floquinhos

sábado, 14 de março de 2009

CRONICAS DE MINHA INFANCIA (3)


(Adoro esta foto! Ela é uma preciosidade. Tirada em 1929, aí estão meus avós (sentados, ao centro), minha bisavó paterna, tios, dois primos [as crianças pequenas]. Meu pai, aos 23 anos, no centro, em uniforme da Guarda Civil, tem a sua esquerda os irmãos e a direita seus tios.)

OS GONÇALVES

Quando aquela família resolveu trocar as belezas da Ilha da Madeira pelas belezas do Brasil, vinha motivada pela falsa idéia do enriquecimento fácil em terras do além mar. E aquele homem que vivia dias apertados, é verdade, mas dias felizes, sequer poderia imaginar o que teria que enfrentar, tudo o que teria que passar, o quanto teria que trabalhar, mal acostumado ao serviço mais duro, para poder sobreviver com dignidade.
Manuel Gonçalves e Rosa de Vellosa Gonçalves, chegaram com 6 de seus filhos (mais dois nasceriam em terras brasileiras) ao Porto de Santos em 1911 e de lá seguiram a trilha obrigatória à todos os imigrantes. Tomaram um trem que, subindo a Serra do Mar, trouxe-os até a Estação do Brás (atual Presidente Roosevelt) e de lá foram encaminhados para a Hospedaria dos Imigrantes, onde ficaram até serem contratados por um fazendeiro de café da região de Campinas.
Durante muitos anos enfrentaram a dura lida do trabalho no campo, trabalho que era obrigatório aos homens da família, incluindo os filhos pequenos, enquanto que às mulheres ficaram delegados os cuidados com a casa – nessas fazendas, cada família de colono, como era chamado o imigrante, tinha direito a uma casa para morar. E além dos cuidados com a família e com a casa, D. Rosa ainda costurava para fora, fazendo inclusive roupas para homens, o que sempre rendia um dinheirinho extra, uma ajuda muito bem vinda.
Com o passar do tempo e vendo que apesar de trabalhar de sol a sol, não havia perspectiva de melhora, resolveram tentar a sorte em São Paulo. Afinal, quase todos os filhos já estavam em idade de trabalho e, com tantas fábricas, seria fácil arrumar colocações por aqui. Ledo engano! Se a vida era difícil por lá, pelo menos tinham a casa para morar e uma alimentação saudável e farta, pois o patrão sempre lhes permitira cultivar um pedacinho de terra e criar alguns animais para a alimentação da família, enquanto que na cidade grande tudo teria que ser pago e o mercado de trabalho, para pessoas sem qualificação, era quase nulo.

O filho mais velho, Manuel, resolvera ficar na fazenda, afinal, era o administrador. Já estava até casado! Os outros dois, junto com o pai, começaram uma peregrinação em busca de trabalho, resultando na colocação como ajudante de garçom para o pai e, enquanto José passava a ser condutor de bonde, João ia ser ajudante de serviço numa pequena fábrica de parafusos, na região do Mercado, onde trabalharia até a aposentadoria, galgando postos mercê sua dedicação e sua disposição para o trabalho. Posteriormente, José encontraria sua vocação nas fileiras da Guarda Civil, uma corporação que sempre teve o respeito da população e que foi sempre motivo de orgulho para aquele homem íntegro, correto, leal. Antônio era ainda um menino mas encontraria nas artes gráficas sua carreira, seu futuro.

As mulheres da família seguiram o destino de todas as mulheres daquela época. Casaram-se e dedicaram-se à criação dos filhos, com exceção de Maria, uma linda mulher que, aos 30 anos, morreu vitimada pela tuberculose, num sanatório de Campos do Jordão.
Um dia, lá pelos idos de 1932, José resolveu voltar à Campinas para rever parentes e amigos e deu com os olhos nos verdes olhos de Inês. Seus longos cabelos pretos, sua pele clara, seus traços bem feitos, harmoniosos, não mais lhe saíram da cabeça... Vê-la e amá-la foi uma fração de segundos. Mas o pai dela, o trasmontano Vinhas, não gostava muito da gente da Madeira. Eram alegres demais, barulhentos demais para seu gosto. Não fazia gosto naquele namoro. Mas José insistiu e como Inês já fosse maior de idade, melhor seria concordar, mas nada de namoros. Casamento marcado com tempo apenas para os preparativos da festa e a confecção do vestido da noiva. Casamento que gerou três filhos e que terminou 53 anos depois, com a morte física dele e com a morte d’alma dela, que nunca mais sentiu gosto pela vida.

(Do livro "Encontro com a menina que eu fui")

4 comentários:

Lourdes disse...

Afinal nossas histórias são parecidas. A diferença é os meus antepassados não terem saído do país. No entanto migraram para Lisboa e, também eles "comeram o pão que o diabo amassou" para conseguirem ser alguém na vida.
Daí grande parte da minha admiração pelos povos serranos, que não se conformaram com o destino que lhes estava reservado, lutaram e quando conseguiram os seus objectivos não esqueceram o seu torrão longínquo. Fundaram associações onde angariavam fundos para dotar as aldeias das infra estruturas mínimas, fazendo eles o que competia ao estado.
Políticas...
Beijos,

Dulce disse...

Lourdes
Temos as mesmas raizes. Meus avos trouxeram usos e costumes de Portugal e neles educaram seus filhos, que nos educaram nos mesmos moldes, guardadas as diferenças do tempo.
Beijos

Daniel Costa disse...

Dulce

Aprecio biografias, pelo que gostei de ler e conhecer a saga dos progenitores. No fundo é uma das histórias da emigração das nossas Ilhas Atlânticas. Quem diz das Ilhas, pode falar também do Continente.
Lembro-me de aqui, se imigrar bastante para a Argentina, era garoto.
Depois veio a guerra de África, ao mesmo tempo abriam-se as portas da Europa. Bastante gente deu o "salto clandestino", para fugir à tropa no Ultramar, a par de quem podia ir legalizado.
Há histórias pungentes!...
Daniel

Dulce disse...

Pois é, Daniel, e hoje dá-se o contrário, são os brasileiros que buscam terras portuguesas tentando encontrar uma vida melhor. E ai, sentem-se em casa.