floquinhos

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

No Dia dos Professores, meu carinho...

(Uma de minhas primeiras professoras - Foto clássica nas escolas de "antigamente")

Comemora-se hoje, no Brasil, o Dia dos Professores.
Quem de nós não tem dentro de si uma imensa gratidão por seus mestres? Quem de nós não tem na memória a imagem de um professor predileto, de um professor que nos ajudou a escolher os caminhos que iríamos percorrer, com seus ensinamentos, com seus exemplos de dignidade, de sabedoria, de abnegação?
Por isso hoje o Prosa abre espaço para homenagear essa classe tão sofrida, mas sempre nobre, com um agradecimento enorme a cada um deles que faz de sua vida exemplo de luta e dignidade em prol da comunidade a que pertence.
Registrando a imensa saudade que sinto dos meus professores, mestres e exemplos de vida que foram, ao longo de minha caminhada, deixo meu abraço especial e meus parabéns a todos os professores que, sendo leitores e amigos do Prosa, sempre nos honram com sua presença, com sua amizade.

Parabéns, Professor(a), pelo seu dia.

E, "Lembrando minhas professoras", uma crônica escrita com o coração, há alguns anos:

Final de inverno, o sol brilha radioso por entre os prédios, dando á tarde que começa a cair um nostálgico tom de primavera e o som das crianças que deixam a escola após mais um dia de aulas enche o ar de alegria e musicalidade... Como pássaros que tivessem ficado retidos em gaiolas, ganham a rua como se ganhassem a liberdade dos ares sem fim, rindo, falando, gesticulando, algumas até se despicando, e vão passando por sob minha janela trazendo a meu coração lembranças de tardes iguais a estas onde, como elas, despreocupada, trazia em mim tantas esperanças no porvir...

Vejo as crianças de hoje com tantos afazeres, tantas opções de lazer, tantas escolhas, que não posso deixar de comparar os caminhos que se abrem diante de meus netos com o que tinha aberto diante de mim. Meu caminho não tinha atalhos nem muitas saídas. Crescendo num bairro operário, povoado por imigrantes que, devido às dificuldades da vida, nunca tiveram tempo nem chance para estudos, às crianças do Brás não era exigido mais do que uma nota mediana que as fizessem passar de ano; não tinham o privilégio de crescer entre livros nem de ouvir histórias da humanidade; Os pais mais “cultos” tinham por hábito a leitura de jornais (na maioria das vezes, esportivos), e assim, os pequenos sequer sabiam que com um pouco de esforço poderiam, talvez, chegar a estudar um outro idioma ou mesmo ter acesso a bibliotecas, exposições, museus, dando às suas almas o alimento indispensável para uma compreensão maior e melhor da vida.

Nossos horizontes eram tão limitados que o sonho maior de uma garotinha, quando o tivesse, era o de ser professora, porque sua professorinha era a pessoa mais importante que ela conhecia, não por ser quem lhe ensinasse as primeiras letras ou a tabuada, mas porque ninguém, aos olhos da criança que a comparava com as pessoas que a cercavam, sequer chegava aos pés daquela abnegada mulher que dedicava sua vida á formação dos pequenos seres que lhe eram confiados. Ser professora, naqueles tempos, era um privilégio, embora sua vida não fosse nada fácil, porque o salário era pequeno, o que a obrigava a viver modestamente, mas sempre com muita dignidade. Por isso, eram olhadas com admiração e respeito. Certamente ainda encontramos, nos dias de hoje, muitas e muitas professorinhas com o mesmo senso de responsabilidade, com o mesmo ideal de vida daquelas maravilhosas mulheres que ajudaram a formar caráter e a moldar o destino de várias gerações.

Tenho especial carinho por minha primeira professora, Dona Adelaide, uma senhorinha delicada que usava de muita autoridade e firmeza no trato com os alunos, sem perder a doçura da voz. Através das brumas do tempo, posso vê-la ainda, cabelos grisalhos, arrumados num coque preso à nuca, óculos que não conseguiam esconder a vivacidade de seus olhos e, não sei se realmente usava sempre roupas escuras mas é assim que me lembro dela, num vestido de seda azul marinho com florinhas brancas estampadas, mangas compridas, gola arredondada, presa por um camafeu. Mas o que me intrigava muito era o fato dela colocar outro par de óculos sobre os que sempre usava, para poder ler de perto. Aquilo para mim era surpreendente e a característica principal dela, pelo menos naquela época. Tive algumas outras professoras que também ficaram carinhosamente guardadas em minha memória, como Dona Mocinha, Dona Odete, que como Dona Adelaide eram também mestras do Grupo Escolar Romão Puiggari no final dos anos 40, início da década de 50. Depois fui para a Escola Industrial Carlos de Campos onde, além das matérias regulares, tínhamos também formação profissional e onde tive também professoras que marcaram minha vida, como as duas professoras responsáveis pelo curso de flores, e que eram o total oposto uma da outra. Enquanto uma era delicada, gentil, de fala mansa e olhar tranqüilo, a outra era extrovertida, bem falante, e parecia trazer um vulcão dentro do olhar. Claro que temperamentos tão diversos, só poderiam gerar conflitos que quase sempre eram diluídos mercê a mansidão de alma da primeira. Mas um dia, as coisas chegaram a um ponto sem volta e explodiu uma guerra de palavras trocadas entre lágrimas e sussurros de uma e gritos e gestos de outra que, não se conformando com as lágrimas que rolavam pelo rosto da opositora, que aos olhos das alunas poderia fazer dela uma vítima, saiu da classe vociferando:

- Lágrimas de crocodilo!... Agora se faz de vítima e derrama lágrimas de crocodilo!... Crocodilo? Não, crocodilo é muito pra você...

