floquinhos

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terça-feira, 24 de março de 2015

Voltando às raízes

Frutas nacionais e importadas, da melhor qualidade

Durante todas as décadas em que cuidei de minha família, sempre buscava comprar frutas e legumes fresquinhos e de boa qualidade nas feiras-livres montadas próximo às casas em que morava. Filhos criados, casados, netos chegando, o tempo passando, levando com ele alguns hábitos, algumas tradições... E após a morte de meu marido, tendo mudado de bairro e precisando cuidar apenas de mim, o “ir à feira” deixou de ser um hábito. Ficava muito mais fácil ir a um supermercado e até mesmo usar o delívery para abastecer minha geladeira. E por vezes sentia saudades daquelas manhãs corridas, com algumas horas passadas entre as barracas das feiras, do vozerio alegre dos vendedores, sempre solícitos, atenciosos. Afinal, era preciso cativar a freguesia.. Conhecíamos seus nomes, ouvíamos histórias de suas famílias, exatamente como acontecia na minha infância, com o pessoal da leiteria de Dona Mariucha, o armazém do Sr. Lora ou do Bastião e a quitando do Sr. Brás; Coisas que hoje nem faria mais sentido, mas que tornavam a vida um tanto quanto difícil daquela época, bem mais amena.
Pois bem, e não é que após tanto tempo acabei voltando a visitar uma feira-livre? Acompanhando meu filho e minha nora, fomos comprar frutas, verduras e legumes, no domingo, numa feira fantástica da Oscar Freire, próximo à estação de metro do Sumaré. Foi bom demais. Até fizemos uma parada na barraquinha de pastéis (porque ninguém é de ferro e, resistir a uma iguaria tão tradicional das feiras paulistanas, quem há de?... E como é bom voltar às raízes, rever ainda que por momentos um tempo que se julgava passado, perdido para sempre entre as memórias lá do fundo do baú! Foi fantástico! Uma quase viagem no tempo.  

 Sr. Leandro, da barraca de frutas, toda a atenção e simpatia de um bom feirante...

Meu filho e minha nora, responsáveis diretos por esse momento diferente

Sr. Leandro não se fez de rogado quando pedi permissão para bater uma foto e colocar aqui no Prosa.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Nas madrugadas do tempo




Acordou com o barulho do vento que dançava entre os galhos ressequidos do bosque e, imaginando o frio que deveria estar fazendo lá fora, enrodilhou-se entre os lençóis, numa tentativa inútil de voltar a dormir. Era madrugada e ela sempre tivera um quezinho pelas madrugadas quando, a casa em silêncio e a cidade semi adormecida, davam-lhe a falsa sensação de que a paz reinava sobre o mundo, sobre os homens.
Sem conseguir voltar a dormir, saiu da cama e, apanhando o robe que repousava sobre a poltrona, envolvendo-se em seu aconchego, dirigiu-se até a janela. Ao abrir as cortinas deu com a beleza da neve caindo sobre o gramado, iluminada apenas pela fraca luz que vinha do poste de iluminação colocado quase em frente a casa.
E sem saber bem porque, viu-se em outra madrugada insone, diante de uma outra janela, depois de acordada pelo zunir do vento que corria por entre as casas daquela rua antiga, prenunciando uma tempestade de verão. Reviu-se jovem e cheia de sonhos, sem a menor consciência do que a esperava pelas esquinas do tempo, dos longos caminhos que ainda haveria de percorrer até chegar aquele momento.
Naquela outra madrugada, lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, lavando-lhe a alma daquela tristeza que lhe parecia sem fim e que, a luz do tempo, demonstrou ser nada mais, nada menos, do que uma tempestade num copo d’água... Ah, as doces paixões da adolescência!... Ah, a primeira paixão, quase sempre não correspondida, quase sempre inesquecível... A imagem dele ainda bailava em sua mente, congelada pelo tempo, numa linda figura de príncipe encantado... Seus olhos castanhos, seu sorriso límpido de quem anda de bem com a vida, sua voz, seus cabelos, seu porte... Vindos através dos anos, rodopiavam em torno dela, revestindo-a de saudade... Saudade dele, dela, da juventude que um dia habitara aquele corpo alquebrado e que ficara lá longe, dos sonhos que a acalentaram, de tudo o que o tempo reteve em seus caminhares...
Sentindo o frio da madrugada, deixou a janela, sentou-se na poltrona, encolhida, cobrindo as pernas com uma manta e, antes de abrir o livro que a esperava sobre a mesinha lateral, ainda ficou uns minutos cogitando sobre o quão bom era sentir tão doce saudade... Tão bom ter tais momentos guardados dentro de si, mostrando que a vida foi vivida com intensidade, com paixões, com sonhos, com esperanças, com amor... Lembranças que mostravam claramente que valera a pena cada passo percorrido nesse longo caminhar... Que razão tinha nosso Fernando Pessoa ao afirmar que “tudo vale a pena se...”

