floquinhos

domingo, 13 de junho de 2010

O Sol traz uma cantiga...


Os últimos dias foram cinzentos, de muito frio, dias de se ficar encolhida, entre camadas de agasalhos, sonhando com o calorzinho de um raio de sol como este que agora, passando através da vidraça, aquece meus pés ainda envoltos em meias de lã.
O dia, hoje, amanheceu azul e acordei ouvindo o canto do estridente bem-te-vi que deveria estar empoleirado em algum beiral, aquecendo-se ao sol que finalmente se derrama por sobre a cidade. E, ainda envolta nas cobertas, olhos fechados, no doce aconchego de um amanhecer azul, fui mergulhando nuns delicados versos de Cecília Meireles...

Cantiga

Bem-te-vi que estás cantando
nos ramos da madrugada
por muito que tenhas visto,
juro que não viste nada.

Não viste as ondas que vinham
Tão desmanchadas na areia,
quase vida, quase morte,
quase corpo de sereia...

E as nuvens que vão andando
com marcha e atitude de homem,
com a mesma atitude e marcha
tanto chegam como somem.

Não viste as letras que apostam
formar idéias com o vento...
E as mãos da noite quebrando
os talos do pensamento.

Passarinho tolo, tolo,
de olhinhos arregalados...
Bem-te-vi que nunca viste
como os meus olhos fechados...

(Cecília Meireles)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

No Dia dos Namorados...


Quando menina, ou mesmo adolescente, o Dia dos Namorados era pura magia, fantasia. sonho... Sonho de crescer e ter um namorado que me trouxesse flores, que me envolvesse num doce abraço...
Fui, desde sempre uma incorrigível sonhadora, uma romântica "de carteirinha", dessas que podem até sofrer decepções, chorar rios de lágrimas, mas que vão, ainda assim, acreditar no amor. E o que é pior (será que é?), vão passar a vida esperando que ele chegue para acalentar-lhes a alma.
Era, eu, tão miseravelmente romântica a ponto de (imaginem só), em plenos "Anos Dourados" sonhar com uma serenata, daquelas que os rapazes apaixonados faziam sob as sacadas das moçoilas casadouras, nos tempos de minha mãe... rs...
Um dia, muito tempo depois de casada, confidenciei ao meu marido esse meu sonho e ele, todo carinho, enlaçou-me dizendo: - "Ah, minha flor, mas porque você não me disse isso antes... Eu ficaria feliz em fazer uma serenata pra você, mas agora, de que jeito? Moramos no quinto andar..." Conhecendo-o como o conhecia, sabia que ele não "pagaria esse mico". Não naquela época, por mais apaixonado que estivesse... Era meio tímido, cheio de cerimônias, bem diferente do homem de depois, dos últimos anos de nosso casamento, extrovertido, alegre... Mas nunca foi um homem romântico, dado a oferecer flores. Preferia ofertar-me perfumes (e tinham que ser franceses), uma de minhas paixões. Isso depois de faze-lo entender que eletromésticos não são presentes válidos para namoradas... rs... Já os cristais que ele também gostava de me dar, deixavam-me encantada.
Pois foram quarenta e quatro Dias dos Namorados... Vejam só quantos perfumes e quantos cristais eu ganhei!... Ainda guardo comigo o vidro vazio do Femme, primeiro presente dele em nosso primeiro 12 de junho. Guardo-o junto com suas cartas, carinhosamente, como uma relíquia.
E como nunca mais deixei de usá-lo nas noites de inverno, será o perfume que me envolverá em mais este Dia dos Namorados, para mim, dia de uma doce, terna saudade...

Para os amigos e leitores do Prosa que tenham a dádiva do amor em seus corações, em suas vidas, meu abraço e um

FELIZ DIA DOS NAMORADOS...

O encanto das tardes borralheiras...

Dia cinzento de junho, inverno chegando...
Imagino que tenha sido num dia assim, com este jeito de triste, em que, melancólico, sentindo falta das cores da Primavera ou do céu que vai se limpando após uma tempestade de verão, nosso doce poeta escreveu estes versos...
Para vocês, a ternura de Quintana...


Triste Encanto

Triste encanto das tardes borralheiras
Que enchem de cinza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...

A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus... O frio que a pobrezinha sente!

Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...

Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre...


(Mario Quintana)

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Simplesmente Pessoa...


"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara,.
Quando a tirei e me vi ao espelho
Já tinha envelhecido,
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime."

(De "Tabacaria")

Dia de Camões, Dia de Portugal, Dia da Raça...

(Esta linda imagem foi tomada emprestada ao blog Pitanga Doce. Obrigada, Mila)

Minha querida amiga Mila, do encantador blog "Pitanga Doce" alerta-me para a data de hoje, 10 de junho: Dia Camões, Dia de Portugal e das Comunidades. E tem lá em seu espaço uma homenagem à data (vão lá ler, está linda), que termina dizendo do orgulho de ser portuguesa, ainda que por opção. Orgulho que carrego também dentro de mim, não só por opção ou por ser filha de portugueses, mas também, e principalmente, por ter, por inteiro, alma portuguesa.

Deixo aqui meu abraço aos meus queridos amigos d'aquem e d'além-mar que sintam vibrar em si um doce amor pelas terras portuguesas e por sua gente.

O teu silêncio é...


Faz tempo que não trago aqui, para nosso bate-papo, meu amado Fernando Pessoa. Não que não o leia sempre, nada disso... É que são tantos os poetas de meu coração que acabo me perdendo entre eles. Então, hoje o dia é do Mestre...

HORA ABSURDA

(Fernando Pessoa)

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso, no teu silêncio, é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia... e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a idéia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha idéia de te sonhar, uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá fora... É em mim... Sou a Hora.
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Mas o céu é pesado como a idéia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda, é vazia... A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como os leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há.
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

(continua)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Na sua quarta-feira, Guilherme de Almeida

Ausência

(Guilherme de Almeida)

Ausência, minha noiva de olhos baixos, minha
santa azul, cor de céu, cor de distância! Ausência,
que vem bater-me à porta, e me chama e caminha
comigo, passo a passo, ao longo da existência!

Fala - mas sua voz é um bojo silencioso;
olha - seu olhar oco esvazia uma vida;
passa - seu vulto é como o vácuo luminoso
que deixasse no céu uma estrela abolida...

Ela estende no espaço as asas transparentes
de horizonte a horizonte e, ascensional e clara,
branca de lua, entre as cidades diferentes,
desdobra o gesto vagaroso que separa.

Depois, escolhe do alto uma vida: e baixando
o voo de cristal, ela nos bate à porta,
pede pousada... E fica ali gesticulando
o seu gesto outonal de névoa e folha morta.

E ela deixa na vida, então, de que se apossa,
a ressonância que há numa caixa vazia:
e o coração tem medo de bater...
Ó Nossa
Senhora da Saudade e da Melancolia!