floquinhos

domingo, 29 de março de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (17)


UM IRMAO QUE E SAUDADE...


A madrugada daquele 31 de julho estava fria mas, mesmo assim, fui tirada da cama e levada, tiritante, para a cozinha, lá nos fundos do velho casarão, onde me foi servido um chocolate bem quentinho acompanhado de pão com manteiga. Minhas tias, em alvoroço, iam e vinham pelos corredores da casa numa azáfama que eu não entendia, em meus verdes 10 anos de vida.
Meu pai, nervoso, pôs o chapéu na cabeça e saiu para voltar uma meia hora depois, acompanhado por uma senhora gorducha e sorridente, que carregava uma sacola nas mãos onde supus estivesse trazendo meu irmãozinho. Dona Dolores era a parteira que já me ajudara a chegar a este nosso mundo e que agora viria cumprir sua doce missão mais uma vez. Eram tempos em que as crianças ainda acreditavam que os bebes viessem em bicos de cegonha - mas cegonha, no Brasil? Pois é! Para o imaginário infantil tudo é possível e as tradições vieram com os europeus e aqui ficaram arraigadas entre nós - e como eu não conseguisse ver nenhuma ave sobrevoando os céus paulistanos naquela manhã, só pude supor que meu irmão fora amparado pela parteira, em vôo rasante da cegonha, e trazido, dentro da sacola para os braços de minha mãe.
A alegria estampada no rosto de meu pai, os abraços, os parabéns, uma festa que se estendeu por vários dias em comemorações regadas a bebida e que se estenderiam por mais outros tantos dias para festejar o nascimento da Rosa Maria, filha do Tio Antônio. Assim, em uma semana, dois novos seres vieram alegrar ainda mais aquela casa já tão cheia de risos e de música.
Com o passar dos anos, aquele garotinho muito lindo foi se mostrando uma personalidade introvertida, mas viveu seus anos de infância como todos nós, solto, alegre, entre as velhas ruas do Brás, jogando bola, brincando de mocinho e bandido, correndo atrás de balões, empinando pipas, freqüentando as matinês do Cine Ideal... Ao chegar aos dezoito anos, teve seu primeiro emprego, ganhou seu primeiro carro e descobriu sua primeira e única paixão, Maricy, já naquele tempo uma graça de menina, prenunciando a linda mulher que seria (e que ainda é).
Casaram-se alguns anos depois, tiveram três lindos filhos, foram felizes por uns tempos, mas como costuma acontecer, a vida foi preparando peças e armadilhas que ele, na sua timidez, não sabia desmanchar e, encontrando no álcool uma falsa segurança, um falsa extroversão, foi se deixando levar, afundando seus sonhos e suas aspirações nesse caminho sem volta que se faz imperceptivelmente e que quase nunca permite a quem o percorre uma volta honrosa. Quando se deu conta do que fizera a si mesmo, já era tarde demais. Não vou, aqui, buscar motivos ou razões, mesmo porque não me sinto suficientemente capaz para julgar os erros ou os acertos de quem quer que seja. Nem vou procurar as raízes de tudo isso, não vale a pena, não o traria de volta mesmo... Era um homem maravilhoso, um ser humano muito raro e quando partiu, deixou atrás de si um rastro imenso de saudades... Deixou uma legião de amigos... Deixou um enorme vazio em minha vida, já que o queria mais do que a um irmão... eu o queria como a um filho.
Tive o privilégio de tê-lo como irmão, alegrei-me com o seu nascimento, segui muito de perto toda a trajetória de sua vida, acompanhei-o até sua última morada com o coração em frangalhos, com a alma dilacerada pela dor, tentando dar forças à minha pobre mãe que por segunda vez chorava a perda de um filho.
Nem só de alegrias são feitas as minhas lembranças... nem só de doces momentos está preenchido meu baú de memórias...

Do livro: "Encontro com a menina que eu fui".



6 comentários:

Osvaldo disse...

Oi, Dulce;

Como estive ausente em viagem de trabalho, só agora pude ler este tema e como sei a dor horrenda que isso comporta porque a vivi,... só lhe deixo o meu abraço solidário.

Continu-o a ler o seu livro e quando estou ausente vou procurar os capítulos perdidos nos post's anteriores.

bjs.
Osvaldo

Dulce disse...

Osvaldo, obrigada.
Sabemos, pois, que o tempo ameniza a dor, mas a saudade permanece.
bjs.

ney disse...

Uma crônica de momentos alegres e tristes, de amor e saudades, de vida, sensíbilidade, e que também nos faz lembrar do nosso caminhar, de muitas identidades do tempo, de uma geração que passou por muitas mudanças econômicas e sociais. Acho que vivemos nesses últimos 60/70 anos transformações tão grandes e rápidas, que correspondem a séculos do caminhar da humanidade. Demos saltos para o futuro, mas soubemos vivenciar todas as etapas, e suas crônicas dizem bem desse sonhar e viver, superar todas as realidades com amor e atitudes, sem perder o encanto pela vida. ney///

heli disse...

Dulce.
Seu relato me levou as lágrimas mais uma vez. Assim como você viu seu irmão viver sua trajetória interrompida fora de seu curso natural, também tive um irmão que eu amava como a um filho e acabou se suicidando por conta do álcool. Ele era o caçula da casa!
Como dói essa perda, é um sentimento forte, doloroso demais.
Fica sim, uma saudade enorme com o passar do tempo...
bjs

Dulce disse...

Ney
Sabemos bem que a vida em si é contituida de momentos, alegres ou tristes, trágicos ou cômicos, as vezes, e que devemos aprender a superar para continuar vivendo da melhor maneira possivel. Nem sempre é fácil, mas é preciso que assim seja feito. E o encanto pela vida deve ser preservado sempre, para que ela não se torne amarga, triste, inútil, insuportável... Acho que nisso concordamos, não?
bjs.

Dulce disse...

Heli,
São momentos tão difíceis que até chegamos a pensar que não vamos superar, mas temos que seguir em frente, sem perder o rumo, e assim foi feito, não e mesmo? Eles partiram mas continuam vivos e amados para nós e por nós.
Obrigada, Helli.
beijos