(Winchester, dezembro de 2008)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Um recadinho para o meu amor......



Oi, meu amor. 

Se você ainda estivesse aqui conosco, estaríamos em festa. Afinal, você faria 81 aninhos... E teríamos um almoço com seu prato predileto - aquela bacalhoada, um bom vinho português e muitos mimos de todos nós que o amamos... Quiz a vida que assim não fosse. Então, aonde quer que você habite hoje, receba meu carinho e minha eterna saudade.
É muita saudade, viu? Onze anos de ausência e de doces lembranças. Lágrimas? Bem, nem sempre consigo evitá-las, mas já não são amargas, são todas gotas de saudade... Sabe, meu amado,  não há um só dia em que não falemos de você, de sua alegria de viver, de sua infinita curiosidade por tudo, mas tudo mesmo, o que o levava a uma constante e imensa busca através de seus livros; suas histórias e seus "causos" são sempre relembrados com muito riso,.. Você é sempre citado com muita admiração, como exemplo, como um homem muito especial.  Nossas "crianças" têm um profundo orgulho do pai que tiveram e eu agradeço sempre a Deus por ter compartilhado de sua vida, por ter trilhado um longo caminho a seu lado. Ficou o vazio? Não! Ficou o exemplo de vida e coragem, ficou a eterna presença na difícil ausência...
Se você ainda estivesse aqui, diríamos: Feliz Aniversário! Mas só posso dizer: Que Deus o tenha em Suas mãos. meu amado Bira.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ao sabor do tempo...


Nunca me preocupei muito com a passagem do tempo, a vida para mim foi sempre um encanto, uma caixinha de surpresas que eu ia abrindo, pouco a pouco, colhendo os bons e maus momentos com a mesma serenidade. Se bons, agradecia a Deus e à vida... Se maus, procurava encará-los de frente, tentar contorná-los ou superá-los, por mais que me machucassem. E tão preocupada andava em “viver” que nem vi o tempo passar, nem o senti escoando-se por entre meus dedos... E, de repente... Como diria Vinícius, “não mais que de repente”...
Ora, “não mais que de repente” funciona perfeitamente bem em poesia, mas na vida, na realidade da vida, não é bem assim. Tudo vai acontecendo aos poucos, dia após dia, hora após hora, minuto após minuto... A primeira ruga, os primeiros fios de cabelos brancos, uns quilinhos a mais que ficam difíceis de serem eliminados, uma dorzinha aqui, outra ali, a necessidade mais constante da troca das lentes dos óculos...  Mas vai tão lentamente que nem notamos ou, pelo menos eu, nem notei. Só sei que um dia, ao ver minha imagem refletida no espelho do banheiro, fiquei perplexa. Como não havia percebido antes? Como não havia notado as mudanças desenhadas em mim pelo tempo? Ah, tão ocupada estivera em viver (GRAÇAS A DEUS!!!), que fui passando por ele sem que me desse conta dos estragos que ia fazendo em mim.
Confesso que, a princípio, aquilo me incomodou, sim, mas também me fez parar para pensar o quanto aquele caminhar tinha sido generoso, o quanto a vida me oferecera, o quanto eu tinha a agradecer. Afinal, cada ruguinha, cada sulco, cada pedacinho de pele menos sedosa, cada fiozinho de cabelo branco, havia sido trocado por um momento, por um sorriso, por um afeto, por uma lágrima, nem sempre de tristeza, por sentimentos, amizades, amores, todos partilhados e compartilhados ao longo da vida... E fiquei tão orgulhosa de meu rosto assim, envelhecido, mas sereno, marcado pelo tempo, desenhado pela vida!... Olho para trás e vejo um longo caminhar. Olho para mim e vejo uma vida inteira de amor. Olho para o futuro e vejo ainda a esperança dentro de mim... E que venham novas rugas, e que venham outros sulcos, que venham as dores próprias deixadas pelo tempo, pois tenho conseguido agüentar... rs... Porque o bom, mas o bom mesmo, é viver cada minuto, cercada ainda de sonhos, inveterada sonhadora que sou, romântica incorrigível que sempre serei...
Filhos e netos muito amados que se preparem... Vou comprar meu chapeuzinho roxo, muito antes dos oitenta anos, para saracotear ao sabor do tempo... Enquanto Deus assim o permitir.

(Janeiro de 2012)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Do baú dos escritos antigos...


