floquinhos

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Rosas pela manhã...

Juliana acordou com leves batidas na porta de seu quarto e, ainda sem despertar totalmente, mandou que entrassem e ao abrir o olhos deu com uma braçada de lindas rosas vermelhas que lhe era entregue por Alcinda com um sorriso no rosto e um amável "bom dia, dona Juliana. Acabaram de chegar para a senhora". Surpresa, sentou-se na cama e procurou um cartão entre as flores, mas antes mesmo de encontrá-lo sabia quem as enviara.

Pediu à criada que colocasse as rosas num vaso e que o pusesse sobre a cômoda e ficou ali, ainda envolta pelos lençóis, ainda achando que era um sonho...

Encontrara-o na tarde anterior, quando saia do banco, aonde fora conversar com o gerente sobre um pequeno investimento. Olharam-se com espanto, como se não acreditassem que, após quatro anos estavam ali novamente, frente a frente, como na primeira vez em que se viram... Naquele primeiro dia houve um esbarrão, papéis esparramados pelo chão, pedidos de desculpas, olhos nos olhos, uma troca de palavras amáveis, que acabaram na troca de telefones e um jantar uma semana mais tarde naquele bistrô. Mas ele estava sendo transferido para a matriz da firma aonde trabalhava e ao deixar o país deixou também um imenso vazio na vida de Juliana que os e-mails e telefonemas diários não poderiam preencher. E-mails e telefonemas que o tempo foi se encarregando de rarear até finalmente deixarem de acontecer, mas ela não passaria um único dia sem se lembrar dele, de sua voz, de seu olhar, de seu sorriso, de seu abraço carinhoso...

Por isso, ao encontrá-lo na tarde anterior, tinha sentido o chão fugir-lhe sob os pés, o coração disparado, como se quisesse saltar pela boca, um desamparo sem fim... E no abraço... Ah, aquele abraço compensara todas as horas de solidão e tristeza que seu coração lhe impusera. E durante horas, naquele café, falaram de suas vidas, de suas saudades...

E agora, ali, olhando para aquelas rosas, Juliana sentia a vida recomeçar. Havia uma sensação de paz em seu coração, uma sensação de caminho finalmente encontrado bailando em sua alma...


terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Meus Poetas do Coração - Flobela Espanca


Poetas

Ai, as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Dois livros, duas reações...


Continuo afirmando que escrever bem é para poucos...
Não tenho, absolutamente, a presunção de bancar a crítica literária, longe de mim esse "topete", não tenho gabarito para tanto, mas creio que posso dar minha opinião sem ser mal interpretada.
Meu filho tem como paixão a música e a gastronomia, além, claro, da medicina, que é seu trabalho. Quantas horas de nossas tardes de domingo costumam ser passadas nas grandes livrarias, no setor de gastronomia, procurando novidades e descobrindo segredos da culinária mundial através dos livros!... Geralmente, quando almoçamos fora, encerramos nosso passeio com uma visita às livrarias onde sempre se encontram curiosidades como, por exemplo um livro com receitas das "quitandas mineiras" servidas nos velórios, no interior lá das Minas Gerais. Explico: Em locais afastados das grandes cidades, aonde o costume de se velar os mortos em casa ainda permanece, costuma-se, lá pelo meio da noite, na cozinha da casa, ao redor do fogão-de-lenha, onde fica um fumegante bule de café à disposição dos presentes, serem servidas quitandas (da deliciosa confeitaria mineira, como broas, pães de queijo e outras delícias mais) além da cachaça que vai esquentando a noite. E entre um gole e outro, entre um café e outro, vão rolando histórias e estórias, dessas que o povo mineiro sabe contar tão bem e que, apesar do provável inverossímel, juram que é verdade. São "causos" engraçadíssimos, são narrativas que pretendem ser apavorantes, enfim, peças de uma rica cultura popular.
Pois juntando-se essas duas peças, o pitoresco das histórias narradas num velório e as comidas e bebidas lá servidas, só poderia resultar um bom livro que reuniria usos e costumes à uma culinária típica da região. Não poderia ser diferente. Ou poderia? Pois é... Poderia sim, e foi.
Tenho em mãos um livro que, mesmo com tudo para dar certo, deixa muito a desejar. Narrado de uma maneira fria, as histórias parecem sem graça, não prendem a atenção. Não há uma ligação entre as receitas e as histórias, um filão que poderia bem ser aproveitado. Enfim, um livro que ficou sem graça... Por isso disse no inicio que escrever bem é um dom para poucos.
Já num outro livro, maravilhoso, de outra autora, esta liga os poemas e a vida de Cora Coralina à culinária goiana de maneira cativante. É a arte de bem escrever... - Cora Coralina, Doceira e Poeta - este eu recomendaria sem titubear para que gosta de poesia, para quem gosta de culinária...

