
Os últimos dias foram cinzentos, de muito frio, dias de se ficar encolhida, entre camadas de agasalhos, sonhando com o calorzinho de um raio de sol como este que agora, passando através da vidraça, aquece meus pés ainda envoltos em meias de lã.
O dia, hoje, amanheceu azul e acordei ouvindo o canto do estridente bem-te-vi que deveria estar empoleirado em algum beiral, aquecendo-se ao sol que finalmente se derrama por sobre a cidade. E, ainda envolta nas cobertas, olhos fechados, no doce aconchego de um amanhecer azul, fui mergulhando nuns delicados versos de Cecília Meireles...
Cantiga
Bem-te-vi que estás cantando
nos ramos da madrugada
por muito que tenhas visto,
juro que não viste nada.
Não viste as ondas que vinham
Tão desmanchadas na areia,
quase vida, quase morte,
quase corpo de sereia...
E as nuvens que vão andando
com marcha e atitude de homem,
com a mesma atitude e marcha
tanto chegam como somem.
Não viste as letras que apostam
formar idéias com o vento...
E as mãos da noite quebrando
os talos do pensamento.
Passarinho tolo, tolo,
de olhinhos arregalados...
Bem-te-vi que nunca viste
como os meus olhos fechados...
(Cecília Meireles)