Nos labirintos da alma

A alma feminina tem labirintos que nos levam a diferentes recantos que nos conduzem ao sonho, `a magia, ao encantamento. E vou por eles através dos tempos, vivendo e revivendo momentos, encontrando esperanças perdidas, vagando entre sentimentos desencontrados ou coerentes, descobrindo emoções, afagando afetos, envolvendo-me em amores perdidos, reais ou imaginários, vagando na imensidão de mim mesma.
E até eu chegar ao meu porto de destino, vou caminhando meio às cegas por entre incertezas, buscando novas passagens, tentando sempre encontrar a direção correta que me permita desfrutar de cada passo dado por entre essas estreitas passagens, cada vez mais estreitas, mas ao mesmo tempo cada vez mais belas, porque na medida em que vou avançando, vou percebendo mais claramente o significado desse caminhar e a beleza que ele encerra. Cada nova sala que encontro é única e ao parar nela para um pequeno descanso sinto na pele os efeitos, bons ou maus, que minhas escolhas vão deixando em mim... E cada dia de minha vida vai ficando guardado em cada uma dessas salas.
Talvez por isso seja preciso vencer um labirinto para se entender a alma feminina. É que é nele que ficam guardados  todos os seus segredos...

(Em algum dia de novembro do ano de 2009)

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Nas voltas que o mundo dá...

(No lugar da antiga fazenda, o Residencial...)

A família de meu pai veio da Ilha da Madeira para a região de Campinas, no começo do século passado, para trabalhar nas fazendas de café, Meus avós traziam os filhos ainda pequenos, que cedo começaram a ajudar no trabalho - me pai contava que aos sete anos já ia com o pai e o irmão mais velho para a roça. Aqui cresceram, dentro de uma educação rígida e voltada para o trabalho, um trabalho duro, insano, de sol a sol, até resolverem mudar para São Paulo e tentar uma vida menos dura, com mais chance de crescimento profissional  para os filhos. 
E com que emoção meu pai, muitos anos depois, nas nossas noites ao redor da enorme mesa da sala de jantar, lá no velho casarão, contava-nos histórias desses tempos na fazenda, das agruras e das alegrias daqueles dias passados entre o árduo trabalho no campo e os momentos de descontração dos bailes de sábado, o ponto alto das diversões dos rapazes e moças do lugar. Gostava de contar como andavam distâncias muito longas para irem a esses bailes que sempre aconteciam em fazendas diferentes; dançavam a noite toda e nem sentiam cansaço... Era só alegria, essa alegria tão própria da juventude. Contava também que a fazenda que ele mais gostava era a do Chapadão, onde os bailes eram os mais animados...
O mundo vai lá dando suas voltas, o tempo vai passando e eis-me aqui, na antiga Fazenda Chapadão, hoje transformada em um bairro bonito, bem cuidado, onde meu filho mais velho (coincidência) mora com a familia, num residencial que leva o nome da própria fazenda...  E ontem, embevecida, enquanto ouvia meu neto tocando Beatles  ao violão e fazendo dueto com meu filho em lindas canções, só pensava em meu pai, em como ele adoraria estar aqui, neste lugar que lhe era tão caro, desfrutando de um momento de paz, de harmonia, de familia, exatamente como ele tanto gostava... Imaginava-o sorrindo, meneando a cabeça em assentimento, olhos brilhando a dizer: "sim senhor!... quem diria?... olha eu aqui, de novo, no Chapadão, vivendo um momento de alegria..." 
E na estranha sensação que me envolvia, cheguei mesmo a pensar que ele bem que poderia estar sentadinho na poltrona ao lado...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Às portas da Semana Santa...



Abro a janela e dou com uma manhã assim meio indecisa, sem saber se vai nos oferecer sol ou chuva, se vai nos brindar com um céu lindo, todinho azul ou se vai nos impor um cinza cobrindo esta sexta-feira que antecede a Semana Santa.
A Semana Santa? Já? Pois é!... O tempo já não passa.... Voa! E nesse voo vai levando nossa vida, nossos usos e costumes, deixando em seus lugares novas formas de viver, novos hábitos, novos conceitos.
Os que estão há mais tempo neste caminhar pela vida hão de se lembrar de outras Quaresmas, cobertas de cinzas, de respeito pelo Criador e de amor por Seu filho, quando nos preparávamos para viver a Semana da Paixão, o Sábado de Aleluia, o Domingo da Ressurreição...  Para os mais religiosos, o jejum e a abstinência nas sextas-feiras, lembram-se? E havia a missa e a procissão de Ramos no domingo que antecedia a Páscoa e era nessa missa que levávamos as palmas para serem bentas, as mesmas palmas que eram colocadas atrás de um quadro do santo protetor da casa, a mesma palma que era queimada nos dias de grandes temporais, para afugentar os raios... Misticismo? Não... Costumes de uma época. Como era costume ir à igreja, cumprir os ritos de cada um dos dias da semana que era considerada santa. Na quinta-feira, à noite, a Cerimônia do Lava Pés, na sesta-feira, a visita ao Senhor Morto e a procissão, à noite, contida, emocionante, com a voz da Verônica linda, clara, ao chorar a morte de Jesus, ao mostrar seu rosto estampado em sangue numa alva toalha, os anjos, a Virgem, as três Marias, os apóstolos, as rezas, as beatas, o povo comum em sua religiosidade, e até a banda que vinha atrás, tocando as músicas que os fiéis cantavam com fervor. Procissão que, de tão importante, trazia cavalarianos vestidos em trajes de gala, montados em garbosos cavalos brancos, abrindo os caminhos...
Mas o tempo, esse algoz impiedoso, levou consigo a religiosidade de um povo, um povo que hoje encara a Páscoa como uma festa onde há a troca de ovos de chocolate, e a Semana Santa como uma oportunidade para ir bronzear seus corpos nas escaldantes areias das praias ou descansá-los na tranqüilidade do campo. Perdeu-se a fé, perderam-se tradições, nessa guinada que a humanidade deu em direção ao progresso, com louvores à tecnologia. Foi melhor? Foi pior? Não sei.. Acho que apenas foi mais um passo da humanidade em direção ao seu destino...

