O dia amanheceu azul, de um azul suave, outonal, como um convite a vida, ao amor, a alegria de estar presente, ainda, neste caminhar... Azul anunciado ontem ao entardecer, pela presença de um arco-íris cortando o céu, diáfano, fugidio... Tão fugidio que durou menos do que o tempo que levei para ir ao quarto buscar minha câmera para nela tentar eternizar o momento... Mas duradouro a ponto de despertar em mim lembranças do olhar embasbacado de uma menininha que, correndo descalça pela rua, após uma chuvarada de verão, ergueu os olhos para o céu onde, naquele momento exato, surgia um arco-íris, cuja visão a fez estancar e ali ficar, parada, esquecida do resto do mundo, e de como cavalgou nas cores que a encantavam, em busca do pote de ouro dos sonhos ainda ingênuos, pueris... E das lembranças de como ficou decepcionada, tempos mais tarde, ao saber que o arco-íris, pura magia, nada tinha de mágico, já que não passava de pura refração da luz - porque esses cientistas tinham sempre que atrapalhar a imaginação da gente, trazendo-nos uma realidade tão sem graça? E como se não bastasse isso, ainda acabariam com seu bom amigo Papai Noel, com as fadas e os duendes, e só não tinham acabado com o Coelhinho de Páscoa também porque ele ainda não existia (pelo menos para as crianças daquele bairro pobre). Depois dessas descobertas, um arco-íris nunca mais foi igual, embora nunca tenha perdido sua magia, como a lua que, transformada em simples satélite da terra, ainda assim, continuou mágica, amiga, confidente... A alma romântica e sonhadora daquela menininha, afinal, era imutável e os sonhos continuariam vida a fora, como lastro para uma vida mais terna...
Sim, porque a menina que ainda mora em mim, ainda sente vontade de ficar descalça após um temporal e correr pela rua pisando nas poças d'agua deixadas pela chuva, ainda sonha diante da lua escancarada nos céus em noites de verão, em madrugadas de outono, ainda percebe lágrimas nos olhos ao ver um lindo arco-íris anunciando que o sol sempre volta a brilhar...





