
O dia amanheceu frio, chuvoso, meio triste. Um sábado para se ficar em casa, um bom livro, um filme, um momento de paz... Ainda mais que a cidade anda tranquila, vazia, porque em pleno feriadão. Olho pela janela e a beleza da chuva fina caindo sobre os telhados e os jardins das casas do outro lado da rua me encanta, enche minha alma de melancolia e a voz da Bethânia toca lá no fundo, despertando um romantismo incurável, um romantismo que tento manter sob controle nesta altura da vida mas que, mais forte que eu, às vezes quase me sufoca. Fecho meus olhos e viajo pelo tempo, pelo espaço, ares e mares, tudo se confundindo dentro de mim...
E este raio de sol teimoso e fugaz que resolve romper as nuvens cinzentas e chega até mim como um abraço, tentando aquecer-me a alma?... E como por encanto a chuva vai parando, o dia parece ficar mais claro, mas só parece, exatamente como minha alma que só parece andar em paz... só parece...
Volto as costas para um sol que não consegue aquecer, sento-me em minha poltrona preferida, abro um livro de Cacília e, coincidência?, o poema que leio é...
Quem tivesse um amor
Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!
Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!
Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormentes e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! quem tivesse... (Mas, quem teve? quem teria?)
(Cecilia Meireles)