Sei bem que ainda existe muita fé e muita religiosidade entre nosso povo, mas de um modo geral, tais sentimentos andam se perdendo aí pelos novos caminhos do homem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Em viagem pelo tempo...


Sempre gostei de viajar no tempo, de ir lá no fundo de minhas memórias e de lá resgatar fatos, lembrar pessoas, reviver emoções. E sei que não sou só eu! Todas as pessoas com as quais convivo e que já tenham passado por mais de 50, 60 dessas estações do tempo, sempre me afirmam esse mesmo gosto.

     Meu marido e eu, por exemplo, costumávamos ficar, já em seus últimos tempos de vida, relembrando e rindo de situações que até nos haviam parecido difíceis quando de suas ocorrências, mas que então, vistas através de um outro prisma, multicolorido pela passagem do tempo, tornavam-se pitorescas, até engraçadas.
     Nos dias mais quentes do verão, buscando um pouco mais de frescor, costumávamos  sentar-nos no terraço, ao cair da tarde, em longas conversas, quando eu aproveitava para colher material abundante para muitas crônicas, ouvindo as histórias de meu marido que, como todo bom mineiro, era um maravilhoso contador de “causos”,  e coisas de sua terra. Numa dessas tardes,  por exemplo, falávamos sobre nossos netos, sobre como Gabriel, na época com  6 anos, um garoto carinhoso, gentil, amante da paz, tinha em seu pequeno irmão César, de menos de 4 anos, um defensor ferrenho, que sempre tomava sua defesa e que partia para cima de qualquer garoto que ousasse tentar agredir seu irmão. Como um assunto sempre traz outro, veio à baila uma história vivida pelo Bira que achei bem merecer uma crônica.



“Estudantes na Escola Agrícola de Barbacena, meu marido e meu cunhado, em plena adolescência, pequenos galinhos de briga, podiam ter lá suas diferenças, mas quando alguém mexia com um deles, estava comprando briga com o outro. 
Numa determinada tarde, Ubirajara, meu marido, estava jogando bolinhas de gude com alguns outros garotos quando um menino veio correndo até ele dizendo:
      -    Bira, corre lá ajudar o Danilo que o “Cobrinha” tá dando a maior surra nele!...
     Ao que meu marido teria respondido, todo cheio de empáfia:
     -    Vou só terminar esta jogada e vou mostrar pra’quele frangote o que acontece com quem se mete com a gente... 
     Dito e feito! Terminada a jogada, saiu correndo em defesa do irmão, mas... Levou ele também, a maior surra. O tal “Cobrinha” não era brincadeira, não! Humilhados, voltaram para casa jurando vingança, mas o tempo foi passando, eles foram crescendo, saíram de Barbacena, procurando novos rumos para suas vidas e o incidente ficou esquecido... Ou quase, porque no fundo de suas memórias havia o brio ferido, a humilhação de serem dois contra um e de terem apanhado pra valer.
     Anos depois, em visita à cidade, avistaram alguém que lhes era familiar que vinha descendo a rua. Os irmãos se entreolharam... 
     -    Mano, aquele baixinho ali, não é o Cobrinha? 
     -    Ele mesmo, Mano, o safado... Vamos lá dar um susto nele?
     Agora, homens feitos e já cheios de responsabilidade, aquela molecagem das brigas e dos desacatos já não fazia mais sentido. Queriam apenas fazer uma brincadeira com um velho camarada. Ambos muito altos, fortes, comparando-se ao antigo desafeto que não crescera tanto quanto eles, sabiam o que iria acontecer e já foram rindo por antecipação.        Aproximando-se cada um por um lado, caras fechadas, cenhos  franzidos, seguraram-no pelos braços, um de cada lado,  e foram logo dizendo:
     -    Eu sou o Danilo, lembra-se de mim?
     -    E eu sou o Bira, está lembrado?
      O outro, começando a empalidecer, preso entre aqueles dois homens que pareciam querer esganá-lo, gaguejou:
     -    Claro, claro que me lembro, mas o que houve?
     -    O que houve? Lembra daquela vez que você deu uma surra em nós dois?
     -    Não, não me lembro disso, não, gaguejou o indefeso Cobrinha... Imagine... Eu bater em dois amigos?... 
     -    Bateu sim e agora nos vamos tirar a forra...
     Dizendo isso e antes que alguma coisa pior acontecesse, explodiram em estrondosas gargalhadas e, abraçando o antigo desafeto, que ria aliviado, foram todos comemorar o encontro e a “vingança” numa rodada de cerveja num bar da cidade."

