floquinhos

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segunda-feira, 2 de junho de 2014

E junho chegou...


E o ano já lá vai pela metade... Junho começa, como sempre, cinzento, enfarruscado, frio, prenunciando um típico e garooento inverno paulistano. E traz lembranças de outros junhos, festivos, alegres, folclóricos, quando os vizinhos ainda se reuniam ao redor das fogueiras feitas sobre os paralelepípedos das ruas, para festejar os santos do mês: Santo Antônio, São João e São Pedro. Cada família fazia uma guloseima – pipoca, pinhão cozido, milho e batata-doce assados na brasa da fogueira, bolo de fubá, cocadas... verdadeiras delícias que saboreávamos ao som de risos e brincadeiras pela noite a dentro. As moças casadoiras tiravam a sorte, os rapazes faziam troça, mas bem que gostariam que os nomes deles estivessem escritos naqueles papeluchos... E mostravam-se corajosos, tentando impressionar as meninas, pulando a fogueira. E havia balões no céu...
O tempo passou, os costumes mudaram, a cidade cresceu demais e já não comporta fogueiras no asfalto, os balões tornaram-se um enorme perigo, os vizinhos já não se reunem para festejar os santos (alguns nem se conhecem), e a vida segue seu curso.


Junho de 2014

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Coisas do coração...


Com a proximidade do Natal, o coração vai ficando apertadinho de tanta saudade...  Mãe, pai, marido, irmãos, amigos, tios, primos... tanta saudade!... Mas é saudade doce, cheia de boas lembranças, de muito riso, muito carinho, muitos momentos que foram palmilhando meus caminhos, aplainando minha jornada. Então é saudade boa, ainda que doa um pouquinho. 

sábado, 27 de outubro de 2012

Bairros que envelhecem

Saindo da Praça da Sé...

Os bairros, como as pessoas, também envelhecem e, ao envelhecerem vão decaindo, tomando um certo ar de tristeza, de abandono, até. Ontem precisei voltar ao bairro de minha infância. Fui com minha nora até a avenida principal desse bairro, em busca de tecido de tapeçaria para refazer as cadeiras de minha sala de almoço. 

A Igreja da Ordem Terceira do Carmo continua lá, ao lado da Secretaria da Fazenda

Antes sóbria, quase elegante, com um comércio bem diferenciado para a época, mergulha hoje numa indiferença total, sem marcas nem estilo, sem nem sombra do pretenso glamour dos anos dourados, quando contava com alguns bons restaurantes, boas lojas, com seu "footing" dos sábados e domingos à noite, que a fazia parecer tão iluminada, carregada de sonhos presos aos jovens corações que por lá passeavam na esperança de encontrar aquele alguém tão especial...

A igreja de minhas doces recordações

Minha primeira escola

Pude rever a escola de minhas primeiras letras, a igreja de minha primeira comunhão e na qual me casei, a rua onde cruzei por primeira vez com o homem que seria meu marido, as calçadas que abrigaram meus sonhos de menina-moça, de sonhadora mulher, mas já não eram as mesmas ruas, as mesmas calçadas, a mesma igreja, a mesma escola, embora tudo continuasse lá  no mesmo lugar, do mesmo jeito, mas ao mesmo tempo tão completamente diferente... Havia em torno  de tudo um ar de decadência, de uma certa desesperança... . 

O doce charme de outras eras...

Não pude deixar de me sentir triste, de pensar que os bairros, como as pessoas, deveriam saber  envelhecer sem perder o charme...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Nuvens nos céus de julho...


