floquinhos

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Como, às vezes, a vida é estranha!...


Acordo com o barulho da chuva que cai sobre o telhado, forte, farta, molhando a cidade, encharcando a terra vermelha deste lugar que foi outrora propriedade de um dos "barões do café", a Fazenda Chapadão, da qual tanto ouvia meu pai e meus tios falarem nos doces tempos de minha meninice. 
Nas noites frias, reunidos em torno da velha mesa de carvalho, naquele casarão que me viu nascer e crescer, na prospera Paulicéia, a mesma que Mario de Andrade chamou de "desvairada", mas que para aquela família representou a esperança de dias melhores, encantava-me ouvir histórias e mais histórias do passado daquela família de imigrantes portugueses, vindos da Ilha da Madeira em busca de um sonho em terras brasileiras... 
Lembravam até com uma certa nostagia dos doces  e árduos dias de sua juventude passada no interior do estado, como colonos em uma fazenda de café;  já casados, filhos crescendo, meu pai e meus tios gostavam de contar casos, histórias, de rememorar os sábados de sua mocidade, quando percorriam quilômetros e quilômetros a pé, para poderem participar dos bailes que os colonos da antiga fazenda organizavam rotineiramente. Aqueles bailinhos dos sábados à noite, que se prolongavam pela madrugada, eram uma das poucas formas de lazer daqueles jovens que, desde meninos, trabalhavam na roça, com os pais que ali haviam chegado, como tantos e tantos outros, para suprir a mão de obra escrava após a abolição, algumas décadas atrás. e que iam cumprindo suas tarefas de sol a sol, de segunda a sábado, sem esmoorecer, esperando o momento certo para partirem para uma cidade grande em busca de uma vida melhor, menos dura. E partiam, posteriormente, como aconteceu com a família de meu pai, numa esperança que se ia perdendo pouco a pouco, nas dificuldades que eram muito maiores na difícil adaptação a essa nova forma de vida.
Mas, acostumados a enfrentar as vicissitudes da vida, iam vencendo pouco a pouco os obstáculos, iam se adaptando, acabando por realmente desfrutarem de uma vida menos árdua e, o que eles consideravam mais importante, podendo propiciar aos filhos a chance de estudos, de crescimento, de escolhas.
Ouço a chuva cair lá fora, confortavelmente instalada no quarto que me acolhe quando aqui estou, lembro com imensa saudade das noites de minha infância, de meus pais, de meus tios, de tantos momentos lindos, meu coração vai se sentindo afagado por essas lembranças, e não posso deixar de dizer para mim mesma que a vida é estranha, mesmo... Quando é que meu pai poderia supor que um dia, tantas e tantas décadas depois, um de seus netos moraria em terras da "Chapadão", que sua filha passaria uma madrugada de muita chuva, abrigada no amor de seus amores, escrevendo sobre aquelas noites de sábado de sua juventude?... Quando?

8 comentários:

Paloma disse...

DULCE, muitas vezes nos pomos a pensar nas voltas que a vida dá,gerando situações que jamais imaginavamos pudessem acontecer.

Beijos

Graça Pereira disse...

Minha Querida

A vida é mesmo assim... dá voltas e mais voltas e nos leva, por vezes,ao ponto de partida!
Gostei da tua crónica sobre estes tempos antigos...
Sinceramente? Acho que se está a perder uma escritora!!

Beijo e uma boa semana...sem muita chuva.

Graça

Dulce disse...

Paloma

São as surpreendentes voltas que a vida dá...

Beijos e um bom feriado para você.

Dulce disse...

Graça Pereira

E não será isso mesmo o que torna a vida tão interessante?
Obrigada, minha amiga. Na verdade, ser escritora foi sonho de adolescente que ficou no ar, sem realmente acontecer...

Beijos e um bom dia para você.

Nota - e a chuva continua...

Idanhense sonhadora disse...

Dulce , eu em vez de dizer "as voltas que a vida dá " diria antes "as voltas que a vida dos portugueses dá "!!!Afinal também a Dulce pertence àqueles 95% de brasileiros que são descendentes de portugueses ...Aquilo que tão primorosamente nos narra pode bem ser "A saga dos portugueses no mundo !", sempre lutando e mostrando como afinal é o nosso "génio ."Tem graça que ainda ontem lia um livro sobre o culto de Nossa Srª da Conceição , padroeira de Portugal e também do Brasil , em que a certa altura o seu autor , brasileiro , Armando Alexandre dos Santos , diz :"Neste país , sobre o qual se despejaram(....) correntes imigratórias provenientes do mundo inteiro, é entretanto preciso lembrar alto e bom som que a nota dominante , largamente dominante , foi , é e terá de ser sempre a tradição lusa ."E mais à frente : "..,um Brasil que renunciasse ao que tem de herança lusa deixaria de ser Brasil."Desculpe toda esta minha "prosa "em prol do sangue português que também lhe corre nas veias ...Continue a brindar-nos com estes belos textos .
Fique com a Srª da Conceição
Beijinhos
Quina

Beth/Lilás disse...

Bom dia, Dulce querida!
Realmente estás a se perder por aqui como escritora excelente que és!
Adorei sua crônica e me fez lembrar algo de Miguel Souza Tavares que ando lendo novamente. Sua narrativa é perfeita e faz-nos entrar no tempo e nos lugares, quase até a sentir os cheiros e sabores.
E a vida é isso aí, cheia de belezas, tristezas e descobertas.
um beijo grande carioca

Dulce disse...

Idanhense Sonhadora

Se há coisa de que me orgulhe, minha amiga, é exatamente isso: minhas origens, meu berço... tão ligados estamos à Pátria Lusa que a chamamos, carinhosamente, Pátria Mãe.
Fico sempre muito feliz com seus comentários. sempre tão apropriados... Muito obrigada.

Beijos, um bom dia e que Nossa Senhora da Conceição derrame suas bênçãos sobre nossas Nações, tão precisadas, ambas, de muitas bênçãos.
AMEM!

Dulce disse...

Beth/Lilás

Obrigada, Beth! Nem sei como responder a um comentário tão gentil, tão "de amiga"... Olha que vou acabar acreditando... rs... Obrigada, mesmo.

Pois é! E entre belezas, tristezas e descobertas, vamos lá caminhando nossos caminhos...

Beijos, obrigada e um lindo dia para você.