floquinhos

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segunda-feira, 9 de maio de 2011

Na menina que fui...


'Na menina que fui está a mulher que sou e vou continuar me tornando até o fim. Ali nasceram o trabalho que faço, meus relatos ou minhas invenções. Meus amores e medos, minha inesgotável busca de entendimentos de todos os segredos que eu mal adivinhava ao meu redor, perto e longe."

(Lya Luft - A riqueza do Mundo)

Entre os presentes "de mãe" que recebi ontem, havia um livro de Lya Luft - e todos vocês sabem o quanto me identifico com o que ela escreve. Ao folheá-lo, dei com a frase acima e pensei: Meus Deus, mas essa sou eu... rs...  Aliás, não sou a única mulher que sente isso ao ler essa maravilhosa e sensível escritora. E como essa, há muitas outras passagens do livro que parecem terem saído de minh'alma...  E isso quer dizer que, muitas outras citações ainda vão passar aqui pelo Prosa. 

quarta-feira, 30 de março de 2011

Mãos que derramam carinho...

José Mauro de Vasconcelos, um dos mais doces escritores de meu coração, abre seu livro "Rosinha minha canoa" com uma explicação:


"ANTIGAMENTE, quando escrevia, deixava entrever minha ternura mas com muito medo. Queria que todos os meus romances cheirassem a sangue e viessem rotulados com o carimbo de: Machos pra Burro. Foi preciso que chegasse aos quarenta anos para perder todo o terror de minha ternura a derramar por minhas mãos que queimam de carinho (quase sempre sem ter ninguém para o receber) a simplicidade deste meu livro. Leia-o quem quiser. De uma coisa estou certo: não tenho nada de que me desculpar perante o público. Apresento, pois, ROSINHA, MINHA CANOA"

E havia tanta ternura no coração desse homem que transbordou para além de sua obra, para além de seu tempo...  Ternura expressa magistralmenete em "Meu pé de laranja lima", um dos meus livros de cabeceira... Hoje, sem mais esta nem aquela, resolvi reler (mais uma vez)  Rosinha minha canoa e, mais uma vez, fui tocada pelas palavras com que José Mauro apresenta seu livro, por isso trouxe-as para o Prosa. E, para aqueles que não se envergonham da ternura que os invade, um convite para voltar a ler esse escritor lindo, doce, que já foi designado como piegas pela crítica literária, mas que eu, derramada em ternura, sempre acolhi com carinho de leitora atenta e fiel. 


sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um livro que recomendo...



Velhice é apenas outra fase: mas, como se ela fosse algo estanque, um setor final, procuramos esquecer-nos dela no nosso baú de enganos, a chave guardada por algum duende que ri de nós (a gente finge não ver). Nem parece que hoje vivemos com melhor qualidade, podendo ter saúde, interesse e afetos até os oitenta ou noventa anos (logo serão mais) desde que levando em conta as limitações normais: parecemos um carro em disparada com os faróis voltados para trás.
Ignoramos que velhos também viajam, estudam, passeiam, namoram, trabalham quando podem, curtem amizade e família - sem se dependurar nelas como vítimas chorosas. Não importam as décadas acumuladas, eles são mais que velhos, são pessoas. Mas para nós, nesta cultura em alguns aspectos bizarra, a velhice é antinatural, é quase uma enfermidade. Em lugar de saborear os prazeres dessa idade, sofremos agonias desnecessárias, agarrados freneticamente à tábua de salvação dos modernos procedimentos estéticos.
E mesmo que se possa manter, com vários recursos, uma aparência boa (não patética, nem que desperte piedade e cause susto) em qualquer idade - escondendo anos de vida a mais -, nenhum artifício, por mais hábil que seja, substitui uma mente arejada, a alegria de viver e o prazer das coisas.

(Lya Luft - em "Múltipla Escolha)


"Múltipla Escolha" é o mais recente lançamento de Lya Luft, essa mulher maravilhosa que nos oferece lições de vida em cada um de seus escritos e cuja leitura aconselho às queridas amigas, em especial, e aos amigos do Em Prosa e Verso.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Dois livros, duas reações...


Continuo afirmando que escrever bem é para poucos...
Não tenho, absolutamente, a presunção de bancar a crítica literária, longe de mim esse "topete", não tenho gabarito para tanto, mas creio que posso dar minha opinião sem ser mal interpretada.
Meu filho tem como paixão a música e a gastronomia, além, claro, da medicina, que é seu trabalho. Quantas horas de nossas tardes de domingo costumam ser passadas nas grandes livrarias, no setor de gastronomia, procurando novidades e descobrindo segredos da culinária mundial através dos livros!... Geralmente, quando almoçamos fora, encerramos nosso passeio com uma visita às livrarias onde sempre se encontram curiosidades como, por exemplo um livro com receitas das "quitandas mineiras" servidas nos velórios, no interior lá das Minas Gerais. Explico: Em locais afastados das grandes cidades, aonde o costume de se velar os mortos em casa ainda permanece, costuma-se, lá pelo meio da noite, na cozinha da casa, ao redor do fogão-de-lenha, onde fica um fumegante bule de café à disposição dos presentes, serem servidas quitandas (da deliciosa confeitaria mineira, como broas, pães de queijo e outras delícias mais) além da cachaça que vai esquentando a noite. E entre um gole e outro, entre um café e outro, vão rolando histórias e estórias, dessas que o povo mineiro sabe contar tão bem e que, apesar do provável inverossímel, juram que é verdade. São "causos" engraçadíssimos, são narrativas que pretendem ser apavorantes, enfim, peças de uma rica cultura popular.
Pois juntando-se essas duas peças, o pitoresco das histórias narradas num velório e as comidas e bebidas lá servidas, só poderia resultar um bom livro que reuniria usos e costumes à uma culinária típica da região. Não poderia ser diferente. Ou poderia? Pois é... Poderia sim, e foi.
Tenho em mãos um livro que, mesmo com tudo para dar certo, deixa muito a desejar. Narrado de uma maneira fria, as histórias parecem sem graça, não prendem a atenção. Não há uma ligação entre as receitas e as histórias, um filão que poderia bem ser aproveitado. Enfim, um livro que ficou sem graça... Por isso disse no inicio que escrever bem é um dom para poucos.
Já num outro livro, maravilhoso, de outra autora, esta liga os poemas e a vida de Cora Coralina à culinária goiana de maneira cativante. É a arte de bem escrever... - Cora Coralina, Doceira e Poeta - este eu recomendaria sem titubear para que gosta de poesia, para quem gosta de culinária...

Nota: Cora Coralina, Doceira e Poeta (Cora Coralina / Claudia Scatamacchia)