floquinhos

terça-feira, 8 de junho de 2010

Espírito Jovem???


A terça-feira amanhece iluminada, como o foi o domingo e a segunda-feira. Dias que, de tão azuis, iluminam a alma, o coração. Azuis, iluminados, mas frios, bem frios e o melhor a se fazer em dias assim é usufruir do conforto de um banco ou de uma espreguiçadeira colocados ao sol e alguns bons textos para leitura, como esse que deixo abaixo para sua apreciação, principalmente se você já caminha pelo outono da vida. Porque sei que vai concordar com Lia Luft, sempre tão lúcida...


Para que "espírito jovem"? Quem nos convenceu de que o nosso espírito de agora é pior, de que toda a experiência nada vale , as descobertas, um mundo que se abriu em tantos anos?
Com uma bagagem interior pobre, conceitos e crenças anêmicas, a semente do medo da velhice, o peso das fantasias em torno de juventude e beleza como um bem supremo se desenvolvendo feito uma planta venenosa de muitas ramificações.
Por que eu quereria ter a alma sempre jovem, e quem disse que ela é necessariamente melhor do que a minha, se tenho setenta ou oitenta anos, e não sucumbi ao mau humor e ao ressentimento?
"Espírito jovem?", disse alguém com muita graça e acerto. "Não quero meu espírito fazendo trejeitos de adoelscente."
Uma amiga, ao fazer oitenta anos, me dizia com o traço de bom humor que a caracteriza: "A idade pesa, sim, mas quantas coisas já não preciso fazer nem provar. Quando tudo parece difícil, a gente dá uns pulinhos, e todos acham que estamos esplêndidas e aí nos sentimos assim."
Outra, com mais idade que isso, indagada sobre o que achava da velhice, respondeu com muita graça, arregalando os olhos sempre luminosos: "Eu acho ótima, pois a alternativa seria a morte!"
Já que o conceito de idade e seus patamares estão mudando (na minha infância mulheres de cinquenta anos eram idosas e se vestiam e portavam como tal), precisamos achar palavras para representar conceitos menos velhos.

(Lya Luft)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

E porque hoje é segunda feira...


E porque hoje é segunda feira e a cidade volta a ser agitada, com milhões de seus habitantes saindo para o trabalho, enfrentando trens, ônibus e metrô, atulhados, trânsito congestionado, horários a serem cumpridos, problemas a serem resolvidos, dificuldades a serem contornadas, chefes mal humorados, funcionários displicentes, enfim a rotina de uma semana de trabalho pela frente...
E porque sendo segunda feira, não se pode ficar um pouquinho mais entre os lençóis (o tempo urge), porque não se vai descer a Serra do Mar para "pegar uma praia", não há como fazer um passeio pelos parques, ou simplesmente pelas avenidas da cidade, porque não se terá tempo para o bate papo descontraído, o sorvete saboreado num banco de jardim, uma visita a amigos para um churrasquinho à beira da piscina, já que é dia de trabalho...
O dia amanheceu radioso!... Um sol de todo tamanho entrando pelas janelas do apartamento, esparramando-se por sobre os vasos do terraço, iluminando tudo e todos, pondo calor no corpo e na alma nesta manhã fria de quase inverno. E tudo isso em plena segunda-feira... Pode?

sábado, 5 de junho de 2010

Em sábado de chuva fina...


O dia amanheceu frio, chuvoso, meio triste. Um sábado para se ficar em casa, um bom livro, um filme, um momento de paz... Ainda mais que a cidade anda tranquila, vazia, porque em pleno feriadão. Olho pela janela e a beleza da chuva fina caindo sobre os telhados e os jardins das casas do outro lado da rua me encanta, enche minha alma de melancolia e a voz da Bethânia toca lá no fundo, despertando um romantismo incurável, um romantismo que tento manter sob controle nesta altura da vida mas que, mais forte que eu, às vezes quase me sufoca. Fecho meus olhos e viajo pelo tempo, pelo espaço, ares e mares, tudo se confundindo dentro de mim...
E este raio de sol teimoso e fugaz que resolve romper as nuvens cinzentas e chega até mim como um abraço, tentando aquecer-me a alma?... E como por encanto a chuva vai parando, o dia parece ficar mais claro, mas só parece, exatamente como minha alma que só parece andar em paz... só parece...
Volto as costas para um sol que não consegue aquecer, sento-me em minha poltrona preferida, abro um livro de Cacília e, coincidência?, o poema que leio é...

