floquinhos

quarta-feira, 30 de março de 2011

Mãos que derramam carinho...

José Mauro de Vasconcelos, um dos mais doces escritores de meu coração, abre seu livro "Rosinha minha canoa" com uma explicação:


"ANTIGAMENTE, quando escrevia, deixava entrever minha ternura mas com muito medo. Queria que todos os meus romances cheirassem a sangue e viessem rotulados com o carimbo de: Machos pra Burro. Foi preciso que chegasse aos quarenta anos para perder todo o terror de minha ternura a derramar por minhas mãos que queimam de carinho (quase sempre sem ter ninguém para o receber) a simplicidade deste meu livro. Leia-o quem quiser. De uma coisa estou certo: não tenho nada de que me desculpar perante o público. Apresento, pois, ROSINHA, MINHA CANOA"

E havia tanta ternura no coração desse homem que transbordou para além de sua obra, para além de seu tempo...  Ternura expressa magistralmenete em "Meu pé de laranja lima", um dos meus livros de cabeceira... Hoje, sem mais esta nem aquela, resolvi reler (mais uma vez)  Rosinha minha canoa e, mais uma vez, fui tocada pelas palavras com que José Mauro apresenta seu livro, por isso trouxe-as para o Prosa. E, para aqueles que não se envergonham da ternura que os invade, um convite para voltar a ler esse escritor lindo, doce, que já foi designado como piegas pela crítica literária, mas que eu, derramada em ternura, sempre acolhi com carinho de leitora atenta e fiel. 


segunda-feira, 28 de março de 2011

Faxinal do Soturno - Vamos conhecer?


Mais uma vez o Prosa leva seus amigos e leitores a um  passeio por uma cidade deste nosso imenso país. Como sempre,  a escolha é feita entre os visitantes diários deste blog e baseia-se no fato da cidade ter um nome diferente, curioso, que chame a atenção, e que seja uma cidade para nós, até então, desconhecida... Hoje vamos até o coração do Rio Grande Sul onde, entre montanhas e vales, rios e grutas,  encontramos  "Faxinal do Soturno". 
Com uma população de aproximadamente seis mil e oitocentos habitantes, esta pequena cidade de colonização  italiana, conserva  em seus  usos e costumes, em seus  hábitos e alimentação, a cultura trazida por seus colonizadores. Uma influência presente também em seus  monumentos e na vivência religiosa de sua gente. Em desenvolvimento crescente, alicerça sua economia na agricultura, na indústria e no comércio.
Fui buscar no site da prefeitura da cidade a explicação para o nome tão diferente desse município:
"A origem do seu nome vem do Rio Soturno, que banha suas terras, de nome sinistro, porém, doa-se em nome e riqueza, nas suas margens o arroz irrigado, nas partes altas o potencial energético. Em que época a denominação de Campo do Meio foi substituída pela de Campo dos Bugres e esta por Faxinal do Soturno, ninguém sabe. Sabe-se, entretanto, que o nome de Soturno foi motivado pelos pantanais ribeirinhos, que nos primeiros tempos se apresentavam cobertos de mato cerrado e escuro, lugar soturno e perigoso, principalmente nos meses de maio a setembro, época das chuvas."
E como (segundo os chineses) uma imagem vale mais que mil palavras, ficam abaixo algumas fotos desse lugar distante que se fez presente numa visita ao Prosa.




Para começar a semana...

A poesia de Cacília Meireles, pura nostalgia...


Assim moro em meu sonho

Assim moro em meu sonho,
como um peixe no mar.
O que sou é o que vejo,
Vejo e sou meu olhar.

Água é o meu próprio corpo,
simplesmente mais denso.
E o meu corpo é minha alma,
e o que sinto é o que penso.

Assim vou no meu sonho.
Se outra fui, se perdeu.
É o mundo que me envolve?
Ou sou contorno seu?

Não é noite nem dia,
não é morte nem vida;
é viagem noutro mapa,
sem volta nem partida.

Ó céu da liberdade,
por onde o coração
já nem sofre, sabendo
que bateu sempre em vão.