A sexta-feira chega prometendo um final de semana luminoso. Um sol quase de verão vem iluminando a cidade nos últimos dias, um presente para a garotada que vive um período de final de férias escolares e que, a partir da próxima semana volta às aulas. 
Quando menina, era este um período encarado com uma certa tristeza, uma vez que os dias modorrentos, sem nenhuma responsabilidade com relação a horários e tarefas escolares, eram todos voltados para as brincadeiras, para a companhia das amigas, entre risos e despreocupadas alegrias. E o azul maravilhoso dos céus de julho serviam de cenário a uma das mais lúdicas brincadeiras que costumávamos fazer: adivinhar figuras nas nuvens. 
Nas escadas que davam para o quintal, nas calçadas, em quase final de tarde, sentadas, pescoços espichados para o céu, íamos descrevendo o que nossos curiosos olhinhos desvendavam entre os flocos brancos e tecendo possíveis histórias que se desenrolariam por lá: um castelo que abrigava uma princesa solitária, um velhinho desdentado que sorria ante as lembranças de outrora, uma pastora que tangia ovelhinhas formadas em outras nuvens... Haja imaginação!... rs...  
A verdade é que, a menina que mora em mim busca ainda encontrar castelos nas nuvens, em tardes modorrentas, mas já não os encontra com tanta facilidade... Ainda que os sonhos teimem em permanecer na alma, as nuvens, misturando-se aos gases da poluição da vida moderna, acabam por tirar o brilho, a magia do momento, e a desfazer quase que por completo o encantamento de um por de sol. E, como já foi dito e comprovado antes, na vida, como na natureza, "nada se cria, nada se perde; tudo se transforma..."

sábado, 30 de junho de 2012

Ao amanhecer do sábado...


Joana vai acordando aos poucos, lembrando-se de que era sábado... A noite mal dormida deixara atrás de si um certo desconforto, um quê de cansaço travando-lhe os músculos. Antes mesmo de abrir os olhos, ouvindo o estridente canto dos bem-te-vis que habitavam as árvores do condomínio, adivinhou uma manhã de muito sol, típica do mês de julho, clara e fria. E vieram-lhe à mente manhãs como essa vividas décadas e décadas atrás, manhãs dos sábados de sua infância, tempo em que ainda havia aulas nos dias de sábado, mas que para as crianças sempre eram de alegria porque lembrava-lhes que o dia seguinte seria especial, com farto almoço de domingo em família e, logo depois, uma deliciosa tarde no cinema do bairro, para uma alegre matinê infantil junto de suas amigas. Depois vieram as manhãs de sábado de sua adolescência, cheias de sonhos e frustrações, antevendo domingos com tardes descontraídas entre jogos e passeios nas calçadas da rua em que morava, no lindo parque, junto às margens do rio que ainda não sabia o que era poluição. E os sábados da juventude, em expectativa para o encontro com o namorado ao anoitecer para umas voltas pelo quarteirão antes do bate-papo na porta de casa, sempre vigiados pelo irmão menor, que o pai colocava de plantão para evitar "abusos" de confiança. Já casada, o acordar com o choro do neném, o levantar-se cheia de frio para alimentá-lo e trocar as fraldas e, depois de aninhá-lo novamente em seu berço, retornar para os braços fortes que a esperavam, o calor da paixão a aquecer-lhe a alma. E os sábados foram mudando de cara, fase após fase de sua vida. Na maturidade, filhos casados, cada qual cuidando de sua vida, sábados de calma e companheirismo, manhãs de acordar envolta em braços ainda fortes, de longas conversas antes de resolverem sair da cama. Ainda tantos planos, tantos sonhos, tanto amor... 
Difícil foi enfrentar os sábados que vieram depois, de acordar e não sentir o calor do abraço matinal, o estender as mãos em direção ao outro lado da cama e só encontrar o vazio... O mesmo vazio que se instalara em seu coração, que esmigalhava sua alma, que encobria a mais pura luz do sol... E o tempo foi passando, amenizando levemente sua dor, trazendo conforto à sua alma...  O tempo! Ah, não fora o tempo!...
Sentiu lágrimas tentando descer pelo rosto e pensou que era bem hora de abrir os olhos para o dia que começava. Uma réstia de luz entrava pela janela entreaberta, janela que ela abriu de par em par, deixando que o sol invadisse o quarto. Como ficar triste numa manhã como essa? Ainda mais que era dia de receber os netos e o filho para o final de semana. Sacudiu as lembranças, abriu um sorriso largo e mergulhou na vida e em tudo o que ela ainda tinha o privilégio de dela receber. Afinal, era sábado!...

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Finalmente, maio...


