floquinhos

quarta-feira, 11 de março de 2009

A MADRUGADA E O TEMPO


Madrugada! Momento de quietude, momento das verdades nuas e cruas gritando dentro de nós, momento que pode ser de saudade, de dor, de ternura, de aconchego d’alma, já que todos os sentimentos parecem aguçados nessa hora.

Pensando nisso, ela caminha suavemente pela casa em penumbra e ao chegar a janela depara-se com uma cidade que parece dormir, apenas uma ou outra janela iluminada nos prédios vizinhos, nenhum carro passando pela rua, sequer os cães ladram... Um doce silêncio paira no ar, desses que nos permitem ouvir nossos próprios pensamentos. E ainda bem que seus pensamentos, hoje, são de paz, sem incertezas (pelo menos agora), bailando dentro de si.
E, perdida em seus próprios pensamentos, fica lembrando de outras madrugadas, num tempo nem muito distante, doces madrugadas cheias de poesia, musica, cálidos sentimentos, enlevo, ternura, quando caminhava pela casa como se caminhasse sobre perfumadas pétalas de rosas, quando bastavam os acordes de uma musica suave para que o coração se derretesse, quando o terraço era aconchego para os sonhos e a poltrona favorita a acolhia em momentos de longas conversas com sua alma inquieta. Nunca chegara a entender como se envolvera tanto, mas não precisava entender nada para viver o momento de magia e encanto, mesmo porque tinha forte convicção de que esse momento seria passageiro, de que estava apenas e tão somente tentando viver um sonho que de antemão sabia impossível, mas se apegava a ele como possibilidade de se sentir viva, inteira, participante do mundo, capaz ainda de amar e de ser amada, de dar vazão a todo carinho, toda ternura que represara dentro de si em tantos anos de “estar só”.
Mas era um sonho, e os sonhos acabam. E, na maioria das vezes, acabam deixando dentro da alma um travo de amargura, acabam mercê um desencanto, uma decepção, uma sensação de ter-se sido tola, desvairada, inconsequente. E foi assim que ela se sentiu a princípio, quando, percebendo o desmoronar desse sonho, buscou dentro de si razões e explicações, descobrindo que não existem razões quando o assunto envolve alma e coração e que explicações são absolutamente desnecessárias e inúteis, porque nem sempre são verdadeiras. E pouco a pouco foi se encaixando de volta na antiga vida de “estar só”, agora muito mais difícil de ser levada, pois carregava lembranças que doíam muito, que rasgavam a alma, que sufocavam, Mas o tempo, e só ele, em sua sabedoria, traz a cura para tais males. O tempo se deu e a cura está em andamento, tanto que ela já pode de novo caminhar pela casa nas madrugadas insones sem sentir lágrimas correndo pelo rosto, sem a dor da ausência apertando seu coração...
E, pouco a pouco, voltam a serem serenas as madrugadas de sua vida...

Dulce Costa
Na madrugada do dia onze de março do ano de dois mil e nove.

2 comentários:

heli disse...

Dulce, você escreve com a alma, com o coração.Estive conhecendo hoje o seu site e me encantei com suas crônicas!

Maria Valadas disse...

Minha querida,

Um texto saído do fundo da tua alma e que me deixou absolutamente
fascinada com a transparência das tuas palavras.

Deixo-te com um dos meus pensamentos... o qual escrevi nas minhas eternas madrugadas ( diferentes do teu sentir), mas foram e ainda o são também as minhas companheiras madrugadas:

A SÓS

Ah! Ficam as recordações, ficam os sonhos,esses companheiros do vazio...

Beijinhos ternurentos.