floquinhos

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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

De onde vem a tristeza?


Quem bate?

Cecília, Cecília que chega de um pátio da infância... Traz ainda sereno nas tranças, seus sapatinhos andaram pulando na grama...  Depois, assenta-se nos degraus da torre e canta...
Mas o chaveiro do sonho pegou-lhe as tranças, teceu cordoalhas para o seu navio. Mas o chaveiro do sonho pegou-lhe a canção... E fez um vento longo e triste.
E eu pensava que toda a minha tristeza vinha apenas do vento, da solidão do mar, da incerteza daquela viagem num navio perdido...

(Mario Quintana)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

No começo da semana, poesia...


Segunda-feira ensolarada, mas modorrenta, cheia de preguiça, com jeitão de fim de férias... E nesse clima, inspiração? Quem é que tem? E quando isso acontece, melhor ir buscar nos "Poetas de meu coração" um motivo para adoçar a alma, acalmar o espírito que teima em ficar meio inquieto, sem saber bem o que quer. E, para acalmar almas e espíritos, quem melhor que o terno Quintana, com sua doce irreverência, com sua poesia de encantar?


Quem ama inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então, de súbito acendeste a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revoo sobre a ruinaria.
No ar atônito bimbalhavam sinos
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar dos nossos corações
Batendo juntos e festivamente.
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Oh! meu pobre, meu grande amor distante
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado e ter vivido o sonho!


(Mário Quintana)

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Um auto retrato...


O auto retrato

No retrato que me faço
- traço a traço - 
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida em que busco
- pouco a pouco - 
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Desenhado por um louco!

(Mario Quintana)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Já que é sexta-feira...


Oh, Céus!... ando tão sem inspiração...Cadê a graça até nos momentos mais sem graça?... Todo mundo diz que é só uma fase, que vai passar, etc. e tal, mas está custando tanto... Acho que estou mesmo é sentindo falta de sentir a chegada do outono lá no outro hemisfério, do sorriso, do abraço dos kids, do tête-à-tête com minha filhota. O Skype ajuda, mas não é a mesma coisa, né? 
Bom, enquanto a inspiração está em férias, fico me valendo da inspiração maravilhosa e constante dos poetas do meu coração para adoçar o Prosa e nossos queridos amigos e leitores... E como é sexta-feira, dia sempre  tão esperado, vamos deixar aqui um clima de romantismo com a sensibilidade de Florbela Espanca.

Esquecimento

Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapar'ceu.

Tudo ao redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... Tateio sombras... Que saudade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisantemos...

E desse que era meu já me não lembro...
Ah, a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!...

(Florbela Espanca)





sábado, 25 de agosto de 2012

Momentos tão simples, tão mágicos...


Acordo preguiçosa nesta manhã de sábado de um agosto todo ensolarado, azul, como se fosse um mês de primavera... O dia amanhece ainda, ao som peculiar do cantar dos bem-te-vis que, para meu encanto, moram entre as árvores das praças e jardins da redondeza. Vou me deixando ficar entre os lençóis, alma em paz, pensamentos livres, soltos, girando pelo quarto, pela vida... E o recital dos bem-te-vis, na medida em que o dia se faz claro, vai pouco a pouco diminuindo. E o pensamento solto traz à memória uns versos de Drummond, certamente criados em um momento meio mágico, como este...


O PASSARINHO EM TODA PARTE

Bem te vi, bem-te-vi
bem te ouvi recitando
e repetindo nítido
um bentibemtivismo.
Bem te vi na roça.
bem te vi na cidade
que prolongava a roça,
bem te vi no jardim
da República sobre
o cupim das cutias
estátuas no gramado, 
bem te vi na Argentina
quando o chá na planície
chamava a revoada
de borboletas trêmulas
sobre o azul da piscina,
bem te vi, bem te vejo
na vasta galeria 
de bichos e de coisas
irmãos de nossa vida
a esvoaçar na voz
dos mais velhos que ensinam
o almanaque da terra,
bem te vi, bem te vejo
presente entre as ausências
que me vão rodeando
e quando bem te avisto
e te ouço, eis que me assisto
devolvido ao primeiro
bem-ver-ouvir do prístino
bem-te-vi bentevisto.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Mais uma vez;;;


Há um poema de Fernando Pessoa que não há quem não conheça, mas que sempre me encanta. Lírico, delicado, lindo. Esta não será a primeira vez que o trago ao Prosa, mas sempre o faço com uma certa emoção. E como hoje o dia está lindo, azul, ensolarado, levando o coração a pedir lirismo.....