Finalmente  o sol brilha sobre a cidade, depois de dias e dias cinzentos, frios, chuvosos, com cara de inverno. Temos finalmente um dia típico de maio, friozinho, mas claro, iluminado. 
E dentro de mim abrem-se lembranças de outros maios, longínquos, quando aconteciam as mais belas tardes do ano, quando o clima ainda era bem definido em cada estação, quando, exatamente por isso, maio era "o mês das noivas"  Não havia noiva que não sonhasse com um casamento feito ao cair da tarde de um ensolarado sábado de maio, sob a magia de um poente multicolorido, seguido por estreladas noites para sua "lua de mel". 
Sempre que chega maio, uma doce lembrança me envolve... Uma música, uma imagem, uma saudade... Meu pai, dedilhando ao violão, uma canção de Silvio Caldas, que era um de seus cantores favoritos, e que, cantarolando baixinho,  me encantava:

"Tardes de maio
céu azul, nuvens raras
Tardes de maio
são as tardes mais claras
E Rosa vai rezar
pedir numa oração
alguém para morar
Em seu coração."

Eram tão singelos os desejos das Rosas de então!... 

(Numa tarde de dezembro)

Não, não fui uma noiva de maio. Casei-me num dezembro, numa linda e ensolarada tarde de domingo. Esperar maio chegar seria tempo demais para dois corações apaixonados que viviam fisicamente tão distantes, eu em São Paulo, ele em Belo Horizonte. E quando maio chegou, lindas foram as suas tardes.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Um canto de amor e de saudade...


Rodrigo é um dos meus amores; sobrinho/afilhado, sempre muito carinhoso e atencioso, filho exemplar, paí atento e amoroso, um orgulho para  esta velha tia que o quer tão bem. Pois ontem este "menino" conseguiu comover, emocionar, a mim, com um pequeno texto-homenagem escrito para seu pai, amado irmão meu, que nos deixou há já dezesseis anos,  deixando atrás de si um rastro de amor e de saudade imorredoura. 
Com meu coração e minha alma inundados de  saudade, sem poder conter as lágrimas, achei por bem trazer esse amor/saudade de um filho por seu pai aqui para o Prosa, para que possa, eu também, através dele, cantar o amor que o Walter deixou em nós. 


"Apenas um desabafo!

Mais um dia de saudade, porém um dia é diferente do outro, uns mais, outros menos, e assim vamos levando a vida!
Hoje em especial, só queria pegar meu violão e sentar na varanda da casa de meu Pai, acompanhado de meus filhos que tanto amo e esquecer de tudo, queria ver o sorriso de meu Pai estampado no rosto ao escutar a primeira nota seguida de "Vejam só que festa de arromba", ou "Yesterday, all my troubles seemed so far away'...
Nós cantaríamos juntos e meus filhos pensariam - nossa, que músicas "da hora", estas!. Já estou até ouvindo meu pai dizendo - isso é música boa, não o que esta molecada escuta hoje (Risos). Ficaríamos lá o dia todo, sem pensar em mais nada. E sentados na varanda daquela casinha pequena e aconchegante, o mundo pararia por um instante e seria perfeito!
Mas a vida nem sempre é feita de bons mmentos, os caminhos nem sempre são flores, sabemos disso...
Pai, hoje todos os acordes de meu violão são para você, pois hoje é mais um dia de saudade!


(Rodrigo Mobilon Gonçalves)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

E porque hoje é domingo...


Porque hoje é domingo e o dia amanheceu azul, com sol esparramando-se pela cidade, dourando telhados, cantos e jardins, a vida desperta em seu esplendor, como se não houvesse maldade nem tristeza por sobre a face da Terra... 
Porque hoje é domingo, sempre um dia de saudade, o coração fica apertadinho no peito, as memórias chegam quase que incontroláveis, trazendo gente, lugares, cores, sabores, luzes e sombras, como uma batelada de sentimentos... E a alma vai lá fazendo sua triagem, escolhendo o que quer abrigar em dia tão lindo... 
Com tanta luz, com a música de Bethânia inundando a sala, como permitir dor neste domingo? Pouco a pouco as lembranças vão se aquietando e dando lugar à serenidade do tempo bem vivido, ao doce sabor de momentos que trouxeram amor ao coração, num agradecimento a Deus e à vida por uma jornada que tem sido única...
E porque hoje é domingo, tenho-o comigo, em sua ausência, sentindo-me ternamente enlaçada por seus braços, ouvindo ainda sua voz. Sinto seu carinho, esse carinho que ficou em mim, e desvaneço-me em terna saudade...
Só porque hoje é domingo!...

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Como, às vezes, a vida é estranha!...


