floquinhos

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Em viagem pelo tempo...


Sempre gostei de viajar no tempo, de ir lá no fundo de minhas memórias e de lá resgatar fatos, lembrar pessoas, reviver emoções. E sei que não sou só eu! Todas as pessoas com as quais convivo e que já tenham passado por mais de 50, 60 dessas estações do tempo, sempre me afirmam esse mesmo gosto.

     Meu marido e eu, por exemplo, costumávamos ficar, já em seus últimos tempos de vida, relembrando e rindo de situações que até nos haviam parecido difíceis quando de suas ocorrências, mas que então, vistas através de um outro prisma, multicolorido pela passagem do tempo, tornavam-se pitorescas, até engraçadas.
     Nos dias mais quentes do verão, buscando um pouco mais de frescor, costumávamos  sentar-nos no terraço, ao cair da tarde, em longas conversas, quando eu aproveitava para colher material abundante para muitas crônicas, ouvindo as histórias de meu marido que, como todo bom mineiro, era um maravilhoso contador de “causos”,  e coisas de sua terra. Numa dessas tardes,  por exemplo, falávamos sobre nossos netos, sobre como Gabriel, na época com  6 anos, um garoto carinhoso, gentil, amante da paz, tinha em seu pequeno irmão César, de menos de 4 anos, um defensor ferrenho, que sempre tomava sua defesa e que partia para cima de qualquer garoto que ousasse tentar agredir seu irmão. Como um assunto sempre traz outro, veio à baila uma história vivida pelo Bira que achei bem merecer uma crônica.



“Estudantes na Escola Agrícola de Barbacena, meu marido e meu cunhado, em plena adolescência, pequenos galinhos de briga, podiam ter lá suas diferenças, mas quando alguém mexia com um deles, estava comprando briga com o outro. 
Numa determinada tarde, Ubirajara, meu marido, estava jogando bolinhas de gude com alguns outros garotos quando um menino veio correndo até ele dizendo:
      -    Bira, corre lá ajudar o Danilo que o “Cobrinha” tá dando a maior surra nele!...
     Ao que meu marido teria respondido, todo cheio de empáfia:
     -    Vou só terminar esta jogada e vou mostrar pra’quele frangote o que acontece com quem se mete com a gente... 
     Dito e feito! Terminada a jogada, saiu correndo em defesa do irmão, mas... Levou ele também, a maior surra. O tal “Cobrinha” não era brincadeira, não! Humilhados, voltaram para casa jurando vingança, mas o tempo foi passando, eles foram crescendo, saíram de Barbacena, procurando novos rumos para suas vidas e o incidente ficou esquecido... Ou quase, porque no fundo de suas memórias havia o brio ferido, a humilhação de serem dois contra um e de terem apanhado pra valer.
     Anos depois, em visita à cidade, avistaram alguém que lhes era familiar que vinha descendo a rua. Os irmãos se entreolharam... 
     -    Mano, aquele baixinho ali, não é o Cobrinha? 
     -    Ele mesmo, Mano, o safado... Vamos lá dar um susto nele?
     Agora, homens feitos e já cheios de responsabilidade, aquela molecagem das brigas e dos desacatos já não fazia mais sentido. Queriam apenas fazer uma brincadeira com um velho camarada. Ambos muito altos, fortes, comparando-se ao antigo desafeto que não crescera tanto quanto eles, sabiam o que iria acontecer e já foram rindo por antecipação.        Aproximando-se cada um por um lado, caras fechadas, cenhos  franzidos, seguraram-no pelos braços, um de cada lado,  e foram logo dizendo:
     -    Eu sou o Danilo, lembra-se de mim?
     -    E eu sou o Bira, está lembrado?
      O outro, começando a empalidecer, preso entre aqueles dois homens que pareciam querer esganá-lo, gaguejou:
     -    Claro, claro que me lembro, mas o que houve?
     -    O que houve? Lembra daquela vez que você deu uma surra em nós dois?
     -    Não, não me lembro disso, não, gaguejou o indefeso Cobrinha... Imagine... Eu bater em dois amigos?... 
     -    Bateu sim e agora nos vamos tirar a forra...
     Dizendo isso e antes que alguma coisa pior acontecesse, explodiram em estrondosas gargalhadas e, abraçando o antigo desafeto, que ria aliviado, foram todos comemorar o encontro e a “vingança” numa rodada de cerveja num bar da cidade."

     Não seria maravilhoso se todas as vinganças terminassem assim?... 


