floquinhos

sábado, 5 de junho de 2010

Em sábado de chuva fina...


O dia amanheceu frio, chuvoso, meio triste. Um sábado para se ficar em casa, um bom livro, um filme, um momento de paz... Ainda mais que a cidade anda tranquila, vazia, porque em pleno feriadão. Olho pela janela e a beleza da chuva fina caindo sobre os telhados e os jardins das casas do outro lado da rua me encanta, enche minha alma de melancolia e a voz da Bethânia toca lá no fundo, despertando um romantismo incurável, um romantismo que tento manter sob controle nesta altura da vida mas que, mais forte que eu, às vezes quase me sufoca. Fecho meus olhos e viajo pelo tempo, pelo espaço, ares e mares, tudo se confundindo dentro de mim...
E este raio de sol teimoso e fugaz que resolve romper as nuvens cinzentas e chega até mim como um abraço, tentando aquecer-me a alma?... E como por encanto a chuva vai parando, o dia parece ficar mais claro, mas só parece, exatamente como minha alma que só parece andar em paz... só parece...
Volto as costas para um sol que não consegue aquecer, sento-me em minha poltrona preferida, abro um livro de Cacília e, coincidência?, o poema que leio é...

Quem tivesse um amor

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!
Quem tivesse um amor - longe, certo e impossível -
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!
Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormentes e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado...
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
Ah! quem tivesse... (Mas, quem teve? quem teria?)

(Cecilia Meireles)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Um livro que recomendo...



Velhice é apenas outra fase: mas, como se ela fosse algo estanque, um setor final, procuramos esquecer-nos dela no nosso baú de enganos, a chave guardada por algum duende que ri de nós (a gente finge não ver). Nem parece que hoje vivemos com melhor qualidade, podendo ter saúde, interesse e afetos até os oitenta ou noventa anos (logo serão mais) desde que levando em conta as limitações normais: parecemos um carro em disparada com os faróis voltados para trás.
Ignoramos que velhos também viajam, estudam, passeiam, namoram, trabalham quando podem, curtem amizade e família - sem se dependurar nelas como vítimas chorosas. Não importam as décadas acumuladas, eles são mais que velhos, são pessoas. Mas para nós, nesta cultura em alguns aspectos bizarra, a velhice é antinatural, é quase uma enfermidade. Em lugar de saborear os prazeres dessa idade, sofremos agonias desnecessárias, agarrados freneticamente à tábua de salvação dos modernos procedimentos estéticos.
E mesmo que se possa manter, com vários recursos, uma aparência boa (não patética, nem que desperte piedade e cause susto) em qualquer idade - escondendo anos de vida a mais -, nenhum artifício, por mais hábil que seja, substitui uma mente arejada, a alegria de viver e o prazer das coisas.

(Lya Luft - em "Múltipla Escolha)


"Múltipla Escolha" é o mais recente lançamento de Lya Luft, essa mulher maravilhosa que nos oferece lições de vida em cada um de seus escritos e cuja leitura aconselho às queridas amigas, em especial, e aos amigos do Em Prosa e Verso.

Ela foi uma Golden Girl...

The Golden Girls - As Super Gatas

Nos jornais de hoje uma notícia que me entristece: Rue McClanahan, a esfuziante Blanche de "The Golden Girls" morreu esta noite, em sua casa. Vocês se lembram das Golden Girls, aquelas quatro simpáticas senhorinhas , que compartilhavam a mesma casa, todas se unindo para criar um círculo de amizade que funcionava como uma família? Alguns dos leitores do Prosa, mais jovens, talvez não se lembrem, afinal a série deixou de ir ao ar já faz algum tempo.
The Golden Girls, uma das primeiras representações de mulheres idosas na televisão, era uma de minhas séries prediletas, adorava ver a forma como elas viviam a maturidade de suas vidas, cheias de entusiasmo e graça. Cada qual com uma personalidade diferente, Dorothy, a mais certinha, sua mãe, Sophia, uma velhinha saracoteca, Rose, a mais distraída, quase simplória, e Blanche, a mais nova delas, sempre em busca de um envolvimento, de uma paixão. Uma delícia de série, meia hora de lirismo diante da TV.
Das quatro lindas senhoras apenas Betty White (Rose) sobrevive. Mas fica a lembrança de momentos agradáveis e de descontração que conseguíamos ter frente a TV, desfrutando do trabalho talentoso dessas quatro incríveis atrizes. E, a cada uma que se vai, vou sentindo nosso mundinho um pouco mais pobre...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O dia amanheceu saudade...

(Minha eterna saudade)

Hoje o dia amanheceu que é só saudades... Saudade do seu olhar, de sua mão na minha, de sua voz que me envolvia, de seu abraço... O sol tenta rasgar as nuvens e assim aquecer um pouco a cidade hoje vazia, afinal, é mais um feriado. Faz frio lá fora, num prenúncio do inverno que se aproxima. Faz tanto frio aqui dentro nesta sua ausência...

Na voz da Bethânia, nos versos do Vinícius, a minha eterna saudade...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Sobre a passagem do tempo...

(Salvador Dali)

Tempo Repartido

Efêmero animal,
a mais humana das criações humanas,
concebida no delicioso desmaio
da mais fugaz de todas as loucuras,
o homem já nasce com os tempos contados.
Enquanto o tempo o devorava,
descobriu que o tempo passa,
mas fica, para poder continuar a passar
sendo sempre o mesmo todo o tempo,
que nunca pode parar.
Com a ajuda de máquinas,
repartiu a efêmera vida humana
em milhões de pedaços de tempo,
dos quais ressurge inconsútil,
atravessando a noite
no coração de uma estrela
que traz na fronte
a alvorada e o entardecer.

(Thiago de Mello)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Um encanto?


"Você sabe o que é o encanto? É ouvir um sim como resposta sem ter perguntado nada."

(Albert Camus)

Tudo acabava em lindos versos...

(Percy Lau - Desenho)

Um bonde cheio de pernas, uma pedra no caminho, uma cidadezinha que oferecia uma vida muito pacata, quase besta, tudo era tema para a poesia de Drummond. Lugares, momentos, pessoas, indas e vindas, tudo transformava-se em poesia sob o olhar de nosso poeta maior. Assim também o foi por ocasião do falecimento de um desenhista peruano radicado no Brasil, Percy Lau, cujos trabalhos a bico de pena teciam um retrato dos tipos e aspectos de nossa terra, de nossa gente e que ficou lembrado para sempre nos versos transcritos abaixo...

PERDA

Os peões, os seringueiros, os pescadores de surubim,
os canoeiros, as baianas do acarajé,
os ervateiros do sul, os carreiros paraibanos,
as rendeiras sentadas, cachimbando e tecendo,
o vendedor aquático de açaí, os índios,
a gente que trabalha nos mundos do Brasil,
os bois do Mato Grosso, os cavalos do pampa,
os jacarés esculpidos nágua de Marajó
e
as vitórias-régias, os carnaubais,
ou a perder de vista canaviais que o vento acaricia,
as plantas, as pedras, as paisagens
e
os pertences da casa, as roupas de couro, os arreios,
o viver geral e humilde,
a terra brasileira em seus infinitos
matizes e vivências,
tudo quedou triste, sem ruído:
morreu Percy Lau, que desenhava o Brasil.

(Carlos Drummond de Andrade)