floquinhos

sábado, 6 de dezembro de 2008

A PUREZA DAS CRIANÇAS


Estava, ontem a noite, no salão paroquial da Igreja de Sto. Antonio, em Everet (Massachusetts) aonde funciona um curso de português para filhos de imigrantes brasileiros, um trabalho muito bonito feito por professoras brasileiras residentes aqui, todas voluntárias, e aonde meus netos também vão sendo alfabetizados em português - dando a esses alunos uma pequena palestra sobre livros e literatura.
Já havia falado sobre o quanto o hábito de ler torna melhor o ato de escrever, explicara como havia escrito minhas primeiras crônicas e o que me levara a publica-las, enveredei pela literatura infantil e contei de minha paixão, em meus verdes anos, por Monteiro Lobato, enfim, fui tentando passar para aquela garotada um pouco da minha paixão pelos livros e pela arte da escrita, e como se aproximava a hora de encerrar aquele gostoso encontro, abri espaço para perguntas, achando que crianças entre sete e quatorze anos não perderiam seu tempo com perguntas, apesar do silêncio que se fizera durante minha fala e das carinhas deles todas parecerem atentas. Por isso me surpreendi quando começaram a levantar os braços e colocando suas perguntas.
Queriam saber com quantos anos comecei a escrever, com quantos anos li meu primeiro livro. Qual era o meu livro predileto? Como eu fazia para escrever? Um deles até perguntou se eu trabalhava em casa ou se precisava sair para escrever meu livro... E em meio a tantas perguntas um garotinho levantou a mão e eu pedi a ele que fizesse a pergunta, que eu não consegui entender, pedindo então a ele que a repetisse, e também não entendi, então pedi que falasse um pouquinho mais alto e ele olhou para mim com um olhar meio de pânico e, desta vez em voz alta, perguntou “posso ir ao banheiro?” Foi tão surpreendente que todo mundo começou a rir, e foi entre risos que disse a ele que claro que podia, e que fosse rapidinho antes que fosse tarde demais... E ele saiu correndo lá para o fundo da sala, voltando pouco depois já com uma carinha mais alegre e se incorporando novamente ao grupo...
Foi a nota pitoresca, alegre, descontraída de uma noite que para mim foi muito especial, por poder pelo menos tentar fazer alguma daquelas crianças se interessar pelos caminhos da literatura e da poesia.


Dulce / 6 de dezembro de 2008

2 comentários:

ney disse...

Dulce,
Parabéns! Um belo trabalho, certamente um momento inesquecível para você e para todos presentes. Abraço/ney.

Dulce disse...

Obrigada, Ney.
Foi realmente um momento muito especial que adorei ter vivido.