     Não seria maravilhoso se todas as vinganças terminassem assim?... 


PS : Esta crônica foi escrita e publicada no site do Bira, pouco antes do seu falecimento, e é postada  aqui, hoje, com ligeiras modificações nos tempos verbais, mantido porém na íntegra seu conteúdo que os irmãos garantiam ser verdadeiro, palavra por palavra. Mais um desses deliciosos causos que meu amor adorava contar e relembrar em nossos momentos de bate-papo..

domingo, 27 de março de 2011

Sonhar deveria ser sempre possível, mas...


Ontem a tarde uma velha amiga veio visitar-me. Após a alegria da chegada, os efusivos cumprimentos de todo o sempre, a conversa enveredou pelos caminhos da vida já percorridos e foi então que notei que havia uma certa opacidade em seu olhar, um olhar que sempre fora radiante, que sempre carregara um quê de malícia e um certo “joie de vivre” que  me encantava.
Segurei uma de suas mãos entre as minhas e perguntei o que estava havendo, onde andava sua alma sempre tão presente e visível quando nos encontrávamos e, entre surpresa e um tanto incrédula, ouvi-a dizer, simplesmente:
- Pois é, minha amiga, Imagine  que perdi minha capacidade de sonhar e, sem sonhos, minha vida perde a graça...  
E depois disso, a conversa só tinha que enveredar por entre os encontros e desencontros da vida, entre a lealdade e a deslealdade que giram em torno de todos nós e até onde nossa capacidade de reagir nos leva em situações de frustrações e mágoas, de desencanto e dor... E devo confessar que ela carregava em seu coração uma bagagem bem pesada... Sempre soubera contornar dificuldades, solucionar problemas, sobrepujar barreiras e situações, sempre encontrando um novo e promissor caminho por entre as alamedas da vida, mas entendo que, golpe após golpe, essa capacidade vá mesmo diminuindo, enfraquecendo, levando certas pessoas a uma solidão imensa, ainda que rodeada de gente, ainda que plenamente realizada em sua carreira e muito feliz com as realizações de seus filhos e netos...
E, em dado momento,  lágrimas a rolar pela face, ela murmurou:
- Sem amor, sem encantos, quando a noite chega, ao encostar a cabeça no travesseiro,  a sós comigo mesma, abraçada pela saudade, sentindo a solidão e vazio como companhia... Fica muito difícil sonhar...
É!... Por vezes, as maldades da vida vencem até os mais fortes guerreiros...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Balada para uma sexta-feira...



Já é sexta-feira! O tempo escorre por entre meus dedos como finos grãos de areia secos pelo sol inclemente de um meio-dia de verão... Ah, se eu pudesse reter o tempo, faze-lo caminhar um pouco mais lentamente para que eu pudesse demorar-me um pouco mais em meus caminhos e pudesse assim sorver tudo o que gira em torno de mim, gota a gota, num aprendizado enriquecedor para minha alma, sem deixar passar nada...  A alegria de uma  adolescente  em seu primeiro amor, a pureza de uma criança transposta em seu riso, a esperança de um jovem no  futuro, a força de um homem em seu trabalho, a delicadeza de uma mulher num momento de ternura, a doçura contida numa frase de amor, a ternura do olhar que uma mãe derrama sobre seu filho adormecido, a paz de um jardim ao luar, a força incontida do mar, a fúria de um vendaval, a beleza de um por de sol, a esperança do amanhecer, o abraço do amigo, a mão do homem amado, a vida... a vida...
Já é sexta-feira... O mundo segue seu curso, o tempo segue seu ritmo, eu sigo meus caminhos ainda plenos de sonhos, ainda com esperança no que possa vir, ainda senhora de mim e dos meus passos...
Feliz com a lucidez que minh'alma carrega, vou armazenando em mim momentos preciosos, emoções doces, ternuras, carinhos, serenidade, como uma bagagem para amenizar um inverno que talvez seja rigoroso e que está a espreita, numa curva qualquer dos meus caminhos. E que quando esse inverno chegar, quando eu chegar a ele, que minha alma esteja revestida de gratidão pela primavera da vida, alegre e despreocupada, pelo verão quente, gostoso, pleno de emoções, e pelo outono que tem sido doce, envolto em tantos sonhos, em tantos contidos sentimentos, em tanta serenidade preciosa nos momentos mais difíceis, na superação desses momentos, na paz relativa de meu coração.
Carrego comigo meu baú de memórias e meu baú de emoções e quando for inverno, sentada numa poltrona ao pé da lareira, tentando aquecer um frio que talvez venha da alma, vou poder abrir esses baús e, um a um, reviver meus sonhos, uma a uma, festejar minhas memórias ao revive-las ternamente. Haverá lágrimas, haverá sorrisos, haverá saudades, haverá amor... O mesmo amor que veio comigo do berço, que me acompanhou por todos os caminhos, sem esmorecer, sem perder a força. O amor que fechará meus olhos e que lançará minha alma para o infinito de uma nova vida...

