
Pois é, meu amor, completam-se hoje oito anos de ausência, de uma ausência que se torna a cada dia mais e mais presença em minha vida. Você continua caminhando comigo em cada pensamento, em cada pequeno gesto, em cada palavra, contrariando o dito que afirma que o tempo vai apagando tudo, vai aplacando a dor, vai amainando a saudade...
Você havia prometido que envelheceríamos juntos, que juntos faríamos este difícil caminhar, apoiados um no amor do outro, felizes, lembra-se? Sei que não foi por sua vontade a partida antecipada, meu amor, você amava intensamente a vida, como amava este dia, de todos os dias de festa, o seu favorito... Com que alegria acompanhava os preparativos para a ceia, com que prazer juntava moedinhas a serem distribuídas depois da meia-noite para dar sorte, para que não faltasse dinheiro durante o ano todo, com que emoção estourava o champanhe a meia-noite para o brinde, enquanto os fogos espocavam ruidosamente por toda a cidade!... E em torno de você era só alegria...
Em nosso último Réveillon não houve alegria... Meu coração estava mergulhado na dor. Na dor da perda, na dor da, desde então, sentida ausência, na dor da separação definitiva e irremediável. E, quando os fogos começaram a espocar lá fora, havia lágrimas ao invés de risos, preces ao invés de votos, adeuses em lugar do “feliz ano novo”... Mesmo porque, dentro de mim, nunca mais poderia haver um “ano novo” feliz., posto que viria sem o seu riso, sem a sua voz, sem a sua presença...
Mas hoje a noite vou, no rosto a falsa máscara da alegria, juntar-me a nossa filha e a nossos netos para celebrar mais um Ano Novo, e prometo a você que será uma noite exatamente como você gostava, cheia de luzes, cores, musica, risos, abraços, e que, mantendo a tradição que você trouxe lá das suas Gerais, haverá até mesmo as moedinhas de boa sorte, com direito a contar aos kids de onde veio essa tradição. E assim o Vô Bira estará mais uma vez conosco num Réveillon...