floquinhos

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Uma madrugada feita de lembranças...


Na calma da madrugada, aqui estou eu vagando pela casa, conversando com minha alma que hoje, de tão inquieta, não me deixou dormir nem um bocadinho... Olhando pela janela vejo, nos prédios em frente, outras janelas iluminadas e fico me perguntando se em alguma delas haverá alguém lutando contra o desvario de sua alma tentando, como eu, fazê-la calar-se, adormecer. Ou se em outra, talvez, haverá alguém chorando de saudades, lamentando os sonhos perdidos. Ou ainda, se naquela do andar inferior, apenas suavemente iluminada, não haverá alguém sorrindo mansamente para a vida, antevendo o dia que há de amanhecer radioso, trazendo-lhe o ser amado depois de longa ausência... Por tão variados motivos nossa alma se rebela e nos tira o sono...
Minha alma insiste em me conduzir por caminhos de saudade tão distantes que já os considerava perdidos e, aos poucos, vou cedendo e deixando-me conduzir pelo tempo afora, revendo lugares, redescobrindo encantos que ficaram escondidos nas dobras desse mesmo tempo,
E sem que me dê conta, estou de novo no velho casarão, é noite de festa, há luzes, risos, alegria em todos os rostos. Mas se todos estão tão felizes, porque aquela linda jovem traz uma indisfarçável tristeza no olhar, porque prende um sorriso pálido nos lábios? E minha alma sabichona, sussurra ao meu ouvido: - “Não se lembra? ela acaba de perder seu primeiro e encantado sonho. Tantos outros virão e se perderão pelos caminhos, assim como este, mas o primeiro desencanto deixa suas marcas. Não é possível que o tenha esquecido!” Respondi-lhe que não, que não o havia esquecido, mas que me esquecera, sim, de quanto havia sido jovem, de quantos sonhos havia sido palmilhado meu caminhar e que, apesar das marcas, apesar das lágrimas que sempre vinham quando eles se partiam, era exatamente neles que me envolvia para um novo recomeçar.
Sorrindo, minha intrometida alma murmurou: - “Vê?... Velhos sonhos podem sempre reviver, levar a um recomeçar....”
Era tempo de aprisionar minha companheira e voltar para minha madrugada insone, antes que, contra todos os meus argumentos, ela pudesse me convencer de que o momento de recomeçar chegara...

Dulce Costa
Na madrugada de lembranças do dia vinte e sete de maio do ano de dois mil e nove.

2 comentários:

Maria Valadas disse...

Lendo-te... uma lágrima rebelde deslizou e caiu no meu regaço.

Memórias esquecidas e relembradas tão deliciosamente como o fizeste...

Beijos, minha doce amiga além-mar!

Dulce disse...

Maria

Uma lágrima caida no regaço...
Ah, minha amiga, que delicadez de sua alma comover-se nesse texto.
Obrigada.
beijos.