Continuo afirmando que escrever bem é para poucos...
Não tenho, absolutamente, a presunção de bancar a crítica literária, longe de mim esse "topete", não tenho gabarito para tanto, mas creio que posso dar minha opinião sem ser mal interpretada.
Meu filho tem como paixão a música e a gastronomia, além, claro, da medicina, que é seu trabalho. Quantas horas de nossas tardes de domingo costumam ser passadas nas grandes livrarias, no setor de gastronomia, procurando novidades e descobrindo segredos da culinária mundial através dos livros!... Geralmente, quando almoçamos fora, encerramos nosso passeio com uma visita às livrarias onde sempre se encontram curiosidades como, por exemplo um livro com receitas das "quitandas mineiras" servidas nos velórios, no interior lá das Minas Gerais. Explico: Em locais afastados das grandes cidades, aonde o costume de se velar os mortos em casa ainda permanece, costuma-se, lá pelo meio da noite, na cozinha da casa, ao redor do fogão-de-lenha, onde fica um fumegante bule de café à disposição dos presentes, serem servidas quitandas (da deliciosa confeitaria mineira, como broas, pães de queijo e outras delícias mais) além da cachaça que vai esquentando a noite. E entre um gole e outro, entre um café e outro, vão rolando histórias e estórias, dessas que o povo mineiro sabe contar tão bem e que, apesar do provável inverossímel, juram que é verdade. São "causos" engraçadíssimos, são narrativas que pretendem ser apavorantes, enfim, peças de uma rica cultura popular.
Pois juntando-se essas duas peças, o pitoresco das histórias narradas num velório e as comidas e bebidas lá servidas, só poderia resultar um bom livro que reuniria usos e costumes à uma culinária típica da região. Não poderia ser diferente. Ou poderia? Pois é... Poderia sim, e foi.
Tenho em mãos um livro que, mesmo com tudo para dar certo, deixa muito a desejar. Narrado de uma maneira fria, as histórias parecem sem graça, não prendem a atenção. Não há uma ligação entre as receitas e as histórias, um filão que poderia bem ser aproveitado. Enfim, um livro que ficou sem graça... Por isso disse no inicio que escrever bem é um dom para poucos.
Já num outro livro, maravilhoso, de outra autora, esta liga os poemas e a vida de Cora Coralina à culinária goiana de maneira cativante. É a arte de bem escrever... - Cora Coralina, Doceira e Poeta - este eu recomendaria sem titubear para que gosta de poesia, para quem gosta de culinária...
Nota: Cora Coralina, Doceira e Poeta (Cora Coralina / Claudia Scatamacchia)