floquinhos

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

DO OUTRO LADO DO ESPELHO


Olha-se no espelho e não se reconhece. Não se vê na imagem que ele lhe devolve, implacável, insensível ao seu espanto... Não! Aquela mulher de ar cansado, trazendo no rosto as marcas do tempo, os cabelos sem brilho, sem aquele caimento que lhe emoldurava o rosto realçando a delicadeza de seus traços, nada tinha a ver com a menina que cantava dentro de si. Aquele brilho que vislumbrara no olhar não combinava com o resto da imagem que via refletida no espelho. E o sorriso luminoso foi se apagando, dando lugar a um sorriso triste...
Ainda há pouco, antes de se voltar para ele, não era mais do que uma menina deslumbrada pela possibilidade da volta do amor em sua vida, coração meio descompassado, rosto iluminado por um sorriso que lhe vinha da alma, e ganhava vida nos lábios que sentia juvenis, olhos brilhando, enxergando um futuro pleno de emoções. Nas mãos trêmulas, um cartão com uma doce mensagem. Sobre a mesa, uma rosa, entreaberto botão, vermelho como sangue, significando a possibilidade de um novo sonho. O último, talvez, de uma vida que fora povoada de sonhos impossíveis, irrealizáveis, tristes ou doces lembranças que ela, cansada de frustrações, fechara no fundo de seu coração, disposta que estava a não mais sofrer, a não mais sentir a dor da desilusão, a mágoa da inconstância, o sufocar de uma saudade imensa.
A vida sempre lhe pregara peças, sempre a colocara diante de pessoas que ao final acabavam por partir, muitas vezes sem nem dizerem porque, tanto que ela findara por acreditar estar nela o problema... Mas era tão difícil imaginar que não houvesse alguém capaz de amá-la de verdade, num amar verdadeiro, duradouro, sincero, amigo, cúmplice, que conseguisse suplantar diferenças, vencer o tempo...
E agora ali, diante do espelho, uma dualidade dentro de si, uma dúvida que a fragilizava: valeria à pena arriscar mais uma vez, tentar encontrar sua outra parte, ceder aos apelos de sua alma inquieta e abrir os braços para a vida, para o possível amor? E se o fizesse, teria forças depois, se mais uma vez ficasse demonstrado que não nascera para ser amada, para ser feliz? Teria como superar essa decepção?
Volta as costas para o espelho, vira-se de frente para sua alma. Caminha até a janela e fica olhando a chuva que cai sobre a cidade, desejando que ela caísse também sobre sua alma, lavando-a das dúvidas, dos temores... O toque do telefone tira-a de seus pensamentos. Sabe que é ele, em busca de uma resposta. Um profundo suspiro escapa de seus lábios enquanto, decidida, dirige-se à sala ao lado para atender ao telefone...
A noite cai sobre a cidade... A chuva continua...

Dulce Costa
Em São Paulo, no dia dez de fevereiro do ano de dois mil e nove.

2 comentários:

Lourdes disse...

É Dulce, o espelho é impiedoso e, a partir de determinada altura, deixa de nos mostrar aquele "eu" que nós queríamos...
Mas, a vida que não se compadece com o passar dos anos, sempre nos traz algo que nos motiva para continuar a viver.

Dulce disse...

Assim é, de fato, Lourdes.
Em cada fase da vida há beleza e na medida em que caminhamos pelo tempo vamos valorizando mais e mais esses momentos que nos são oferecidos, que se tornam a cada dia mais preciosos.
Beijos