floquinhos

domingo, 27 de dezembro de 2009

Minha eterna saudade...


Durante décadas, lá em casa, a data de hoje foi de festa e alegria. Houve um dia de uma falsa alegria, então, quando comemoramos a data por última vez, que foi quando ele já se despedia da vida que só duraria mais quatro dias e, após isso este passou a ser um dia de saudades. Este data marca o aniversário de nascimento de meu marido, Ubirajara, minha eterna saudade...
Quando ele já estava bem doente, escrevi uma crônica que transcrevo aqui, agora, como homenagem a ele,

Olho para ele ali sentado, cabisbaixo, olhos cerrados, um ar de tristeza estampado em cada canto de seu rosto, coração mergulhado no passado, e não posso deixar de me entristecer, não posso evitar comparações entre o homem que foi e o que é agora... Não poso evitar, eu mesma, de mergulhar no passado e de lá resgatar lembranças e saudades...E volto décadas no tempo para vir lentamente caminhando com ele, passo a passo percorrendo de novo nossos caminhos, ora atribulados e pedregosos, ora suaves e plenos de luz, numa jornada ao mesmo tempo semelhante a tantas outras embora única, só nossa. Jornada que se prenunciou numa linda tarde de verão, no final dos anos dourados, quando, voltando do meu trabalho, dei com dois olhos castanhos, profundos, firmes, postos em meus olhos.
Nossos caminhos se cruzaram então, como se cruzavam os caminhos que tínhamos que percorrer todas as tardes, eu voltando do Senai, onde trabalhava, e ele voltando da IBM, onde fazia um curso técnico de manutenção de máquinas, na Rua Piratininga, no Brás. E durante uma semana, entre trocas de olhares e sorrisos, foi crescendo em mim uma expectativa, um sonho... Trago ainda bem viva em minha lembrança a sensação que tomou conta de meu coração quando o vi aproximar-se de mim por primeira vez, o som doce, suave de sua voz ao me dirigir as primeiras palavras, tão prosaicas, tão usadas pelos jovens de então, quando se aproximavam de uma moça, como se fora um pedido de licença para chegar: “Posso acompanha-la?” E tem me acompanhado pela vida afora, tem sido desde então namorado, noivo, marido, amante, companheiro, irmão, pai, amigo, servo e senhor...
Dez meses depois eu entrava na Igreja do Brás para, diante de Deus, tornar-me sua mulher. Começava então a longa jornada... Homem inteligente, amante do saber e da cultura, passou a dividir seu tempo entre os cuidados para com sua família, a formação de nossos três filhos, seu trabalho e seus estudos que seguiram constantes ao longo de todas estas décadas e que o tornaram conhecido entre os familiares e os amigos como uma pequena enciclopédia viva. Não há o que ele não conheça, o que não tenha ouvido falar... E nesse exemplo maravilhoso criamos nossos filhos e os vemos hoje buscando sempre novos conhecimentos, novas realizações.
Mas o tempo inclemente, unido à doença implacável, vergaram esse homem alto e forte, fizeram dele quase uma criança frágil, carente de cuidados e atenções constantes, de afeto, de companhia, já que nem seus livros tão queridos podem ocupar-lhe o tempo, pois seus olhos já quase não conseguem ler... E passa horas olhando para o nada, mergulhado no passado, encontrando algum lenitivo na música, nas vozes de seus interpretes favoritos. Abre-se, porém, em sorrisos quando da chegada dos netos ou dos filhos (e as noras e o genro estão incluídos na categoria de filhos), ou quando recebe amigos, porque é um contador de histórias nato e adora bater papo. Volta então a ser o Bira que conhecemos e aprendemos a admirar. E como é um lutador, e os lutadores vergam-se mas não se rendem, ainda vai ao computador trabalhar em suas pesquisas matemáticas, tentando terminar um projeto começado há algum tempo, evidenciando assim que ainda conserva acesa lá bem dentro de si a chama do conhecimento, o desejo de realizar os sonhos acalentados por tanto tempo e que o mantém vivo, apesar de tudo.

Dulce Costa
Março/2001

20 comentários:

Isa disse...

Que homenagem mais linda ao grande Amor da sua Vida.
São tão sentidas essas palavras,tão naturais,que emocionam!
Ele estará velando pela Família que,
juntamente consigo,formou!
Toda a minha ternura para si!
Beijo.
isa.

PS:- A minha nora,Mãe dos meus netos,
passou um Natal cheio de dores.Foi ao Hospital e está com uma hérnia discal.No pescoço.Vamos lá ver como poderei ajudá-la.

Dulce disse...

Isa,
Obrigada pelo carinho, amiga.
Espero que sua nora logo fique bem, que essas dores são mesmo muito dificeis. Melhoras para ela.
Beijos e bom domingo.

heli disse...

Dulce.
Suas palavras nos envolvem.Achei linda a homenagem feita a alguém que já se foi, mas que deixou marcas profundas naqueles que ficaram.Que bom que você decidiu partilhar essa crônica conosco.É como se de repente, olhassemos para dentro de nós mesmos e fizéssemos uma análise no valor que estamos dando às pessoas que nos rodeiam...
Bela mensagemm bons sentimentos!!!
Tenha um belo dia,
beijos
heli

Vivian disse...