(Cecília Meireles)

domingo, 27 de março de 2011

Sonhar deveria ser sempre possível, mas...


Ontem a tarde uma velha amiga veio visitar-me. Após a alegria da chegada, os efusivos cumprimentos de todo o sempre, a conversa enveredou pelos caminhos da vida já percorridos e foi então que notei que havia uma certa opacidade em seu olhar, um olhar que sempre fora radiante, que sempre carregara um quê de malícia e um certo “joie de vivre” que  me encantava.
Segurei uma de suas mãos entre as minhas e perguntei o que estava havendo, onde andava sua alma sempre tão presente e visível quando nos encontrávamos e, entre surpresa e um tanto incrédula, ouvi-a dizer, simplesmente:
- Pois é, minha amiga, Imagine  que perdi minha capacidade de sonhar e, sem sonhos, minha vida perde a graça...  
E depois disso, a conversa só tinha que enveredar por entre os encontros e desencontros da vida, entre a lealdade e a deslealdade que giram em torno de todos nós e até onde nossa capacidade de reagir nos leva em situações de frustrações e mágoas, de desencanto e dor... E devo confessar que ela carregava em seu coração uma bagagem bem pesada... Sempre soubera contornar dificuldades, solucionar problemas, sobrepujar barreiras e situações, sempre encontrando um novo e promissor caminho por entre as alamedas da vida, mas entendo que, golpe após golpe, essa capacidade vá mesmo diminuindo, enfraquecendo, levando certas pessoas a uma solidão imensa, ainda que rodeada de gente, ainda que plenamente realizada em sua carreira e muito feliz com as realizações de seus filhos e netos...
E, em dado momento,  lágrimas a rolar pela face, ela murmurou:
- Sem amor, sem encantos, quando a noite chega, ao encostar a cabeça no travesseiro,  a sós comigo mesma, abraçada pela saudade, sentindo a solidão e vazio como companhia... Fica muito difícil sonhar...
É!... Por vezes, as maldades da vida vencem até os mais fortes guerreiros...

sábado, 26 de março de 2011

Um momento com Cecília Meireles...


Não perguntavam por mim,
mas deram por minha falta.
Na trama da minha ausência,
inventaram tela falsa.


Como eu andava tão longe,
numa aventura tão larga,
entregue à metamorfose
do tempo fluído das águas;
como descera sozinho
os degraus da espuma clara,
e o meu corpo era silêncio
e era mistério minha alma,
- cantou-se a fábula incerta,
segundo a linguagem da harpa:
mas a música é uma selva
de sal e areia na praia,
um arabesco de cinza
que ao vento do mar se apaga.


E o meu caminho começa
nessa franja solitária,
no limite sem vestígio,
na translúcida muralha
que opõem o sonho vivido
e a vida apenas sonhada.


Cecília Meireles
(Metal Rosicler)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Na madrugada...


No silêncio da madrugada, vagar pela casa, ouvir meus próprios pensamentos... Ha quanto tempo não fazia isso! Ao longe o ronco de um carro, luzes emanando de uma ou outra janela dos prédios vizinhos, o céu estrelado, tão estrelado quanto o possa ser nas noites de São Paulo... Na cozinha, preparo um café. Em algumas madrugadas insones prefiro o chá ao café, talvez porque minha alma inquieta precise de paz, mas hoje, meio modorrenta, minh'alma precisa de algum estímulo... Vou saborear meu primeiro café do dia no terraço, vou esperar o nascer do sol imersa em meus pensamentos, mergulhada em mim mesma, tentando coordenar idéias, encontrar rumos... Quando menos se espera, lá está a vida cobrando da gente decisões, mudanças... E nesta minha longa caminhada tenho entendido que nunca se faz tarde para novos rumos. As vezes tudo o que precisamos é de uma gotinha de coragem para recomeçar, sem muito medo do que poderia vir pela frente. E como a madrugada é boa conselheira, converso com ela em mais este amanhecer...

quinta-feira, 24 de março de 2011

Um tempo para...


"Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar."

(Carlos Drummond de Andrade)