Acordo com o barulho da chuva que cai sobre o telhado, forte, farta, molhando a cidade, encharcando a terra vermelha deste lugar que foi outrora propriedade de um dos "barões do café", a Fazenda Chapadão, da qual tanto ouvia meu pai e meus tios falarem nos doces tempos de minha meninice. 
Nas noites frias, reunidos em torno da velha mesa de carvalho, naquele casarão que me viu nascer e crescer, na prospera Paulicéia, a mesma que Mario de Andrade chamou de "desvairada", mas que para aquela família representou a esperança de dias melhores, encantava-me ouvir histórias e mais histórias do passado daquela família de imigrantes portugueses, vindos da Ilha da Madeira em busca de um sonho em terras brasileiras... 
Lembravam até com uma certa nostagia dos doces  e árduos dias de sua juventude passada no interior do estado, como colonos em uma fazenda de café;  já casados, filhos crescendo, meu pai e meus tios gostavam de contar casos, histórias, de rememorar os sábados de sua mocidade, quando percorriam quilômetros e quilômetros a pé, para poderem participar dos bailes que os colonos da antiga fazenda organizavam rotineiramente. Aqueles bailinhos dos sábados à noite, que se prolongavam pela madrugada, eram uma das poucas formas de lazer daqueles jovens que, desde meninos, trabalhavam na roça, com os pais que ali haviam chegado, como tantos e tantos outros, para suprir a mão de obra escrava após a abolição, algumas décadas atrás. e que iam cumprindo suas tarefas de sol a sol, de segunda a sábado, sem esmoorecer, esperando o momento certo para partirem para uma cidade grande em busca de uma vida melhor, menos dura. E partiam, posteriormente, como aconteceu com a família de meu pai, numa esperança que se ia perdendo pouco a pouco, nas dificuldades que eram muito maiores na difícil adaptação a essa nova forma de vida.
Mas, acostumados a enfrentar as vicissitudes da vida, iam vencendo pouco a pouco os obstáculos, iam se adaptando, acabando por realmente desfrutarem de uma vida menos árdua e, o que eles consideravam mais importante, podendo propiciar aos filhos a chance de estudos, de crescimento, de escolhas.
Ouço a chuva cair lá fora, confortavelmente instalada no quarto que me acolhe quando aqui estou, lembro com imensa saudade das noites de minha infância, de meus pais, de meus tios, de tantos momentos lindos, meu coração vai se sentindo afagado por essas lembranças, e não posso deixar de dizer para mim mesma que a vida é estranha, mesmo... Quando é que meu pai poderia supor que um dia, tantas e tantas décadas depois, um de seus netos moraria em terras da "Chapadão", que sua filha passaria uma madrugada de muita chuva, abrigada no amor de seus amores, escrevendo sobre aquelas noites de sábado de sua juventude?... Quando?

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Com a chuva fustigando a vidraça...


Acorda com o barulho da chuva fustigando a vidraça e do vento forte castigando as árvores do bosque. Enrodilha-se mais entre os lençóis, imaginando o frio lá do lado de fora da casa, sem abrir os olhos, tentando, em vão, não espantar o sono. Mas em sua cabeça começam a surgir lembranças de outras noites como esta, de acordar assim do nada, assustada sem saber por que, noites em que bastava estender o braço e, num abraço, envolver a figura forte dele, que ressonava tranquilamente a seu lado, num sono profundo, para se sentir segura, protegida dos medos que uma noite de tempestade pudesse trazer. Estendeu o braço para o nada e sentiu o vazio dentro de si... Fazia tantos anos que ele partira e ela não se acostumara com essa ausência, ainda buscava a ternura de seu abraço nas noites de insônia, nas madrugadas vazias e, ao abraçar o nada, entendia o quanto fora preciosa a vida com ele, o quanto aprendera, o quanto amara e fora amada, o quando vivera...
Afastou as cobertas, envolveu-se no roupão que deixara aos pés da cama e foi até a janela. Sempre gostara de chuva, sempre sentira um grande prazer em ve-la cair por sobre a cidade, isso a acalmava. Diferente de quando estava em sua casa, quando as luzes da cidade, refletidas no asfalto molhado das ruas, traziam romantismo a noite, a cidade pouco iluminada que via agora pela janela parecia-lhe um tanto soturna. Em casa, prepararia um chá, colocaria música no ambiente, desfrutaria de mais um momento de paz entre doces recordações, daria asas a alma para que ela voasse pelo tempo e pelo espaço em busca dessa paz...
O relógio mostrava que a madrugada caminhava para o amanhecer, um amanhecer molhado e cinzento, abrindo um dia frio. Sentou-se na poltrona a um canto do quarto, acendeu a luz ao lado, abriu o livro que estivera lendo antes de dormir e mergulhou em sua leitura, esperando pelo momento de reiniciar o novo dia...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Folhas verdes num rigoroso inverno...