....Bom Dia, querida!

que lindo tudo isso que
escrevestes ao seu eterno
amor.

são pedaços de vida que
vieram para marcar, e para
que não esqueçamos jamais.

ele, com certeza, do andar
de cima, sente orgulho de tí.

beijo, menina!

Carlos Albuquerque disse...

Dulce
Lá, onde ele estiver, vai gostar de ler estas palavras, escritas com tanta saudade, sentimento e,ainda,amor.
Bom Domingo, minha amiga
Beijos

Vitor Chuva disse...

Olá Dulce!

Linda homenagem que presta aqui ao homen da sua vida, seu companheiro de viagem, sua razão de viver. Estou certo que ao fazê-lo sentirá que preenche um pouquinho do vazio que a sua partida deixou dentro de si, encontrando aí algum conforto.
Sabe, em momentos como este, da celebração do Natal- ou de outros semelhantes - com muita alegria à nossa volta, e ainda que dela partilhemos,ainda assim não conseguimos deixar de pensar em nós ... de como seria bom se os nossos ausentes pudessem estar prsentes, para tornar essa alegria completa.
Parece um tanto perverso que a tristeza que então não conseguimos deixar de sentir seja induzida pela alegria que nos envolve, mas, no fundo, a felicidade dos outros, sejam eles quem forem, nunca dispensa a nossa própria ...

Beijinhos. Tudo de bom; Bom resto de domingo.
Vitor

Dora Regina disse...

Amiga Dulce, que linda homenagem à quem foi muito importante na sua vida, me emocionei, confesso.
Também sinto uma saudade enorme de um irmão que perdi há 2 anos.
Mas saudades sim, tristeza não amiga.
Um grande abraço e um Feliz Ano Novo!!!

Fernanda disse...

Minha querida amiga,

Foi com muita emoção que li a sua homenagem ao seu querido marido.
A sua passagem deixou marcas profundas em si e não só... toda a família tenho a certeza.
Recordar é viver, mesmo quando dói, depois fica mais aliviada.

Eu sempre digo que quem se amou/ama deve ser recordado, é o mínimo que podemos fazer, é um direito por eles conquistado.

Beijinhos querida.

Dulce disse...

Meus queridos amigos

Heli,

Vivian,

Carlos Albuquerque,

Vitor,

Dora Regina,

Ná,

O meu muito obrigada a cada um de vocês pela palavras de carinho e amizade. É bem verdade que essa saudade vai me acompanhar para sempre, mas é uma doce saudade que me dá forças para continuar meus caminhos com a serenidade que ele esperava eu tivesse sempre.
Um beijo e meu carinho para cada um de vocês, com meu melhor muito obrigada.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Belísima e comovente homenagem,que ele irá receber onde estiver.
Um grande beijinho

FOTOS-SUSY disse...

OLA QUERIDA DULCE, BELISSIMA E COMOVENTE HOMENAGEM...FIQUEI MUITO COMOVIDA COM TAO BELAS PALAVRAS...VOTOS DE UMA EXCELENTE SEMANA AMIGA!!!
BEIJOS COM CARINHO,


SUSY

Dulce disse...

Carlos

Obrigada, meu amgio. Beijinho para você tambem.

Dulce disse...

Carlos,

Muito obrigada, meu amigo.
Beijinho para você também

Dulce disse...

Susy

Muito obrigada e uma otima semana para você também.
Beijos

Sonhadora disse...

Dulce
Que linda homenagem...não tenho mais palavras.

beijinhos

Sonhadora

Dulce disse...

Sonhadora

Obrigada
Beijos e bom dia

M. Lourdes disse...

Olá amiga
Mais uma vez, emocionei-me ao ler este trecho referente a uma data muito importante e à linda homenagem que prestou ao seu falecido marido.
As saudades são uma constante, mas há estas datas em que elas apertam mais. E dói muito, não é Dulce?
Onde quer que ele esteja, decerto estará enternecido com esta sua atitude.
Um grande beijinho

Dulce disse...

Lourde

Obrigada, minha amiga.
São momentos que temos que passar e seguir em frente.
Beijos e boa noite

Sonia Novaes disse...

Dulce

Linda historia de amor...
Todos deveriamos contar as nossas,historias alegres,tristes,engracadas,enfim todos temos uma.
Tambem gosto de contar os meus causos,as coisas engracadas que me acontecem quando viajo pelas estradas mineiras.E aqui e a li,lendo os blogs,vou me divertindo e dividindo com vcs tambem,as minhas aventuras.
Que seu marido,dentro de seu silencio,possa ainda curtir a alegria de ter vc,os filhos e os netos.
Feliz Ano Novo...
Bjs
Sonia Novaes

Dulce disse...

Sônia

Obrigada por vir ao meu cantinho.
Gosto muito de contar minhas histórias, faço isso constantemente por aqui e concordo com você, sim, todos deveríamos mesmo contar nossos "causos", contar nossas experiências.
Lamentavelmente meu marido partiu faz exatamente sete anos amanhã, deixando essa eterna saudade dentro de mim. Mas aus presença é constante em nossas lembranças, no nosso amor.
Obrigada, beijos e um muito Feliz Ano Novo.