E buscando lá no fundo da alma suas raízes espanholas, encheu o peito e, mãos na cintura, bradou em alto e bom tom antes de virar as costas e sair desabaladamente em direção à porta da oficina de aula:

- Lagartija!... Lagartija!... Eres una lagartija...

Minhas queridas mestras! Saudades imensas de todas essas mulheres a quem devo grande parte de minha formação e que trago presentes em minhas lembranças... Como gostaria de poder abraçar cada uma delas e agradecer pela parte de meu caminho que lhes coube e que elas tão bem souberam aplainar para que meus passos fossem mais seguros em direção ao dia de hoje!...

14 comentários:

Dora Regina disse...

Dulce, os professores merecem todo nosso respeito e admiração.
Eu, com muito carinho me recordo da minha primeira professora, tenho uma foto como essa sua, acho o máximo...
Um grande abraço! Bom fim de semana!

Dulce disse...

Dora Regina

Merecem sim, Dora. Pena que nos dias de hoje grande parte das crianças não sejam mais ensinadas a respeitá-las, a admirá-las e a serem gratas a elas pelo trabalho tão importante que lhes é dado fazer.
Beijos, bom fim de semana para você também.

Luis disse...

Minha Boa Amiga Dulce,
Também prezo a memória dos meus professores! Foram eles que com o seu saber e muita paciência nos fizeram homens e mulheres!
Hoje em dia os professores não têm sido acarinhados e no futuro ver-se-á o resultado nas novas gerações...Estarão elas à altura das suas obrigações???
Um abraço amigo.

Dulce disse...

Luis

Pois é, meu amigo, também temo por isso...
Espero que nossos governantes e nossos educadores se dêem conta disso e consigam mudar o curso da história, porque do jeito que vamos indo, sei não...
Um abraço e obrigada.

Lídia Borges disse...

Deliciosa narrativa!

Uma bela homenagem passe a imodéstia, pois que também eu me sinto homenageada. Não tenho nenhuma dessas fotografias enquanto aluna, mas tenho muitas como professora e, cada grupo de crianças à minha volta, é um universo de histórias, de saberes que vai compondo o livro em que aprendo, cada vez melhor, a Vida.

Um beijo

Graça disse...

Grata pela visita doce Dulce.

Abraços,

e vamos lecionando!!!

Linda homenagem!!!

Pitanga Doce disse...

Mandei logo de manhã uma mensagem para o meu professor preferido que vive em Brasilia. Tão jovem que mais parece um aluno, mas tão querido pela turma.

Abraços a quem partilha o saber. Hoje e sempre.

Vai seguir mail

Paloma disse...

DULCE,quantas vezes ,ao longo da vi
da,tenho me lembrado de vários pro-
fessores, pela imensa importância
que tiveram na minha educação e na
formação escolar. Hoje,infelizmente
as crianças mal conhecem a palavra
¨professor¨.Habituaram-se a chamar
de ¨tio¨. E nem o respeito pelo
mestre é o mesmo.
Beijos.

Dulce disse...

Lidia Borges

Essas fotos tão antigas são minhas relíquias pois guardam lembranças de um tempo, de tantas pessoas queridas. Professoras, colegas de classe, amigas queridas que vivem ainda em minha memória e que relembro com ternura e saudade.
Beijos

Dulce disse...

Graça

Lecionando e cultivando momentos...
Homenagem muitissimo merecida, mesmo!
Sou eu quem agradece, Graça.
Beijos

Dulce disse...

Pitanga Doce

O dia é especial, dedicado a pessoas especialíssimas... E que Deus os proteja, os abençoe, sempre.

Recebi e-mail, li e deixo para responder amanhã, com calma. Já é quase meia-noite, o sono está batendo por aqui... rs... Ah... já não acontecem mais madrugadas como antigamente por aqui... rs...

Beijos

Dulce disse...

Paloma

Pois é, os dias são outros, os tempos são bem mais difíceis para os mestres, infelizmente. Parece que grande parte dos pais não anda mostrando aos filhos o real valor de um professor na formação de seus filhos... Lamentavelmente...
Beijos e uma boa noite.

Isa disse...

Bom dia! Querida Dulce,tocou-me o seu texto e,ao mesmo tempo,senti-o um pouco meu porque tb sou Professora,amo o que faço e orgulho-me do meu percurso.
Adoro quando escreve.Vem da alma linda que tem.
Beijo.
isa.

Dulce disse...

Isa

Uma nobre missão, minha querida amiga que, tenho certeza, você desempenhou (desempenha) com amor, dando o melhor de si. A homenagem é, pois, para você, sim, com amizade e carinho.
Beijo e obrigada.