PS : Esta crônica foi escrita e publicada no site do Bira, pouco antes do seu falecimento, e é postada  aqui, hoje, com ligeiras modificações nos tempos verbais, mantido porém na íntegra seu conteúdo que os irmãos garantiam ser verdadeiro, palavra por palavra. Mais um desses deliciosos causos que meu amor adorava contar e relembrar em nossos momentos de bate-papo..

14 comentários:

Pitanga Doce disse...

Eh Dulce, que essa veio do fundo do baú e até deu vontade de tomar café e pão de queijo! Um baú assim é pra ser aberto de vez enquando para arejar as lembranças que moram lá. Há tanta ternura nesses "causos" !

Beijos em céu azul, só porque ele quer.

Isa disse...

Querida Dulce,estória mais linda q.
mostra a sensibilidade de seu marido e seu cunhado.
Mas o que amei ainda mais,o que me arrepiou foi o olhar tão terno de seu Amor olhando você!
Oh Dulce,lindooo.
Beijo comovido.
isa.

Paloma disse...

DULCE, bela lembrança.Mesmo porque,¨recordar é viver¨. Esta recordação é uma viagem no tempo.

Beijos e doces lembranças

Dulce disse...

Pitanga Doce

Pois, minha amiga, tenho mesmo um baú cheinho de tantas lembranças... São casos e causos que não acabam mais... rs... E é tão doce lembrar...
Beijos em noite enfarruscada.

Dulce disse...

Isa,

Por isso são tão intensas saudades, são tantas lembranças, minha amiga...
Beijos e uma linda noite para você.

Dulce disse...

Paloma

e enquanto vamos recordando, vamos revivendo momentos...
Beijos e uma linda noite para você.

Lourdes disse...

Dulce
Que bom seria que todas as desavenças terminassem numa vingança assim. De certo teríamos um mundo bem melhor mas infelizmente não é assim numa grande parte dos casos.
Beijinhos
Lourdes

Dulce disse...

Lourdes

Seria, mesmo, mas infelizmente isso acontece a cada vez menos, não é?
Beijinhos e uma boa noite para você

Anônimo disse...

Dona Dulce
Ainda nesse final de semana comentei com o Bira (o Junior) e com a mamãe que nesses últimos dias eu havia pensado demais em "Seu" Bira. Não que precise de algo para me lembrar dele, pois a saudade e as lembranças são muitas, mas, particularmente nesses dias, parecia-me que tudo e as mínimas coisas faziam com que me lembrasse muito dele. Pois bem, coincidência ou não, transmissão de pensamento ou não, não importa, o fato é que a crônica foi postada no seu blog, hoje! Adorei!
Beijos,
Maria Antonieta.

Dulce disse...

Maria Antonieta

É... ele sempre é presença, sim, mas dias há em que essa presença é mais forte, as saudades apertam mais... Talvez a proximidade da Páscoa, do aniversário da Angélica, datas sempre marcantes para ele... Mas, de uma forma ou de outra, ele está sempre presente em nossas saudades e é sempre bom falar sobre ele, que sempre tinha tanta coisa a nos dizer, não é mesmo?
Beijos para vocês todos.

Affonso disse...

Dulce, prima predileta.
Como sempre, merecedora de aplauso sua crônica. Deu saudades do Bira. Comentei com o Danilo a respeito, que confirmou o acontecido, dando gargalhadas ao se lembrar do fato. Parabéns e muito obrigado.
Do primo Affonso aqui das
Minas Gerais.

Dulce disse...

Affonso

Obrigada, meu primo. Pois saudades do Bira é coisa de todo dia, né não? rs... Ele é tão presente em tudo...
Que bom que você comentou com o Danilo... rs. Lamento muito que ele more tão longe (ou que seja eu a morar tão longe), pois o Danilo, como era o Bira, tem sempre causos e casos maravilhosos para contar. Histórias que eu adoraria transcrever, deixar para quem aqui chegasse.
Mais uma vez, obrigada, e beijos desta prima daqui da Paulicéia sempre desvairada

Urbano disse...

hahaha, ate' imaginei o tal do Cobrinha palido hahaha :-)

Um beijo, Dona Dulce.

Dulce disse...

Urbano

Mas que bom te-lo por aqui novamente!... Muito obrigada por sua presença.
Acho que a Angélica já havia falado muito sobre o pai dela, não? De como ele adorava contar os "causos" lá dele... Há histórias realmente hilariantes...rs...

Uma Páscoa de paz e muito chocolate para você.
Beijos