floquinhos

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cadê meu doce amanhecer?...


A janela dormiu escancarada, trazendo a brisa fresca da noite para dentro do quarto. O sono custou a chegar, só resolveu envolver-me quando a madrugada já vinha alta. Acordo estremunhada, incomodada pelo barulho a que já me desacostumara em tantos meses de doce silêncio ao amanhecer, onde nem os pássaros do bosque ali haviam ficado para a cantoria matinal, premidos pelo inverno. Uma sirene estridente rasga o ar, uma buzina insiste em anunciar que algum motorista impaciente tem muita pressa, o ronco de um caminhão cujo motor deve estar desregulado faz coro a um sinal irritante avisando que ele está em manobras na construção logo mais abaixo, na rua, um cachorro resolve latir sua solidão num quintal vizinho ao condomínio... Meu Deus, que barulho infernal!... Cadê meus bem-te-vis que, com seu canto peculiar me serviam de despertador? Cadê o canto dos pássaros que anunciavam o dia, em algazarra? Cadê meu amanhecer no terraço a espera da chegada do beija-flor assustado, que mal sugava umas gotinhas do néctar sempre colocado no bebedouro, antes de sumir de novo nas cores da manhã? Cadê minhas doces manhãs? Parece que foi feito um complô, um comitê de "boas vindas" da cidade para me trazer de volta, rapidinho, a uma realidade que eu havia esquecido, a uma agitação cotidiana que nem se percebe quando a ela estamos habituados... 
Preciso esquecer que ventiladores são aparelhinhos insuportáveis zunindo dentro da noite, num quarto abafado, cujas janelas devem ficar fechadas para isolar o irritante ruído de um dia que começa numa cidade que nunca dorme... Preciso traze-lo para perto da cama e aguentar o vento que vai e volta, vai e volta, refrescando o ambiente - e quem disse que gosto de vento? Gosto sim de uma brisa que passe docemente, de um soprar suave que traga o perfume das damas-da-noite a envolver a alma, de ventinho, enfim... Mas desse vai e vem, vai e vem, de um vento constante, acompanhado de um motorzinho que ronca irritante ao fundo... Ah, gosto não!... Entretanto, tenho que pesar os prós e os contras e admitir que, entre esse barulhinho do ventilador e o festival de ruídos que uma janela aberta num amanhecer de Sampa me oferece, melhor esquecer  o romantismo e deixar que a janela anti-ruídos (que para isso foi instalada) cumpra seu papel e traga um silêncio benfazejo ao despertar de mais um dia que se prenuncia meio nervoso nesta cidade que me fazia falta e que começa a me trazer saudade de outros despertares tão mais tranquilos. Afinal, o que me acordava todas as manhãs era o leve toque na porta anunciando a entrada do Philip no quarto, dizendo "bom dia, vovó, você dormiu bem?", enquanto debruçava-se sobre a minha cama para me dar um beijo, antes de sair dizendo "agora vou dar bom dia para a mamãe",,, 
Vocês hão de convir que as diferenças pesam... E como pesam... rs...

10 comentários:

Isa disse...

Tanta doçura com a sua assinatura!
Sim,pesam as diferenças e de que modo...
O "bom dia" terno,no seu caso do seu
Philip,no meu do Sebastião,a voz dos
que nos amam,da pureza desse Amor!
Quando o meu pequenino acorda aqui em casa,vem para o meu colo,acabar de acordar.
A Maria tb já gosta.
Adorei ler o seu coração,mais uma vez!
BFS.
Beijo.
isa.

Pitanga Doce disse...

Bem vinda "ao clube", minha querida. As diferenças não pesam. Elas gritam!!!

beijos e... tenho o rapaz por aqui. É tão bom para "abrandar" as diferenças!

Dulce disse...

Isa

Tão bom, não amiga, esses carinhos verdadeiros dos netos pequeninos?... Diria mesmo que é uma compensação que a vida nos oferece quando começa a ficar um pouquinho mais lenta, nostalgica...
Beijos, minha doce amiga e um lindo final de semana para você.

Dulce disse...

Pitanga Doce

Que bom, amiga! Curta, então, cada momento junto ao rapaz e que seu final de semana seja iluminado.
Beijos

Paloma disse...

DULCE, São Paulo e Rio, o mesmo ce-
nário, o mesmo ambiente. Até os ven
tiladores são iguais,no seu incomo-
do. Mas, cada lugar tem suas compen
sações, como o aconchego familiar.

Beijos

Dulce disse...

Paloma

Afinal, são nossos lugares, não é? Ambos pedaços de uma mesma terra, berço de um mesmo povo onde os sotaques ou mesmo uma ligeira diferença nas culturas de cada cidade só as torna mais interessantes...
Adoro essa diversidade brasileira, Paloma.
beijos

Antonia disse...

Adorei descobrir o seu blog, fico feliz por ainda existir pessoas com tamanha sensibilidade, as suas palavras, tanto na prosa como na poesia, mostram bem como é o seu coração!!! Amei,PARABENS!

Dulce disse...

Antonia

Muito obrigada, Antonia, pela visita, pelo comentário muito gentil. Seja muito bem vinda ao Prosa e saiba que é um imenso prazer recebe-la.
Mais uma vez, muito obrigada e tenha um lindo domingo.

Antonia disse...

Tambem sou uma avó "babada" como se diz aqui na minha terra em Portugal.Um bom domingo para a senhora.

Dulce disse...

Antonia

E como não ser babada?... Netos são tão especiais...