Quem tivesse um amor

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!
Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!
Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormentes e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! quem tivesse... (Mas, quem teve? quem teria?)

(Cecilia Meireles)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um livro que recomendo...



Velhice é apenas outra fase: mas, como se ela fosse algo estanque, um setor final, procuramos esquecer-nos dela no nosso baú de enganos, a chave guardada por algum duende que ri de nós (a gente finge não ver). Nem parece que hoje vivemos com melhor qualidade, podendo ter saúde, interesse e afetos até os oitenta ou noventa anos (logo serão mais) desde que levando em conta as limitações normais: parecemos um carro em disparada com os faróis voltados para trás.
Ignoramos que velhos também viajam, estudam, passeiam, namoram, trabalham quando podem, curtem amizade e família - sem se dependurar nelas como vítimas chorosas. Não importam as décadas acumuladas, eles são mais que velhos, são pessoas. Mas para nós, nesta cultura em alguns aspectos bizarra, a velhice é antinatural, é quase uma enfermidade. Em lugar de saborear os prazeres dessa idade, sofremos agonias desnecessárias, agarrados freneticamente à tábua de salvação dos modernos procedimentos estéticos.
E mesmo que se possa manter, com vários recursos, uma aparência boa (não patética, nem que desperte piedade e cause susto) em qualquer idade - escondendo anos de vida a mais -, nenhum artifício, por mais hábil que seja, substitui uma mente arejada, a alegria de viver e o prazer das coisas.

(Lya Luft - em "Múltipla Escolha)


"Múltipla Escolha" é o mais recente lançamento de Lya Luft, essa mulher maravilhosa que nos oferece lições de vida em cada um de seus escritos e cuja leitura aconselho às queridas amigas, em especial, e aos amigos do Em Prosa e Verso.

Ela foi uma Golden Girl...

The Golden Girls - As Super Gatas

Nos jornais de hoje uma notícia que me entristece: Rue McClanahan, a esfuziante Blanche de "The Golden Girls" morreu esta noite, em sua casa. Vocês se lembram das Golden Girls, aquelas quatro simpáticas senhorinhas , que compartilhavam a mesma casa, todas se unindo para criar um círculo de amizade que funcionava como uma família? Alguns dos leitores do Prosa, mais jovens, talvez não se lembrem, afinal a série deixou de ir ao ar já faz algum tempo.
The Golden Girls, uma das primeiras representações de mulheres idosas na televisão, era uma de minhas séries prediletas, adorava ver a forma como elas viviam a maturidade de suas vidas, cheias de entusiasmo e graça. Cada qual com uma personalidade diferente, Dorothy, a mais certinha, sua mãe, Sophia, uma velhinha saracoteca, Rose, a mais distraída, quase simplória, e Blanche, a mais nova delas, sempre em busca de um envolvimento, de uma paixão. Uma delícia de série, meia hora de lirismo diante da TV.
Das quatro lindas senhoras apenas Betty White (Rose) sobrevive. Mas fica a lembrança de momentos agradáveis e de descontração que conseguíamos ter frente a TV, desfrutando do trabalho talentoso dessas quatro incríveis atrizes. E, a cada uma que se vai, vou sentindo nosso mundinho um pouco mais pobre...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O dia amanheceu saudade...

(Minha eterna saudade)

Hoje o dia amanheceu que é só saudades... Saudade do seu olhar, de sua mão na minha, de sua voz que me envolvia, de seu abraço... O sol tenta rasgar as nuvens e assim aquecer um pouco a cidade hoje vazia, afinal, é mais um feriado. Faz frio lá fora, num prenúncio do inverno que se aproxima. Faz tanto frio aqui dentro nesta sua ausência...

Na voz da Bethânia, nos versos do Vinícius, a minha eterna saudade...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Sobre a passagem do tempo...

(Salvador Dali)

Tempo Repartido

Efêmero animal,
a mais humana das criações humanas,
concebida no delicioso desmaio
da mais fugaz de todas as loucuras,
o homem já nasce com os tempos contados.
Enquanto o tempo o devorava,
descobriu que o tempo passa,
mas fica, para poder continuar a passar
sendo sempre o mesmo todo o tempo,
que nunca pode parar.
Com a ajuda de máquinas,
repartiu a efêmera vida humana
em milhões de pedaços de tempo,
dos quais ressurge inconsútil,
atravessando a noite
no coração de uma estrela
que traz na fronte
a alvorada e o entardecer.

(Thiago de Mello)