
A terça-feira amanhece iluminada, como o foi o domingo e a segunda-feira. Dias que, de tão azuis, iluminam a alma, o coração. Azuis, iluminados, mas frios, bem frios e o melhor a se fazer em dias assim é usufruir do conforto de um banco ou de uma espreguiçadeira colocados ao sol e alguns bons textos para leitura, como esse que deixo abaixo para sua apreciação, principalmente se você já caminha pelo outono da vida. Porque sei que vai concordar com Lia Luft, sempre tão lúcida...

Para que "espírito jovem"? Quem nos convenceu de que o nosso espírito de agora é pior, de que toda a experiência nada vale , as descobertas, um mundo que se abriu em tantos anos?
Com uma bagagem interior pobre, conceitos e crenças anêmicas, a semente do medo da velhice, o peso das fantasias em torno de juventude e beleza como um bem supremo se desenvolvendo feito uma planta venenosa de muitas ramificações.
Por que eu quereria ter a alma sempre jovem, e quem disse que ela é necessariamente melhor do que a minha, se tenho setenta ou oitenta anos, e não sucumbi ao mau humor e ao ressentimento?
"Espírito jovem?", disse alguém com muita graça e acerto. "Não quero meu espírito fazendo trejeitos de adoelscente."
Uma amiga, ao fazer oitenta anos, me dizia com o traço de bom humor que a caracteriza: "A idade pesa, sim, mas quantas coisas já não preciso fazer nem provar. Quando tudo parece difícil, a gente dá uns pulinhos, e todos acham que estamos esplêndidas e aí nos sentimos assim."
Outra, com mais idade que isso, indagada sobre o que achava da velhice, respondeu com muita graça, arregalando os olhos sempre luminosos: "Eu acho ótima, pois a alternativa seria a morte!"
Já que o conceito de idade e seus patamares estão mudando (na minha infância mulheres de cinquenta anos eram idosas e se vestiam e portavam como tal), precisamos achar palavras para representar conceitos menos velhos.
(Lya Luft)