As valentes folhinhas tentam sobreviver ao frio outono...

Num dia muito azul, dia que amanheceu com os termômetros assinalando dois graus negativos mas com o sol derramando-se por sobre a cidade, o bosque toma um ar de primavera, e só o barulho das máquinas recolhendo as folhas caidas sobre o gramado quebra um pouco a paz do momento.
Agasalho-me bem, envolvo-me em cachecóis e gorros, luvas e casaco, para sair, para dar uma pequena volta por aí, apenas para sentir mais de perto a beleza do dia. Entro no bosque, sinto as folhas craqueando sobre as solas de minhas botas; não se ouve um canto de pássaros, pois já partiram em busca de um clima mais ameno, e os esquilos, cujos pelos já tomam a coloração mais clara do inverno, como camuflagem, esquivam-se silenciosamente por entre as árvores. Árvores quase desnudas, tristes sem a beleza de suas cores, de suas folhas. E entre tantas folhas ressequidas, lá estão ainda umas folhinhas, verdes, tentando sobreviver ao frio, tão valentes como certas pessoas que, parecendo terem nascido para o sofrimento, não se deixam levar pelas intempéries da vida e vão seguindo seu caminhar, sempre tentando alegrar os caminhos dos que vivem em torno delas. Não sei porque as folhas isoladas num galho que parecia seco lembraram-me essas pessoas, gente que vai sempre em frente, apesar dos pesares, que sorriem quando suas almas estão em frangalhos, que tentam amparar quando mais necessitam de amparo... Pessoas raras, não teria muitas para citar, mas a lembrança de uma prima muito querida surge diante de mim, com seu sorriso aberto emoldurando olhos de certa tristeza... Carinhosamente a chamamos de Belinha, um nome frágil para uma pessoa que sabe ser forte na vida. Folha que permanece verde, mesmo transitanto por um rigoroso inverno dessa mesma vida...

domingo, 30 de maio de 2010

O doce maio vai se despedindo...


O mês de maio já vai terminando... E vai levando com ele os lindos e ensolarados dias, tão frescos, tão azuis, as tardes amenas, feitas para sonhar... E junho vai chegando enfarruscado, prometendo cinza, anunciando a chegada do inverno. Nos meus verdes anos, junho era sinônimo de muito frio, dias garoentos, noites geladas, Noites que eram aquecidas por pesados edredons, que chamávamos de acolchoados, carinhosamente feitos por minha mãe, com muita paina e forrados por um tecido de algodão de estampa alegre. Tão quentinhos... Como quentinhas eram as meias de lã que ela tecia nas suas cinco agulhas, curtas e sem ponteiras, sem emendas, feitas com muita maestria. Quando o frio dava seus sinas de chegança lá ia ela ao armarinho escolher as lãs que a entreteriam durante boa parte do inverno, na confecção das meias que aqueceriam os pés de sua familia. E não só as meias e os edredons. Blusas, sueteres, coletes, cachecóis, tudo o que pudesse aquecer-nos, sempre foi tecido pelas mãos habilidosas de minha mãe. Fecho meus olhos e, lá está ela, após o almoço ou a tardinhs, casa impecavelmente arrumada, sentada em sua poltrona, um lindo xale que trouxera de seu amado Portugal cobrindo-lhe os ombros, ouvidos atentos aos capitulos das novelas que eram transmitidas pela Radio São Paulo, mãos ágeis correndo sobre a lã, manuseando as agulhas, fio de lá enrolado no dedo para mante-lo sob correta tensão, fio que passava pelo pescoço, enquanto eu, na mesa ao lado, fazia meus deveres de casa... Ao se aproximar a hora do jantar, encaminhava-se para a cozinha onde preparava sopas maravilhosas que nos aqueceriam e alimentariam, a cada noite uma sopa diferente, servida com pão quentinho e muita alegria, muito carinho...
Doces e aconchegantes foram os gelados dias dos junhos de minha infância... Por isso, quando maio vai terminando, é quase impossível deixar de saudar junho com um quê de saudade.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Vocês gostam de fotos antigas?


