floquinhos

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

E afinal, eu estava certa...


"Se você sente tédio quando está sozinho é porque está em péssima companhia".

(Jean Paul Sartre)

Sempre disse isso, só que em outras palavras.
Sempre afirmei que não sentia solidão porque eu era boa companhia. Dizia isso brincando quando amigos estranhavam o fato de eu viver só, de gostar de ficar no meu canto com meus livros, meus CDs, meus bordados, meu computador que é minha janela para o mundo, enquanto pessoas de minha idade viviam procurando afazeres e distrações fora de casa, tentando driblar a solidão...
E agora encontrei esta frase de Sartre que, finalmente, me dá razão... Ou, pelo menos, endossa meu comportamente mais caseiro, mais tranquilo, meu gosto por estar comigo mesma grande parte do meu tempo. Sei que muita gente não vai entender esse gosto, mas...
E olhe, não é "eu me basto", nada disso. Eu amo as apessoas, preciso conviver com elas, partilhar minha vida, mas isso não exclue minha necessidade de estar comigo mesma pelo menos uma parte do dia. Mas ajuda muito a fazer de minhas madrugadas insones momentos de paz e de criatividade, momentos de encontro com minha alma inquieta, momento de extravazar essa inquietude, momento de ser mais verdadeira e aberta para o mundo... E disso tudo resultou uma união que me faz bem... Eu e a madrugada. Junte-se a isso música e luar e...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Claro que a vovó consegue!...


(meua amores daqui do hemisfério norte, Philip, Angélica e Alexander)

Normalmente venho para Winchester durante o verão e, até o divórcio de minha filha os kids passavam as férias fazendo cursos de teatro e eu, apesar de ficar responsável pela cozinha nesse período, não tinha preocupação com eles. Agora, a situação ajustando-se ainda, minha filha e eu achamos por bem deixar os meninos em casa durante o mês de agôsto, ficando comigo. E foi maravilhoso poder estar com eles mais tempo, embora, claro, mais cansativo, pois minha filha vai para o trabalho no MIT pela manhã e volta a tardinhs e a vovó tem que estar atenta a tudo.
Final das férias, as aulas recomeçaram no dia primeiro mas, já amanhã há uma reunião dos professores e segunda feira aqui é o Labor Day (Dia do Trabalho), o que significa que eles só voltam as aulas na proxima terça feira. Então!... Vovó em tempo integral de novo...

Estavamos em meu quarto, agora a noite, minha filha, meus netos e eu, como acontece sempre, conversando, lendo, ouvindo música, enfim, desfrutando de um tempo em que minha filha gosta de ficar com os kids, após um dia de trabalho e o Philip todo animado disse que ficariam quatro dias inteirinhos em casa. Fingindo perplexidade, olhei para ele e disse:
- O que!... De novo em casa?... Vou ter que cuidar de vocês quatro dias seguidos? Mais quatro dias, inteirinhos?...
Sem titubear, ele olhou para mim, abriu seu sorriso lindo e retrucou:
- Come on, vovó, isso é fácil!... Você fez isso o mês inteiro e foi tão bom. Quatro dias não é nada, você consegue...
E a vovó, completamente desmoralizada, caiu na risada, que contagiou todo mundo. Para uma criança, tudo é sempre fácil, mas ninguém podia negar que ele estava certo... Foi fácil e gostoso esse tempo de férias, eu "tirei de letra". Então... mais quatro dias são só um premiozinho, um bonus, nada mais... risos...
Depois disso volto ao ninho, já com o coração cheinho de saudades dos meus gringuinhos que só vou rever por ocasião do Natal, quando eles devem ir ao Brasil para passarem conosco as festas de final de ano.
E como costumo brincar com eles, só me resta dizer: "Vovó love you so much, kids...
"

Pensando bem...


Não há nada melhor para uma alma do que tornar menos triste outra alma.

(Paul Verlaine)

Fernando Pessoa: sobre aproveitar o tempo...


APOSTILA

(Alvaro de Campos)

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...

Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajas tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto?

Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,

E estremece, no mesmo movimento que o da terra,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

3 de setembro... Blogosfera está em festa...


Nossa querida amiga Elvira Carvalho, do excelente blog "Sexta Feira" comemora hoje, 3 de setembro, mais um aniversário e está recebendo seus amigos e leitores para um brinde e uma deliciosa fatia de bolo. Não deixem de dar uma passadinha por lá para um abraço nessa pessoa tão especial e amiga. A festa está linda e muito concorrida.
Parabéns, Elvira, muita paz em seus caminhos, muito amor em sua vida, enfim, tudo de melhor para você neste seu aniversário e em cada um dos dias de sua vida.

Beijos.

Nota - por diferença de fuso horário, esta postagem saiu como 2 de setembro, sendo que o aniversário da Elvira é no dia 3, portanto hoje. Peço desculpas pela falta. Podem ir lá no Sexta Feira que a festa é hoje.

E a lua fez pose para a foto...

(foto tirada da janela da sala - pelo que se vê, a lua não contagia minha câmera que, enciumada, recusa-se a reproduzir fielmente a imagem que se descortina lá fora... rs...)

Ontem saí para jantar com minha filha e na volta, durante todo o trajeto do restaurante a casa fui, encantada, namorando a lua...
Ao sair do restaurante meus olhos perderam-se naquele céu azul do anoitecer de um dia de verão aonde ela imperava em toda sua beleza de quase cheia e a medida em que a noite foi caindo, minha alma deixando-se envolver por sua luz suave, doce, foi permitindo que meu coração se enchesse de ternura e, numa espécie de magia, meu pensamento foi mergulhando no passado, dançando entre outras noites como esta, noites que eram plenas de sonho, de fantasia, de amor...
Angélica, mais prática e menos romântica do que a mãe, astrônoma que é e, como tal olhando para a lua de forma não tão poética. sorrindo, deixou-se ficar na direção do carro sem falar, para não atrapalhar meu momento...
De momentos assim são preenchidos meu coração e minha alma... Da suave luz do luar que se derrama esta noite sobre Winchester, minha fantasia alça voos, escreve histórias...

Na madrugada do dia dois de setembro do ano de dois mil e nove

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A poesia de Paulo Bonfim

(clique na imagem para ampliar)

Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.