floquinhos

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Uma canção de muito longe...


Quintana, em toda a sua ternura, mostra-nos nestes versos uns retalhos de sua infância. A essas lembranças ele intitulou...

Segunda canção de muito longe

Havia um corredor que fazia cotovelo
Um mistério encanando com outro mistério, no escuro...
Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa...
Vamos ouvir o ruído cantando, o ruído arrastado das correntes do algibe,
Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.
Nós nos debruçávamos a borda, gritando os nomes uns dos outros,
E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões.
Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia os azulejos reluzentes, o muro do quintal que limitava o mundo.
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas...
Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos...
As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros,
O chiar das chaleiras...
Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar a Toutinegra do Moinho,
Que saia em folhetim no Correio do Povo...!
Ia encolhida, pequenina, humilde. Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!

(Mario Quintana)

14 comentários:

Maria Teresa disse...

Dulce:
Como devia ser encantadora aquela época quando as crianças ainda saboreavam o prazer dos ruídos do mundo!
Beijo carinhoso

Dulce disse...

Maria Teresa

Eram tempos lúdicos, havia sonhos mais prosaicos, mais ternura...
beijos

Pitanga Doce disse...

Que lindas as lembranças da infância no campo! Tudo era muito, para crianças que se divertiam com tão pouco. E eram felizes como ninguém. Se a tia Tula fosse viva, meu pai poderia lhe contar como acabou a história da Toutinegra do Moinho. Sempre disse que foi dos melhor livros que já leu.

Bom dia Dulce. Aqui Sol fraco e brisa leve.

Sonhadora disse...

Minha querida Dulce
Passei para deixar um beijinho.

Sonhadora

Dulce disse...

Pitanga Doce

Imagino quantas histórias lindas seu pai tem para contar!... Só depois que meus pais partiram eu me dei conta de que carregaram com eles tantas histórias que eu poderia ter aprendido.Arrependo-me de não ter sentado ao lado dele, com um gravador, apensa registranso mais fatos da vida da familia em outros tempos. Daria um livro e tanto e, fora isso, enriqueceria minha alma que anda se sentindo meio pobrinha... rs...
Beijos, Mila, em manha fria e cinzenta

Dulce disse...

Sonhadora

Obrigada.
Beijos e um bom dia para você.

Agulheta disse...

Amiga Dulce.
Como é bom recordar a ternura da idade e em inocência que se desfrutava a vida sem olhar a nada,gostei de ler as palavras que por aqui são escritas.
Beijinho e bfs
Lisa

Dulce disse...

Agulheta

Um tempo de encantos e encantamentos, Lisa, a beleza do simples, do puro. Ainda mais quando mostrado pela ternura dos poemas de Quintana...
Beijos, obrigada e bom final de semana para você também.

Adolfo Payés disse...

Bello como siempre..


Por problemas con mi ordenador no había podido visitarte.


Lo siento..
Un abrazo
Con mis
Saludos fraternos...


Que disfrutes de un buen fin de semana... mis mejores deseos..

Dulce disse...

Adolfo Payés

Obrigada!
Sempre é um prazer recebe-lo, Adolfo.
Um abraço e um bom final de semana para você também.

heli disse...

Dulce.

As doces palavras do poeta me levaram longe...lembrei da minha infância, de ternos momentos que vivi ao lado dos meus pais e dos meus avós.
Bom fim de semana.
beijos

M. Lourdes disse...

Dulce
neste poema Quintana descreve tão bem momentos como os que eu passei na minha aldeia. Só mudam o país e os nomes, as sensações eram idênticas. Por isso eu tenho tão boas recordações desse tempo. Só tenho pena de não ter o dom de Mário Quintana para escrever...
Bom fim de semana.
Beijinhos.
Lourdes

Dulce disse...

Heli

Delicia esses versos de Quintana, não, amiga? E sempre a mesma ternura.
Beijos e bom fim de semana para você tamvem.

Dulce disse...

Lourdes

E são maravilhosas lembranças, não?
Quanto a não escrever como Quintana, creio que isso não deve inibi-la de escrever, de contar suas memórias. Acredite, minha amiga, eu o fiz, no intuito de deixar para meus netos, para que eles conhecessem suas raizes, e foi maravilhoso. Acabou dando num lindo livro. Acho que você deveria faze-lo/ É só começar... anime-se amiga. Vai gostar.
Beijos e bom final de semana