Maria Antonieta, minha nora, que me conhece muito bem, sabe o quanto eu gosto de antiguidades, sabe do respeito que eu tenho pelas coisas do passado, e sabe o quanto me enlevam as fotos antigas.
Sempre que recebe algum e-mail referente a isso ela tem a gentileza de encaminha-lo para mim, como o fez ontem. Fotos lindas, engraçadas ou curiosas, fizeram-me rir, levaram-me pelo tempo até a minha adolescência com a foto do Tony Curtis, mexeram com meu coração com as de Marlon Brando e Elvis, evocaram tramas políticas com a da Marilyn ao lado do JFK, mas a do Sean Connery!!! My God!... Que fotinho mais comprometedora... Diria mesmo, suspeita!... rs... E pensar que uns tempos depois ele seria o primeiro, o mais charmoso e carismático James Bond do cinema, aquele machão incontestável, sedutor... U-la-la!... O que uma criatura não faz para alcançar a fama... rs...
Nem digo mais nada, apenas convido-os a olhar algumas das deliciosas fotos do e-mail. Ah, sim... E vejam que lindinhos os Beatles ainda adolescentes, tão comportadinhos, em nada fazendo antever a revolução que causariam no mundo...

(Clique na imagem para ampliar)

terça-feira, 30 de março de 2010

Viajando pelo tempo...

Alguns dos leitores deste blog que, como eu, têm “um pouqinho” mais de cinqüenta anos (rs) talvez já tenham recebido um arquivo PPS, sobre os comerciais nos anos dourados denominado Teste de DNA (Data de Nascimento Antiga) - e, certamente, riram com saudades daqueles bons tempos, tão simples, singelos, até. Pois recebi, por e-mail, esse arquivo acompanhado por um texto, que me levou num lindo passeio pelo tempo e que gostaria de partilhar com vocês. - Se passei no teste? Claro que sim... Com louvor! rs... Vivi tudo isso e muito mais. E foi um privilégio. Mas, passemos ao texto:


(Jeca Tatu antes do Biotônnico e Coca Cola em seus primórdios... rs)


“Dentre os 45 casos listados (no PPS), eu vivenciei todos. Do Grapette, leite em vidro (Campinas era Leco e não Vigor), Pomada Minâncora (por sinal tenho uma latinha pela metade até hoje), anágua, Gillette Azul, caderneta de armazém, cera Parquetina (quem são os amigos da Etelvina? Cito Pox e Parquetina), Leite de Colônia, Biotônico Fontoura, até coisas que ainda subsistem como carrinhos de rolimã, queimada...

Cada produto destes (e tantos outros não presentes no anexo, como Pílulas de Vida do Dr. Ross, Xarope São João, Phimatosan, Rum Creosotado), deu sua contribuição ao conhecimento e à melhoria da sociedade da época. Eram mensagens simples, fortes, diretas, fáceis de entender e absorver, lastreadas em boa sonoridade e excelente poesia. Obviamente, à luz das evoluções havidas, hoje não se aceitam certas verdades apregoadas, porém na época era assim.

Vejamos, por exemplo, o Biotônico Fontoura, que se tornou um case de marketing. Cândido Fontoura era um farmacêutico de Bragança Paulista e, como todo bom farmacêutico da época, fazia lá suas alquimias. Assim, preparou uma mistura à base de álcool, ervas e sais de ferro para tratar de sua mulher que, anêmica, não tinha apetite. Outras pessoas souberam e foram pedir o mesmo elixir. Vista a aceitação, bastaria divulgar. Quem poderia fazer isso? Seu amigo José Bento de Monteiro Lobato, de Taubaté...

Como o amarelão era a doença predominante, as pessoas andavam descalças e as necessidades eram feitas onde se estivesse no momento, Candinho logo percebeu que educar trabalhadores e homens da roça no uso de botinas era a melhor arma contra a verminose, acoplada ao seu elixir contra anemia. Estava ali o quadro com o qual um criador de propaganda sempre sonha. E Monteiro Lobato foi fulminante: criou desenhos dos animais caseiros todos usando botas: galo, peru, porco... Anúncios nos principais meios da época, sem se esquecer dos almanaques.