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A escolha das músicas para o Prosa...



Música é alguma coisa que vai nos envolvendo, tomando conta de nossos sentidos, parecendo entrar por cada um dos poros de nossos corpos,, até chegar a alma... Pelo menos é assim que a sinto. Por isso, por saber como a música faz bem a alma, tenho muito cuidado ao escolher as seleções que costumam servir de fundo musical ao Prosa. Procuro sempre canções que transmitam paz,  romance, ternura.
Mas as vezes, feita a escolha, coloco no blog e paro para ouvir atentamente, enquanto passeio meus olhos pela página e, nem sempre gosto da seleção, nem sempre a seleção tem a ver com a apresentação ou com os textos ou poemas deixados aqui, Se não sinto a música me tocar, volto ao site e procuro nova seleção, mas acabo sempre nos meus queridinhos e eis que retornam Elvis, Sinatra, Nana, Bublê, Betânia, como vocês já devem ter notado. Como também as “divas” da musica americana do século passado, sempre voltam, sempre temos Ella, Dinah, Etta, Sara, por exemplo.
E. por isso mesmo, muitos dos interpretes que até gosto, e muito, como Toquinho, Chico, Caetano, Elis, nem sempre passam por aqui. Ouço-os sempre, com prazer imenso, mas parece que eles não gostam muito de ficar entre as quatro paredes do Prosa. Ficam reverberando, meio deslocados. Então, volto a buscar um dos meus queridinhos.
Hoje, por exemplo, achei que era tempo de dar um descanso a Nana e sai em busca de novas músicas. Lembrei-me que nunca tocara Roberto aqui no Prosa. Escolhi algumas gravações dele que mais gosto e trouxe para cá, mas o resultado foi desastroso. Não combinou, mesmo! Sai então em busca de Willie Nelson, trouxe até mesmo o seu “Crazy”, mas também não deu certo.
Resultado? Aí está Mr. Sinatra (A Voz), para deliciar os ouvidos dos nossos queridos amigos e leitores. Espero que gostem.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O lado feio do belo...


O dia enfarruscado, todo cinza, o anúncio de perspectiva de novamente termos neve, e eu aqui pensando no tempo em que, vivendo num país cheio de sol, onde só muito raramente e em muito pequena quantidade, lá pelas bandas do sul, cai uma nevezinha, sonhava em um dia poder ver de perto as imensidões geladas, cobertas de neve, a luminosidade e a brancura refletindo luzes, exatamente como  via nas fotos das revistas ou nos cartões postais. Quando muito, num filme de Hollywood, onde sempre – ou quase sempre -  tudo acabava bem.
Mas, como o mundo dá muitas voltas,  vejo-me um dia pulando de um hemisfério ao outro, instalada por meses em um desses lugares-cartões-postais que sempre me encantaram, vivendo a realidade nua e crua dessa beleza toda.
Sim, é muito belo... quando começa a nevar. Quando os flocos vão caindo docemente, levemente, como plumas, e vão pouco a pouco branqueando tudo.  Lindo! Corro a pegar minha câmera, tiro fotos que não acabam mais, a cada vez que saio com minha filha, levo minha câmera e vou fotografando tudo.  Tudo tão branco, tão luminoso. Ai vem o sol e fica tudo mais lindo ainda, azulado, dourado, lindo...
Mas os dias vão passando, a tal da neve tão linda vai se acumulando, nevasca após nevasca, até ficar insuportável caminhar pelas calçadas, sair ao jardim, e a neve começa a derreter e fica tudo uma lamaceira só, e a poluição vai fazendo das suas sobre as montanhas de neve retiradas do leito carroçável das ruas para que o transito possa fluir, e aquele branquinho todo vai ficando feio, sujo, encardido, e a neve vai virando gelo onde você escorrega e corre o risco de cair e quebrar sua linda perninha... E o frio chega com vento , e aquelas camadas  todas de roupa que você precisou vestir para não congelar quando saiu a rua, parecem feitas de filó, pois o vento penetra por elas todas, da mesma forma, e você se sente enregelar
É bem verdade que os moradores da região dizem que este está sendo um inverno atípico, que faz para mais de doze anos que não nevava tanto – Pode bem ser, porque , faz dois anos, passei aqui um inverno e não me lembro de ter sido tão rigoroso..  Sei não!...
.Conclusão? Num próximo inverno que passar aqui, vou estipular que só fico durante as duas primeiras nevadas, enquanto tudo é novidade, tudo é bonito. Depois... Ah, depois volto correndo pro meu sol de verão...