Nota: Cora Coralina, Doceira e Poeta (Cora Coralina / Claudia Scatamacchia)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Um pensamento...


"O passado não reconhece o seu lugar: esta sempre presente."

(Mario Quintana)

sábado, 9 de janeiro de 2010

E Elvis ecoou na tarde...

Elvis faria ontem, dia oito de janeiro, setenta e cinco anos. Um amigo que gosta tanto de suas músicas quanto eu, esperava encontrar aqui uma homenagem ao Rei. Descuidei-me, deixei a data passar (imperdoável) e fiquei assim meio triste, com um sentimento de faltar alguma coisa em meu dia, sentimento que ficou roendo lá dentro durante todo o dia de hoje. Sai para almoçar com meu filho e meus netos e, na volta, em plena Avenida Paulista, meu filho colocou um CD para tocar e, sem que eu esperasse, a voz do Elvis preencheu todos os espaços do carro e do meu coração... Foi lindo! Imaginem a Paulista sob chuva, os faróis dos carros refletindo-se no asfalto molhado e a voz dele ecoando lindamente nesta mesma música que deixo aqui para vocês, agora. Se a vida é feita de momentos, aquele foi, sem a menor dúvida, um lindo pedaço de vida...
Se o quiserem ouvir, por favor, desliguem a música (no final da página) e apertem play aqui no video.

Estar em paz com a vida...


O sábado amanheceu radioso, o sol espalhando-se por sobre a cidade, um calor típico da estação prenunciando que à tarde, novamente, teremos chuvas fortes. Bill repousa sonolento entre a primavera e o vaso de manjericão, cabeça descansada sobre as patas dianteiras esticadas, olhos semi-cerrados... Sentada no terraço, enquanto saboreio meu café da manhã, ouço o alarido dos bem-te-vis que se acomodam entre as árvores e os beirais, dando ao momento uma sensação de que o mundo caminha em paz... E se a vida é feita de momentos, este é, sem dúvida, um doce pedaço da vida...
Sempre precisei de muito pouco para me sentir feliz, para me sentir em paz com a vida e comigo mesma. Basta-me saber que meus amores estão bem, que meus amigos também o estão. Basta-me ter meu canto aonde possa cultivar meus sonhos, mergulhar em meus livros e em minhas músicas do coração, onde possa sentar-me em minha poltrona predileta e deixar minha alma divagar e vagar pelo mundo em busca de seus anseios, basta-me ser eu mesma, sem máscaras nem disfarces, senhora de mim e de meu tempo...
E é assim que estou me sentido hoje, agora, neste dia de azul intenso, de sol e calor, apesar dos prenúncios de chuvas fortes à tarde e de possíveis temporais pela vida a fora...

Um piano na tarde


Surdina

(Cecília Meireles)

Quem toca piano sob a chuva,
na tarde turva e despovoada?
De que antiga, límpida música
recebo a lembrança apagada?

Minha vida numa poltrona
jaz diante da janela aberta.

Vejo árvores, nuvens - é a longa
rota do tempo, descoberta.

Entre os meus olhos descansados
e os meus descansados ouvidos,
alguém colhe com dedos calmos
ramos de som, descoloridos.

A chuva interfere na música.
Tocam tão longe! O turvo dia
mistura piano, árvore, nuvens,
séculos de malancolia...