Se não bastasse essa contribuição aos usos & costumes, mais tarde a indústria fundada por Cândido Fontoura associou-se à Wyeth e viria a ser a primeira fábrica de penicilina da América do Sul (Via Anchieta, SBC, que tive o privilégio de conhecer), cuja inauguração contou com a presença do próprio descobridor, Sir A. Fleming.

Na minha mente ainda ecoam os versos musicados do anúncio: b–a BA, b–e BE, b–i BI, O TÔNICO FONTOURA!

Enquanto o rádio era a mídia mais forte, haviam outras de grande respeito também, entre elas os painéis dos bondes. Enquadravam-se como nacionais e produtos anunciados em São Paulo & Rio eram concomitantemente anunciados em Campinas, Santos e outras cidades. Se fosse selecionar o texto mais conhecido e atrevido, diria o do Rhum Creosotado, da autoria de Manuel Bastos Tigre, poeta e publicitário pernambucano, considerado também por suas sacadas humorísticas:


Veja, ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
E no entanto, acredite.
Quase morreu de bronquite
Salvou-o o Rhum Creosotado.

Nos anos 50, esses versos habitavam todos os bondes. Sentado em qualquer banco, tinha-se de ler esse reclame afixado na parte interna superior, geralmente ao lado do marcador do número de passageiros. Cada vez que alguém pagava, o cobrador acionava a maquineta que fazia um tlim-tlim. Querendo ou não, o olhar sempre se erguia e novamente a poesia era lida... Consta que Bastos Tigre foi também criador do slogan “Se é Bayer, é bom...”

Este tema daria para gastar todo o tempo que se queira...”

(Clóvis Gouvêa)

Obrigada, Clóvis.

sábado, 27 de março de 2010

Simplesmente Elza...


Ela foi uma menina linda, olhos brejeiros, cabelos cacheados, sorriso encantador, o encanto de seus pais, tios, avós... Mas tinha alma rebelde, inconformada, muito além de seu tempo, alma que queria partir grilhões, ganhar o mundo, só que os tempos eram outros e as convenções sociais atavam as mulheres (moças ou velhas) a grilhões que lhes prendiam os passos e limitavam os sonhos, e quanto mais audaciosos, mais atados.
Ela cresceu tentando desatar amarras, mas numa decisão errada, movida pela paixão ou, quem sabe?, pela própria ânsia de liberdade, acabou presa a um casamento desastroso que fez dela uma mulher nada feliz. Mas nunca apagou o lindo sorriso, nunca reclamou da triste situação que a envolvia, do desamor em que sua vida ia empalidecendo, nunca deixou de lutar. Uma luta inglória que acabou por minar suas forças e que a levou tão cedo da vida...
Já se passaram mais de três décadas desde a sua partida, mas ainda hoje eu a tenho comigo em conversas que travo com o passado, nas madrugadas vazias. Lembro tão bem daqueles doces momentos que povoaram minha infância, de seu riso alegre, de sua voz afinada, de seus olhos penetrantes, de seu rosto querido, e é como se os tivesse visto ainda ontem. E, fechando os olhos, consigo resgatar a imagem de uma jovenzinha esfuziante que afastava a mesa do centro da sala, puxando a prima para que a acompanhasse nos passos de um tango de Gardel, ou de um bolero de Pedro Vargas, que iam inundando o ambiente, vindos do velho rádio colocado sobre o guarda-louças. E revejo a mulher linda que escondia a tristeza para não entristecer os que a amavam. Ouço ainda sua voz dizendo em tom de confidência, nas vésperas de meu casamento que, se eu quisesse ser feliz, deveria antes de tudo armar-me de muita compreensão, pois a vida parecia sempre tão incompreensível... E a saudade me envolve... Saudade de uma irmã tão amada, de uma mulher tão especial... Saudade de você, Elza...
Por isso, em nome dessa saudade, hoje este espaço está envolvido pelo som de tangos e boleros.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Tenho raízes por aqui...