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a sentir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só as que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Este comboio de corda
Que se chama coração.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Eu faço versos como...

                                                   
Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... Remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

(Manuel Bandeira)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Reflexões...


A vida assim nos afeiçoa


Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte um grande bem.
Liberdade apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem!


"Quer para a bem aventurança
"Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;


"Quer, no mistério que te esconde.
"Tu sejas tão somente o fim;
"- Olvido imperturbável, onde
"Não restará nada de mim!"


Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidade de segundo, 
Cuja saudade extingue a voz.


Ao nosso ouvido, embaladora,
A alma de todos os mortais, 
A esperança prometedora.
Segreda coisas irreais.


A vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.


A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...


(Manuel Bandeira)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Os olhos das crianças...

Em meu coração cabem tantos poetas!... Hoje trago para vocês Jorge de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 - Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953). Foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de belíssimos alexandrinos, transformou-se, posteriormente em um modernista.




Olhemos os olhos das crianças, que eles encerram mistérios;
dentro de suas pupilas moram selvagens bons,
pairam neles as lendas das terras desconhecidas.
Olhemos os olhos das crianças;
quando com eles cruzamos os nossos olhos,
há reconhecimentos súbitos
e reminiscências que revivem.
Que ausência de ouro e prata existe neles!
Que verde potros relincham em suas colinas!
Que indiferença pelas arcas ricas!
Como se parecem com os olhos dos poetas!
Olhemos os olhos das crianças,
desprevenidos de crimes e borrascas,
inconscientes entre o Bem e o Mal,
sempre transparentes como a água e o mel.
Olhemos os olhos das crianças,
com seus horizontes claros, claros,
capazes de deixar transparecer
o avô curvado e trêmulo,
o pai de sobrecasaca e a menina mãe.
Fitemos os olhos das crianças
como quem fita um écran
e vê desenrolar-se lá dentro
uma história familiar.
Olhemos os olhos das crianças
para repousar nestes céus sem pensamento
a angústia de procurar pátrias distantes
e as constelações que já morreram.


(Jorge de Lima)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ainda e sempre...


Com a cidade envolta em brumas ou com a cidade intensamente banhada pelo sol, ainda e sempre Cecília...

A MULHER E A TARDE


O denso lago e a terra de ouro:
até hoje penso nessa luz vermelha
envolvendo a tarde de um lado e de outro


E nas verdes ramas, com chuvas guardadas,
e em nuvens beijando os azuis e os roxos.


Até hoje penso nas rosas de areia, 
nos ventos de vidro, nos ventos de prata,
cheios de um perfume quase doloroso.


Perguntava a sombra: "Que há pelo teu rosto?"
"Que há pelos teus olhos?" - a água perguntava.


E eu pisando a estrada, e eu pisando a estrada,
vendo o lago denso, vendo a terra de ouro
com pingos de chuva numa luz vermelha,,,


E eu não respondendo nada.


Sonho muito, falo pouco.
Tudo são risos de louco
e estrelas da madrugada...


(Cecília Meireles)

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Na segunda-feira envolta em brumas...



Numa segunda-feira envolta em brumas, toda cinzenta e fria, os versos de Cecília Meireles...


Canção excêntrica


Ando a procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço 
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.


Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.


Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudades do que não faço,
- do que faço, arrependida.


(Cecília Meireles)

terça-feira, 29 de maio de 2012

A canção da vida...


Inscrição Para Uma Lareira


A vida é um incêndio; nela
dançamos, salamandras mágicas.
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!


Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...