(Winchester, fevereiro de 2011)









 E limpar a neve das entradas da casa não é tarefa fácil...

sábado, 29 de janeiro de 2011

O que dizem as flores?...



A linguagem das flores

Não imagino que haja uma única mulher no mundo que não se sensibilize com uma flor, que não se emocione ao receber uma flor. Flores são mensageiras por si só de sentimentos, denunciam sonhos e paixões secretas. Como? Ora, elas tem lá sua linguagem. Eu era ainda bem jovem quando comecei a aprender ouvindo conversas de minha irmã com minha prima sobre essa linguagem e seu significado. Ao oferecer flores a uma mulher – era absolutamente proibido pensar em dar flores, fossem quais fossem, para um homem – então, ao se oferecer flores a uma dama, a uma jovem, sempre se tinha o cuidado de escolher cuidadosamente não só a espécie, mas também a cor. Só um homem apaixonado ofereceria rosas vermelhas. E nunca a uma jovem. As jovens receberiam as cor-de–rosa ou as brancas, símbolos de delicadeza e pureza, respectivamente. E esse não era um costume surgido naquela época, absolutamente. Conta-se que na  Turquia do Século XVIII usavam-se flores como códigos para mensagens, o chamado Código do Turcos. Na França de 1800 havia um código também, que ficou conhecido como La Langage des fleurs.  E a Inglaterra Vitoriana teve também seu código, amplamente respeitado e usado, um pouco mais complexo, porem, porque a forma como se ofertava  ou recebia uma flor demonstrava sentimentos e significava respostas, por exemplo,  uma rosa vermelha, já aberta,  era demonstração de admiração pela beleza feminina, já um botão fechado, com espinhos, queria dizer que o pretendente temia, mas nutria esperança. Se a dama ao receber  o botão o virasse  recatadamente, para baixo, significava que não precisava temer, mas também ao deveria ter esperança, quer dizer, um solene “não”.... rs... Se o colocasse nos cabelos, estaria pedindo cuidado, cautela, mas se o pusesse sobre o coração... ah! suprema glória (rs) o amor era correspondido...
E assim, através dos tempos essa linguagem veio sendo usada, em formas um tanto diferentes, mas sempre com um significado mais ou menos semelhante. Hoje, entretanto, parece que essa linguagem caiu em desuso. Então, quando uma linda e famosa musica da MPB afirma que as rosas não falam, vê-se ai um engano. Elas falam sim, através de suas cores elas são mensageiras doces e delicadas de sentimentos, elas falam de paixões, de desencantos. Quando jovem, sabíamos que a rosa vermelha era paixão, a cor-de-rosa, delicadeza, a branca pureza, a amarela desespero, Não havia, então, muitas outras tonalidades de rosas, mas essas bastavam para os objetivos pretendidos pelos enamorados. E com a mudança dos tempos, foi sendo permitido aos homens receberem flores também, sem um maior constrangimento e os cravos foram os primeiros a ganharem essa honra,
Achei num livro uma lista de flores “falantes” e, como mera curiosidade coloco abaixo as mais conhecidas, e na próxima vez que você for oferecer flores para a pessoa amada, lembre-se de usar essa linguagem linda e perfumada como reforço suas palavras.

Amarílis - Orgulho
Camélia - Perfeição
Cravo - Ai, meu pobre coração!
Crisântemo - Estou apaixonado
Margarida - Inocência
Miosótis - Amor verdadeiro
Gerânio - Tristeza
Madressilva - Meiguice
Jacinto - Mágoa
Íris - Mensagem
Jasmim - Graça e elegância
Alfazema - Desconfiança
Lírio - Pureza
Narciso - Vaidade
Orquídea - Beleza
Amor-perfeito - Pensamentos
Peônia - Vergonha e timidez
Rosa vermelha - Amor, paixão
Rosa cor-de-rosa- Delicadeza
Rosa branca - Pureza
Girassol - Altivez
Tulipa - Declaração de amor
Violeta - Modéstia
  

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Numa fase meio sem graça...


