a bailes nem a clubes. Apenas ficávamos nas calçadas, caracterizados com pintura no rosto, confetes e serpentina nas mãos, brincando e admirando as fantasias que passassem pela rua, a caminho dos bailes ou em franca exibição. Mas minha amiga tinha uma irmã que, estando muito bem financeiramente, satisfazia seus gostos sempre e a menina vinha fazendo segredo do traje que usaria. Segredo trancado a sete chaves. Lá pelas 4 da tarde do domingo de Carnaval, estávamos todos esperando e imaginando o que sairia por aquela porta: uma cigana? Uma baiana? Ou seria uma odalisca – ah, uma odalisca seria o máximo!... Eis que a porta se abre e quem sai primeiro é a orgulhosa mãe para em seguida surgir impávida, cabeça erguida, um brilho de triunfo no olhar e um sorriso a iluminar seu rosto fino, uma fantástica Maria Antonieta, toda em rosa, um deslumbre! E a acompanha-la, numa réplica em verde, sua sobrinha... Fiquei mudinha! Nunca vira roupa mais bonita... Não conseguia despregar o olho... Quando percebeu meu espanto, ela veio até mim e sorrindo, num tom entre brincadeira e afetação, falou: “fecha a boca, boboca... parece que nunca viu uma fantasia... caipira é assim mesmo... Ufa!... vou me sentar, estou cansada...” Virando-se, foi sentar-se sobre um banco que a mãe colocara na calçada, com uma dignidade própria de rainha, como se estivesse sentando no trono de França... E eu ali, me imaginando súdita de Sua Majestade... Vieram outros carnavais, outras fantasias, mas nenhuma superou Maria Antonieta em meu coração de criança. Muitos e muitos anos mais tarde, ao andar pela Galeria dos Cristais em Versalhes, tinha a impressão que, se olhasse mais atentamente, veria aquela figurinha toda em rosa volteando ao som de um minueto...
Saudades, amigas... Tantas...

(Do livro: "Encontro com a menina que eu fui")


8 comentários:

Osvaldo disse...

Oi, Dulce;

"Se este rua, esta rua, fosse minha;
Mandaria, mandaria, lhe buscar,
Mandaria botar pedras de Cistal,
Para quando, quando o meu amor passar..."

"Pai Francisco entrou na Roda,
Tocando seu violão, tarara tam tam,
Olhe aqui seu Delegado,
Que Pai Francisco, foi pra prisão.

Mas como é que ele vai,
Todo requebrado,
Parece um boneco,
Desengonçado..."

E tantas que poderiamos aqui cantar, não é Dulce ?...

Obrigado Dulce por nos reavivar memórias longinquas da felicidade de ser criança, quando tinhamos uma rua "que era nossa".

bjs
Osvaldo

Daniel Costa disse...

Dulce

Quando se viajou já bastante no tempo, vão ficando memórias. Quando são belas, quando as sabemos recordar e transmitir, a vida terá valido a pena.
Exemplaridade, deve ficar expressa para futuras gerações, que nos procederão.
Talvez, venham a admirar o nosso viver, talvez!...

Daniel

Dulce disse...

Osvaldo,
Sou eu quem agradece, por suas palavras, pelas canções da infância, pela presença. Obrigada.
bjs.

Dulce disse...

Daniel
É bem isso que espero. Que os descendentes conheçam suas raizes, que saibam de onde vieram e entendam que, se estão hoje num patamar melhor é porque os que os precederam aplainaram seus caminhos.
Não sei se admirarão, mas espero que compreendam.
Bjs.

aninejf disse...

Bom dia Dulce, O Projeto que faço é estudar literatura e português em cima do LivRO Pelas Ruas das Cidade, como fiz a capa do livro a autora me concedeu uma quatidade legal para trabalhar com os alunos... Eles estão gostando, e assim são tb "obrigados" a lerem.... Beijos ANINE Eu trabalho com uma diversidade muito grande de textos com os meninos...

Dulce disse...

Anine
Sem duvida um lindo trabalho esse de levar os meninos à leitura.
Beijos

tatoia disse...

Abro o seu blog todos os dias e apetece-me ler... apetece-me descansar a alma nestes contos doces... mas depois olho pro tamanho do post e pro tamanho do trabalho que tenho p fazer e la deixo o blog aberto por ler... mais daqui a bocadinho, mais daqui a bocadinho... a acabo sempre por o fechar ao final do dia sem o ter lido... ai ai.... ai.

abraco

Dulce disse...

Tatoia
Como dizem que o que vale é a intenção, e há sempre a intenção da leitura...
Obrigada pela visita e pela intenção de ler meus escritos... risos...
Continue visitando o blog, onde sempre será bem-vinda.

abraço