Aproveitando o friozinho gostoso desta tarde, pequei na estante um livro que ainda não tinha lido e fui aconchegar-me em meu sofá predileto, para um bom momento de leitura. Afinal era José Saramago, um dos escritores de meu coração... E com ele fui passeando por Portugal, esse lugar para mim encantado, berço de minha família e de muitos e queridos amigos. E, de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, acabei por encontrar-me em Sacoias, terra de minha mãe, de onde ela falava sempre com muita saudade.
Confesso que a imagem aberta diante de mim por Saramago era bem diferente da que trazia em meu coração pelas histórias e fatos que minha mãe contava. Ela nunca me falou sobre uma aldeia triste, vazia... Ela contava histórias de uma menina que corria solta pelas ruas entre casas de pedra, que pastoreava ovelhas nos campos, de uma família que se reunia numa enorme cozinha, em volta do lume, nas noites de rigorosos invernos, e eu fantasiava aquela infância tão diferente da minha...
De qualquer forma, hoje meu post é dedicado a minha mãe, com muita saudade, saudade que doi mais por saber que já não a tenho ao pé de mim para podermos comparar as visões - a dela e a de Saramago.
Deixo abaixo um parágrafo do livro para quem tiver curiosidade. E uma foto econtrada no Google...

(Sacoias - Trás-os-Montes, Portugal)

"... Logo a saída de bragança, alí adiante, está a escura e silenciosa aldeia de Sacoias. Entra-se nela como em outro mundo. Vista a disposição das primeiras casas, a curva que o caminho faz, dá vontade de parar e gritar: - Está alguém? Pode-se entrar? - O certo é que ainda hoje o viajante não sabe se Sacoias é habitada. A lembrança que guarda deste lugar é a de um ermo, ou, talvez mais exactamente, de uma ausência. E esta impressão não se desfaz mesmo quando lhe pode sobrepor uma outra imagem quando já vinha de regresso, de três mulheres dispostas de maneira teatral nos degraus de uma escada, ouvindo o que, inaudivelmente para o viajante, outra lhes dizia, enquanto suspendia a mão sobre um vaso de flores. Tão parecido isto é com um sonho que o viajante, afinal, chega a suspeitar que nunca esteve em Sacoias."

(José Saramago - Viagem a Portugal)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Momentos que o tempo guardou...

(Retalhos de minha vida)

A semana já vai ao meio, o mês aproxima-se do fim... Ah, a implacável passagem do tempo, esse tempo que parece acelerar seu caminhar... E aqui sentada, entre fotos que tento transpor para meus arquivos, essa sensação de fuga do tempo é ainda maior... São fotos antigas, em branco e preto, trazendo de volta ao meu coração um tempo de alegrias e despreocupação bem ao jeito das meninas de outrora, das meninas que brincavam de roda, que pulavam amarelinha, caracol, que passavam anéis, que corriam pelas ruas do velho bairro... Fotos de uma jovenzinha que nem tinha grandes sonhos, mas que sabia sonhar o suficiente para enternecer sua alma... E com as fotos, as lembranças, as presenças, as saudades. E as imagens das fotos tomam corpo e inundam minha manhã... Minhas doces amigas vêm fazer-me companhia e falamos sobre nossas vidas. De algumas sei o destino, de outras o destino me separou. Lembrando esses caminhos tão doces de nossa meninice, de nossa juventude, rimos e choramos. Aqui nesta foto a Neyde sorri, sem imaginar o quão cedo esse sorriso se apagaria. Nesta outra, com a Zizinha sentadas sobre a relva do parque, vestidos lindos de domingo... Ah, aqui estão a Ruth e a Zeza num desfile escolar de Sete de Setembro... Minha irmã, já mocinha, tão linda nesta foto!
Esta era eu? Menina meio gordinha, meio desajeitada, tímida, sonhadora desde então, menina que ao transpor a adolescência viu um dia, encantada, sua imagem refletir-se esbelta no espelho de seu quarto, quase sem acreditar na mudança, menina que foi pouco a pouco se tornando mulher, mulher que enfrentou a vida, caminhou por ela e envelhece hoje senhora de si, serenamente, com a sensação de que foi um caminhar nem sempre sereno e doce, mas muito compensador.
E continuo aqui, entre as fotos, entre as presenças amigas, entre as lembranças, mergulhada numa doce saudade, enquanto lá fora o sol se espalha pela manhã desta quarta-feira, já quase no final deste primeiro mês deste novo ano...