Definitivamente chego a conclusão que a palavra e eu andamos de relações estremecidas, brigadas a ponto de  nem nos aproximarmos muito uma da outra. Não sei se por estar tantos meses ausente de meu cantinho, vivendo em terra estranha e gelada, não sei se por uma rotina que não é minha, o fato é que ando um tédio só, repetindo-me e repetindo-me, de tal forma que nem eu mesma aguento ler meus textos... Falta-me inspiração ou falta-me motivação, sei lá, a verdade é que cansei de buscar e buscar fotos, usar frases ou poemas que atualmente nem andam me dizendo muita coisa. Parafraseando Drummond diria "eta fase besta, meu Deus!".... 
Poderia abrir um jornal e depois de le-lo, comentar um ou outro artigo, mas os jornais atualmente só estampam as tantas tristezas, maldades e calamidades que assolam o mundo - acho até que sempre foi assim, eu é que não andava com esta pontinha de descrença que me ronda agora... E para que faria eu isso, se todos os leitores  deste espaço já têm diante de si, todas as noites, na TV de suas salas, esse desfilar de tristezas?... Se sempre quis oferecer aos amigos do Prosa momentos de paz, de ternura, de um certo encantamento pela vida, como poderia agora ficar martelando sobre coisas que os deixariam tristes ou revoltados? Não! Não poderia fazer isto por aqui. Teria que abrir um outro blog, que seguisse uma outra linha. Não, meus amigos, podem ficar tranquilos que nem estou cogitando isso.
E aí? Aonde ficamos? A que conclusão chegamos, o Prosa e eu? A nenhuma? Ô pobreza!... Pobreza de espírito, de idéias, de emoções doces, de... sei lá mais de que.  Só sei que preciso dar uma sacudidela em mim mesma, Está na hora de uma reciclagem e eu prometo aos meus amigos que vou tentar. vou revirar meu baú de memórias em busca de lembranças que ainda não estejam desgastadas pelo tempo ou por terem sido já comentadas, vou tentar retornar ao caminho da ternura, da poesia, de mim. 
Se vou conseguir? Ah, isso já é uma outra história. mas pelo menos vou tentar. Prometo que vou.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Por aqui (ainda) alguns ecos do Natal...



Joaninha costumava correr solta pelas ruas em brincadeiras com suas amiguinhas, pulando corda e amarelinha, brincando de roda, de boneca, desenhando sobre a calçada, com pedaços de carvão que pegava na cesta ao lado do fogão, aproveitando a doce liberdade que era privilégio daqueles tempos.
Era uma rua antiga, habitada por imigrantes europeus. Eram os primeiros anos da década dourada do século passado...  Era um mundo que, visto através do prisma do tempo, era pura magia...
Era manhã de Natal e, como em todas as manhãs de Natal, as crianças reuniam-se nas portas das casas para exibir o presente que Papai Noel havia deixado para cada uma delas. Havia uma quase igualdade naqueles presentes, posto que havia uma quase igualdade em cada um daqueles lares habitados por famílias menos favorecidas. Mas, naquele ano foi diferente.
Dois ou três meses antes, mudara-se para um dos casarões uma pequena família que, diferente das outras, tinha uma melhor posição social. Um casal e uma única filha, uma menina que parecia frágil e doentia, que com seus lindos vestidos e seus sapatos graciosos, destoava claramente das outras meninas.
Naquela manhã, as meninas, num alarido, exibiam suas bonecas, simples, feitas de pano (algumas por suas próprias avós) que Papai Noel havia deixado em seus sapatinhos, quando Maria Lúcia, pelas mãos de sua mãe, passou por elas carregando nos braços a mais linda visão que já havia povoado seus pequenos mundos... Uma boneca de porcelana! Linda, ricamente vestida, longos cabelos arrematados por um delicado chapéu, nos pés graciosos sapatinhos dourados. Fez-se silencio a sua passagem.
Bocas entreabertas de espanto, olhinhos esbugalhados de admiração, não conseguiam dizer palavras.
Ao perceber o impacto que causara entre suas pequenas vizinhas, a petulante garota semicerrou os olhos, levantou o queixo num gesto de enfado e, virando-se para a mãe, disse: “Veja, mamãe, as pobretonas estão com inveja da minha bonequinha...” A um “não liga...”, da mãe, ambas apressaram o passo e foram sumindo no final da rua.
Mal refazendo-se do espanto, Joaninha saiu correndo em direção a sua casa onde encontrou a mãe preparando o almoço de Natal. Segurando-a pelo avental, como a exigir atenção, foi logo contando o que se passara lá na rua e dizendo que Papai Noel não era justo, porque dava aquela menina que já tinha tudo, seu mais lindo presente e a elas, que nada tinham, ofertava simples bonequinhas de pano.
A mãe envolvendo-a num abraço, tentando segurar as lágrimas que insistiam em marejar-lhe o olhar, buscando palavras para explicar o inexplicável, mal conseguiu murmurar: “A minha filha, o mundo é um caminho de injustiças.

Quase cinquenta anos depois, cumprindo um ritual sagrado para seu Natal, Joaninha chegava aquele orfanato, com as amigas, carregando tantos e tão lindos brinquedos para que os pequenos órfãos, já nascidos injustiçados, tivessem, pelo menos, um Papai Noel mais justo...