floquinhos

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ao cair da tarde...


"Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa."

(Clarice Lispector)

Um blog que recomendo (18)

(A rosa se entreabre diante da câmera do Louro)

Hoje trago para vocês um cantinho cheio de luz e cores, guardadas nas belas fotos de nosso amigo Lourenço, do lindo blog "Louro Fotos".
Se você gosta de fotos que permitam que seus olhos passeiem demorada e prazerosamente entre o céu e o mar, que se percam na beleza das flores capturadas em seu esplendor, se gosta de lindas paisagens, este blog é, sem dúvida alguma, um lugar para suas visitas.
Para mim, um lugar mais que especial, pois sempre encontro por lá as belezas da terra que foi berço do lado paterno de minha família, a encantada Ilha da Madeira, um lugar que sempre quis conhecer, um lugar que foi orgulho na alma de meu pai. Um lugar que fica ainda mais lindo através da objetiva do Lourenço...

E, juntando-se a isso, ainda vão por lá encontrar, ilustrando as fotos, os poemas de nossa querida Fernandinha, de quem (especialmente) falo numa das próximas postagens.

terça-feira, 16 de março de 2010

No silêncio da noite, Cecília Meireles...


O Tempo no Jardim

Nestes jardins - há vinte anos - andaram nossos muitos passos,
e aqueles que então éramos, se contemplaram nestes lagos.

Se algum de nós avistasse o que seríamos com o tempo,
todos nós choraríamos, de mútua pena e susto intenso.

E assim nos separamos, suspirando dias futuros,
e nenhum se atrevia a desvelar seus próprios mundos.

E agora que separados vivemos o que vivido,
com doce amor choramos quem fomos nesse tempo antigo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Um coração vulnerável...


"Meu coração se transforma a cada experiência. Mas ainda palpita, sobressalta e se assusta. Ainda é vulnerável como quando eu tinha dez anos."

(Lya Luft)

Um dia para a alma...


Uma segunda-feira enfarruscada, com o vento balançando os galhos das árvores lá fora, sibilamdo entre as frestas da janela não bem fechada, anunciando possíveis chuvas a atrapalhar a vida desta cidade já tão atrapalhada...
No corpo e na alma os rescaldos de um domingo cheio, com a casa cheia, a tradicional balbúrdia na cozinha que meu filhote costuma fazer quando resolve pilotar o fogão... Corpo pedindo descanso, alma pedindo paz, tranquilidade, recolhimento para uma "recarga de baterias".
Em meia hora, minha fiel escudeira chega trazendo nas mãos pãezinhos frescos, ainda quentinhos, comprados na padaria que fica no caminho, entre o ponto do ônibus e minha casa, o café da manhã saboreado com calma - pena o tempo não o permitir no terraço - e depois então o dia começa, calmo, pachorrento, preguiçoso, gostoso demais. Um dia para os livros, a música, os bordados. Um dia para a meditação, a sensibilidade, desses dias em que nos sentimos como se estivéssemos a espera de alguém que, sabemos, nunca virá. Um dia para a alma que vai se tornando terna ao som do violino de Joshua Bell...

domingo, 14 de março de 2010

Dia Nacional da Poesia

Acabo de receber um visita muito especial da Maria, do blog "Divagar Sobre Tudo um Pouco", a lembrar-me gentilmente que hoje, aqui no Brasil, comemora-se o Dia Nacional de Poesia. Assim, lembrando Meus Poetas do Coração, homenageio a cada um deles e deixo uns versos prediletos do Mestre e prediletíssimo Fernando Pessoa, para vocês.

      TABACARIA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre
    o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só
    o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe
    Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928

Mudanças que o tempo traz


Tenho já um longo percurso feito pela vida, são décadas a caminhar, a viver momentos - bons uns, nem tanto outros e outros ainda que preferiria nem ter passado, mas assim é percorrida a vida, assim passamos por ela e pelo tempo... E vou acompanhando as mudanças, o modo de vida de cada geração, seus usos, seus costumes, suas regras sociais, pois a vida em sociedade requer regras como respeito mútuo, solidariedade, coisas desse naipe, para que conflitos possam ser evitados.
Mas meus amigos, como as coisas mudaram nesta última década!... Como o comportamento das pessoas anda deixando a desejar!... Vejam bem, não estou, absolutamente, generalizando, mas noto mudanças para muito pior na maioria das vezes que saio de casa, seja na rua, no transporte público, no trânsito, nos restaurantes, nos cinemas, nos parques, em qualquer lugar. E nas escolas, então? Nas escolas, que sempre tivemos como lugares quase sagrados, o desrespeito impera, e nem preciso citar exemplos, todos vocês estão cansados de os ver.
E é exatamente nas pequenas coisas, nessas coisas que não julgamos importantes que, se estivermos atentos, percebemos o que acontece, a pontinha do iceberg do descaso, do desrespeito... Quando, nos meus verdes anos, uma criança, um adolescente, ou mesmo um adulto jovem permaneceria sentado em qualquer que fosse o lugar quando percebesse um idoso, uma gestante, um deficiente, em pè? Pois prestem atenção nos ônibus, nos vagões do metrô, em qualquer sala de espera, e por ai a fora... Esta meninada de hoje parece que já nasceu cansada! Mas acho que vivem cansados mesmo, porque passam suas noites e suas madrugadas em frente a um computador, em baladas, em barzinhos, sem se importarem com o fato de que no dia seguinte terão que ir para a escola, o trabalho, sei lá aonde. Quase ninguém exige mais dos filhos o cumprimento de horários, ou ensina a eles o valor do respeito pelos mais velhos, pelo seu semelhante - eles não podem ser contrariados senão crescem traumatizados - e o resultado anda à vista para quem quiser ver...
Quando um cavalheiro entrava num recinto fechado, ou se postava diante de um senhora sem tirar o chapéu? Bom, mesmo que não cheguemos a isso, quando um homem sentava-se à mesa com a cabeça coberta? Pois tenho visto em restaurantes homens sentados à mesa, com bonés ou chapéus (estes são raros), mas na semana retrasada, num restaurante lá da Benedito Calixto, um homem estava refastelado junto a uma mesa com várias pessoas, todo prosa de seu chapéu Pananá a cobrir-lhe as madeixas... Tanto que vez por outra, alisava-lhe a aba carinhosamente... Estava a sentir-se um dandi... E ainda ontem, num outro restaurante, também típico, um senhor que deveria se achar muito bem posto, visto que sua camiseta era de marca, arrastava velhas sandálias havaianas, aquelas que foram criadas para a praia ou o banho, entre mesas e comensais como se estivesse numa passarela.
Ora, ninguém precisa ir a um almoço como quem ia a um teatro nos anos 50, mas será que a deselegância do povo desta cidade que já foi considerada uma das mais elegantes do país, precisa chegar a tanto?
Ah, eu sei que muitos de vocês vão dizer que isso não é importante, que há muito e muito mais coisas, muito piores, que merecem consideração e atenção... Eu sei que sim, tenho plena consciência disso, mas do jeito que as coisas andam...
Até gostaria de saber de meus amigos o que mais os incomoda neste nosso mundo tão eclético, tão, digamos, cada um por si...