floquinhos

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Um pensamento que justifica o texto...


... ou um texto que dá força ao que está contido no pensamento?

Paulo Autran - assim o vi em uma de suas últimas apresentações, no palco do Cultura Artística


“A velhice é como a melancolia do entardecer, tem um que de tristeza, porém traz consigo a sensação do dever cumprido”.
(Paulo Autran)

Na medida em que vamos caminhando pelo tempo, em que vamos atravessando fases, envelhecendo, deixando para trás o vigor e a força dos verdes anos, nossas capacidades físicas e mentais vão diminuindo, tão gradativamente que nem nos damos conta do que vai ocorrendo, e um dia esquecemos isto, no outro dia, aquilo, e vamo-nos adaptando as novas situações que a vida nos impõe.

Tantas décadas percorrendo meus caminhos, ora suaves, ternos, felizes, ora pedregosos, difíceis, tristes, foram marcando meu corpo, minha mente, e começam, como é muito natural a interferir em meus dias...

Porque estou falando isso, coisa tão desagradável de se constatar quanto de se viver? Primeiro, porque não dá para ignorar, ora!... Depois, porque temos que aprender a enfrentar o que nos vem pela vida, sem perder a alegria de viver, sem deixar passar um momento que possa ser feliz. E porque foi por um lapso de memória que deixei passar em branco o aniversário de uma pessoa querida, um primo que me chama “predileta”, que sempre é presença através de e-mails ou telefonemas em qualquer que seja o momento, bom ou ruím, de minha vida. Primo por afinidade, porque na verdade é primo do meu marido, Affonso vive em Belo Horizonte, ao lado de sua querida Laís, filhos, netos, numa doce, confortável e ativa aposentadoria, quase um patriarca, apoio e carinho de irmãos e sobrinhos.

Quando, hoje me dei conta da falta que cometera, apressei-me a enviar-lhe um pedido de desculpas, transmitindo votos meus e da Angélica, enfim, tentando justificar essa ausência em momento tão importante. E como não poderia deixar de ser, sempre cavalheiro, Affonso respondeu gentilmente, acrescentando, ainda, a frase de Paulo Autran. pessoa que foi luz, que deixou um rastro de luz pelos caminhos e palcos da vida, um pensamento lindo, verdadeiro, que gostaria de repassar para vocês, porque tocou a minha alma...

(Affonso Bracarense Costa, o Primo Affonso, é amigo e leitor assíduo do Prosa, o que me deixa toda prosa)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Aconteceu em dezembro.


Arranjou cuidadosamente as flores em um vaso colocado sobre a cômoda de seu quarto de dormir, enquanto tentava dominar aquele sentimento de impotência diante do tempo, que a rondava desde a véspera quando, ao procurar um livro de poesias entre as estantes daquela livraria ouvira uma voz que vivia em sua saudade pronunciar seu nome. Erguera os olhos e dera com o mesmo olhar instigante, meio malicioso que rondara tantos de seus sonhos durante sua adolescência.

Pega assim, de surpresa, pela vida, ficara ali, livro entreaberto nas mãos que agora tremiam, como acontecia sempre que se via diante dele. E aquele sorriso, o mesmo que sempre a desarmava quando se abria em seu rosto de traços fortes, bem delineados, jeito de quem sempre soube o que esperar da vida... E aquela voz envolvente que nem o tempo conseguira mudar...

Não era mais o jovem atlético, insinuante, que tinha diante de si... Não!... Tinha agora, diante de si um elegante senhor, olhando-a com surpresa, e quando estendeu a mão para cumprimenta-lo e ele a reteve entre as dele, a confusão se fez maior em seu coração, ante a emoção que a dominou e que ela procurou disfarçar quando, com voz trêmula, perguntou-lhe como a havia reconhecido, tantas décadas depois. E ele só sorriu e disse:

- Seus olhos... Nunca os esqueci.

O toque do telefone tirou-a de seus pensamentos e, antes mesmo de atender, sabia que era ele. Sentiu, então, que tinha diante de si a possibilidade de realizar aquele sonho que imaginara irrealizável, já que a vida, passando, fizera-a também passar pelo tempo, esse implacável tempo que deixara nela, indeléveis, suas marcas... No corpo e na alma.

Mas, afinal, não dizem por ai que nunca é tarde para sonhar?...

Reclinou-se por sobre o vaso aspirando o aroma delicado das rosas encarnadas que recebera, mergulhou a alma na esperança e partiu em busca do tempo perdido...


Definições...


AMIZADE - quando o silêncio a dois não se torna incômodo.
AMOR - quando o silêncio a dois se torna cômodo.

(Mario Quintana)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Apenas um momento...


A tarde está inteirinha envolta em cinza, numa sexta-feira que pede aconchego, carinho, uma poltrona ao lado da lareira onde a lenha crepita aquecendo o ambiente... Sinatra canta músicas de Natal, o chocolate quentinho cai muito bem aquecendo a vida. Os olhos cerram-se lentamente e o mundo parece em paz... Um momento a se viver, a se lembrar...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Simples como um "Bom dia"...


"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"

(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A noite cai a cada dia mais cedo...

A chuva cai sobre a cidade...

A tarde vai pelo meio, no mostrador do relógio da cozinha, mas a noite cai rapidamente sobre a cidade nesta cinzenta tarde de chuva. Mais uma meia horinha e já se fará noite... A alma inquieta vagueia dentro de mim, fazendo-me andar pela casa vazia. Na TV de tantos canais de filmes, nenhum que prendesse minha atenção. O livro que ainda está pela metade acabou ficando esquecido sobre a cama... A música acabou por me deixar um tantinho triste, melancólica como a tarde. Não diria, como Manuel Bandeira, que só resta tocar um tango argentino, porque os tamgos trazem saudades maiores... Acho que só me resta mesmo é tentar fazer um bolo para os kids. Ó, céus, mas que tremenda falta de imaginação!... Ou seria de inspiração? Ah, isso nem é mais novidade nesta fase da vida, mas enfim... Daqui a pouco passa e eu volto a me encantar com a magia de um anoitecer chuvoso. E ainda vou ter um bolinho bem gostoso para acompanhar o chá ou o chocolate quente, logo mais a noite.

As coisas mais simples da vida...


Belo Belo

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

(Manuel Bandeira)