(Mario Quintana)



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Na solidão de Cecília Meireles


Solidão


Imensas noites de inverno
com frias montanhas mudas,
e o som negro mais eterno,
mais terrível, mais profundo.


Este rugido das águas
e essa tristeza sem forma
sobe rochas, desce fráguas,
vem para o mundo e retorna.


E a névoa desmancha os astros,
e o vento gira as areias:
nem pelo chão ficou rastros
nem, pelo silêncio, estrelas.


A noite fecha seus lábios
- terra e céu - guardando o nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.


Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.


(Cecília Meireles)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Hoje é dia de Drummond...

Digam-me, meus amigos, quem além de Drummond transformaria em versos o prosáico (embora maravilhoso) prazer de chupar uma laranja?...



CHUPAR LARANJA


A laranja, prazer dourado.
A laranja, prazer redondo.
A laranja, prazer fechado.
A laranja, prazer da faca.


Ou canivete. Cada golpe
anuncia: já se aproxima
o íntimo prazer da laranja,
que não se dá sem sacrifício.


A laranja não se espedace,
para mais intenso prazer.
A laranja fique redonda, 
mesmo sem casca: esfera nívea.


Então corte rápido a lâmina
um dos polos; a mão aperte,
e a boca sorverá, sensual, 
a líquida alma da laranja.


Quem foi que, anônimo, inventou
o prazer de chupar laranja
em forma global de mamucha?
Gerações antigas sorriem
neste mestrado de volúpia.


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Nos doces caminhos da Poesia...



Hoje, no Prosa, a  alma apaixonada de Florbela Espanca, uma mulher intensa, toda paixão, toda amor....


Meu amor


De ti, somente um nome sei, Amor.
É pouco, é muito pouco e é bastante
Para que esta paixão doida e constante
Dia após dia cresça com vigor!


Como de um sonho vago e sem fervor
Nasce assim uma paixão tão inquietante!
Meu doido coração, triste e amante
Como tu busca o ideal na dor!


Isto era só quimera, fantasia,
Mágoa de sonho que se esvai num dia,
Perfume leve dum rosal do céu...


Paixão ardente, louca, isto é agora,
Vulcão que vai crescendo hora por hora...
O meu amor, que imenso amor o meu!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Então... O Prosa é só poesia...



E poesia de Fernando Pessoa, para adoçar sua tarde...


Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê, quando se abre a janela.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Por quê?... Por quem?...


Versos Brancos

(Guilherme de Almeida)

Uma fina saudade vai varando
a quietude cansada do meu tédio. 
Mas saudade do quê? de quem?...


Os dias
são bolas de cristal, azuis, polidas,
lisas, sem uma aresta traiçoeira
em que venha prender-se e estraçalhar-se
o véu de um pensamento de outros tempos,
sem nem o esconderijo de uma nuvem
onde fique o olhar longo de outrora
olhando para as cinzas deste instante,
nem uma sombra forte em que se oculte
um pedaço perdido do passado...
Tudo em torno de mim é luminoso,
alto e macio, deslizante e lindo,
tudo é apenas um lúcido presente:
é a negação perfeita da saudade...


E no entanto - por quê? por quem?... - eu vejo
e ouço passar na terra a minha vida
cantando uma cantiga vagarosa
de água que leva flores na descida...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Acontece!...



Há mais de meia hora 
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu rítmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da "Enciclopédia Britânica".
Ao lado direito - 
Ah, ao lado direito
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.


Quem pudesse sincronizar tudo isto!


(Fernando Pessoa em "Ficções do Interlúdio - Poesias de Álvaro de Campos")

sexta-feira, 23 de março de 2012

Outonais versos de Florbela....


Outonal


Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio... Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago...


Veludos a ondear... Mistério mago...
Encantamento... A hora que não esquece,
A luz que pouco a pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...


Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!


Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor...


(Florbela Espanca)

terça-feira, 13 de março de 2012

Na manhã de sol, versos de Cecília Meireles...


Soneto Antigo


Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
De mim, atravessada pelo mundo.


Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.


O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.


Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.


(Cecília Meireles)