floquinhos

domingo, 15 de fevereiro de 2009

MAIS UMA VEZ, SOLIDAO...


A noite avançava lentamente e, na casa em silêncio, ela procurava caminhar suavemente, para não despertar quem dormia. Sentiu o frescor da noite que entrava pela porta entreaberta do terraço e ao transpô-la, descalça, foi sentindo o frio das pedras sob seus pés, enquanto uma leve sensação de frio parecia envolve-la toda... Mas não era provocada pelo frio que vinha do chão ou pelo vento brando que agitava seus cabelos... Era um frio que parecia vir lá de dentro, do fundo do seu coração, oprimido que estava pela saudade, pela ausência, pelo vazio que a circundava...
Durante todo o dia estivera ocupada, tantas tarefas, fora avó, fora mãe, mas naquele momento era apenas ela mesma, era alma, coração, mulher solitária, carente de afeto, de uma mão que acariciasse a sua, de um ombro aonde pudesse encostar a cabeça, de uma voz que lhe falasse de perto, mansamente, contando coisas, inventando momentos, de um riso alegre que iluminasse um rosto amado, de um olhar doce, que a fizesse sonhar, sempre. E, no entanto, sabia que era tarde, muito, mas muito tarde para esses devaneios. Tinha consciência de que seu momento já passara.
Ele chegara a sua vida em tempos de solidão e preenchera seus momentos com sua doce presença, com seu afeto, seu carinho... Tão diferente em seu modo de ser, de trata-la... Vendo nele o alguém por quem esperara durante toda a sua vida, abriu sua alma, deixou-se levar pelos sentimentos, sem se dar conta de que se para ela ele significava tudo, era a própria realização do sonho de encontrar alguém que, semelhante a ela, a completaria, para ele ela não fora mais do que um encanto passageiro... E seu tão sonhado momento ficou incompleto, partido entre tantos enganos, extraviado num labirinto de circunstâncias, de encontros e desencontros, de mal-entendidos...
E lá estava ela, de novo, coração apertado, alma em pedaços, sem rumo, tentando reencontrar-se novamente, buscando forças para mais uma vez recomeçar seu caminho na solidão que lhe fora determinada pela vida. E a noite seguia seu rumo, avançando pela madrugada chuvosa e triste... Tão triste como ela que só quisera encontrar um carinho, um aconchego para sua alma e tudo o que encontrara fora uma muito maior solidão em seus caminhos...

Dulce Costa
Na madrugada do dia quinze de fevereiro de 2009

4 comentários:

Osvaldo disse...

Oi Dulce;
Esta sua crónica "Solidão", é um grito de alerta para o frenesin actual de vida das populações em que o importante é seguir na direção norte esquecendo que nem toda a humanidade segue o caminho escolhido...
Uns por opção outros porque a idade vai chegando, ficam a leste do norte e pouco a pouco caem na solidão...
Esta crónica, lindissima mas dramática que a Dulce nos oferece, poderá ter mil interpretações, mas tem o dom de nos fazer refletir.
bjs
Osvaldo

Dulce disse...

Oi, Osvaldo,
É exatamente isso. Ao longo de minha vida tenho visto tantas e tantas pessoas que, com medo de ficarem sós, cometem seguidos enganos que as levam a uma solidão muito maior do que a que ja tinham dentro de si...
Bjs.

Lourdes disse...

Olá Dulce,
Mais uma vez me surprende com uma história que tem sido vivida por muitas pessoas, que procuram o seu destino e acabam por ficar sós.
É triste e acontece a muitos...
Beijo

Dulce disse...

Infelizmente é assim mesmo, Lourdes.
É que nunca sabemos que rumo vai acabar tomando cada um de nossos passos...
Bjs.