floquinhos

quinta-feira, 19 de março de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (7)


SOB TRES BANDEIRAS

Ao receber um e-mail de minha prima, Rosa Maria, que mora na bela Porto Alegre desde o seu casamento, não pude conter minha emoção. Dona de maravilhosa força de expressão, falava sobre o privilégio de termos nascido sob três bandeiras européias representadas naquele velho casarão por meus pais e meus tios, que eram portugueses, a mãe dela, que chamávamos a Tia Cachelo - seu nome de solteira – que era filha de italianos e a Tia Canales – também nome de solteira, que era filha de espanhóis. Nós as chamávamos pelos nomes de solteiras para diferenciar uma Maria da outra, como bem poderiam ser chamadas, ao modo do nordeste, de Maria do Antonio e Maria do João. O fato é que assim eram conhecidas na família. Com relação aos vizinhos, a diferença era mencionada pela nacionalidade. Quando se referiam às mulheres daquela casa diziam sempre: a portuguesa, a espanhola ou a italiana, embora só minha mãe tivesse nascido fora do Brasil.
Lembro-me que quando minha mãe precisava renovar seu estoque de carvão para o fogão, mandava-me até a carvoaria do Seu Francisco, na Rua Caetano Pinto, ele também um espanhol, sempre coberto pelo pó do carvão que vendia, e de tal maneira encarvoeirado andava que de seu rosto só se via o branco dos olhos. Ao chegar, o diálogo era sempre o mesmo:

- Seu Francisco, minha mãe pediu pro senhor levar um saco de carvão na Rua Campos Salles, número 100.
- É pra espanhola, pra portuguesa ou pra italiana?
- Pra portuguesa.
- Em meia hora tô lá.

E estava mesmo. Meia hora depois, lá vinha ele lá do começo da rua empurrando sua carrocinha cheia de sacos de carvão. Parava à frente de nossa casa que, como quase todas as outras mantinha as portas da rua abertas durante o dia todo, batia palmas estrondosamente e gritava para ser ouvido lá do alto da escada:

- Carvoeiiiiiiiirooooo... Oi o carvão pra portugueeeeeesa...

Mas todo o Brás era assim, um cadinho de raças que se iam mesclando umas com as outras, misturando culturas, forjando pessoas maravilhosas em sua simplicidade, em seu modo peculiar de ser, de falar, pessoas que vistas hoje, através do tempo, revelam uma face muito mais bonita, muito mais poética. Era um “povo” barulhento, alegre, extrovertido, que enchia as ruas de vozes logo ao amanhecer, com seu modo cantado de falar, com os pregões dos vendedores, com o alarido das crianças que corriam soltas pelas ruas. Eram visinhos que se conheciam desde sempre e que se consideravam quase parentes, que se respeitavam e se socorriam mutuamente, mas que também, muito de vez em sempre, aprontavam a maior discussão por qualquer “me dá cá aquela palha”...
Eram as brigas de comadres, como se costumava dizer. Parecia que o mundo ia acabar, tal era a fúria e os esganiçados gritos que se espalhavam pelos céus do velho bairro. Mas, como tempestade de verão, passado o calor do momento, voltava a reinar a paz na terra, até a próxima “batalha”, para alegria das outras comadres que tinham motivos para conversa por uns bons pares de dias. As mais facilmente esquecidas eram justamente as mais estrondosas, as travadas entre os italianos, gente de sentimentos fortes, temperamento explosivo, coração ardente em suas paixões, boas ou más, pareciam querer matarem-se uns aos outros e só não se engalfinhavam de fato porque eram contidos pelos outros visinhos que quanto mais tentavam jogar água na fervura, mais viam o vapor subir até que, exaustos, recolhiam-se às suas casas, ainda voltando-se para trás e xingando, ameaçando voltar e recomeçar tudo outra vez. Os mais discretos? A família de japoneses, os donos do armazém que ficava em frente à minha casa. Mas ainda assim, e talvez por morarem no Brás, aonde todos iam assimilando tudo, até eles, de vez em quando, tinham uma ligeira altercação!

Dessa mistura de culturas resultou em mim uma diversidade de gostos maravilhosa, na música, na culinária, na própria forma de encarar a vida, de enxergar o mundo. Tentei assimilar de cada um deles aquilo que sua gente tinha de melhor e o que ficou em mim foi uma sensação de amor à vida, de respeito ao próximo, de solidariedade e uma grande, uma imensa tendência à compreensão da alma humana, com suas fraquezas e suas forças, seus anseios e suas desesperanças, seus devaneios, suas iras, seus amores, seu orgulho, enfim, com tudo aquilo que faz de cada um de nós um ser único neste mundo de Deus.

(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")

10 comentários:

Lourdes disse...

É verdade Dulce. A falta que faz às crianças de hoje conviverem, desde pequenos, com essa diversidade de culturas. Hoje vivem apenas a realidade dum colégio ou de suas casas onde passam os dias fechados. Já não é possível às crianças de hoje brincarem livremente na rua, muito menos ter a porta aberta...
Beijos

Dulce disse...

Lourdes,
Outros tempos, outras formas de se educar... Melhor? Pior? A resposta só o tempo dirá... Mas é inegável que fomos crianças felizes.
beijos

FERNANDA & POEMAS disse...

QUERIDA DULCE, BELÍSSIMA CRÓNICA ADOREI AMIGA... UM GRANDE ABRAÇO DE AMIZADE,
FERNANDINHA

tatoia disse...

:) Eu acredito que o mundo é como a moda, esta sempre a girar e a voltar ao inicio - talvez nao com a velocidade que nos leve a aperceber tao bem como a moda, que gira tao depressa, tao depressa, e o que era moda volta a ser em poucos anos...

... mas os habitos do homem, a forma de ser, tb gira... e devagarinho volta-se a descobrir o interesse e valor que afinal nunca foi perdido, dentro de nós... e as criancas nao sao mais do que fruto de nós mesmos que as educamos... o que lhes falta a elas é pq nos falta a nós...

... e gira, gira, até ao tempo em que voltaremos a dar valor á natureza, á convivencia, á mistura :)

abraco

Dulce disse...

Fernanda,
Obrigada, amiga. E um grande abraço para você também.

Dulce disse...

Tatoia
Obrigada pela visita e pelo comentário.
Concordo com você quando diz que as crianças são reflexos da educação que lhes demos. E concordo também quanto ao girar do mundo para voltar mais cedo ou mais tarde ao mesmo lugar. Assim como a História se repete, e a moda também, talvez os usos e costumes voltem parcialmente, mas acho que por enquanto, as coisas caminham de forma bem contrária. Gostaria muito de ver meus netos correndo soltos pelas ruas em brincadeiras lúdicas, mas ...
beijos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Hoje em dia preferem ficar encerrados num quarto jogando a Playstation e tornando-se cada vez mais obesos. Quando se tornam adultos estão... adulterados!

Dulce disse...

Carlos,
Uma definição perfeita!
Completamente adulterados... rs

tatoia disse...

Que definicao interessante, de facto! (estranha tb ..lol, ainda estou a tentar encaixa-la correctamente na minha cabeca)

Abraco

Dulce disse...

É só um jogo de palavras, bem colocadas, por sinal, para definir o o que o modo de ser das crianças de hoje pode ocasionar em seus futuros.